25 de Maio: africanos no Brasil refletem o Dia da África

Em meio a pandemia de Covid-19, afirmação de direitos, discriminação, protagonismo e as formas de solidariedade, os africanos residentes no Brasil, mulheres e homens, refletem o Dia da África neste 25 de Maio

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Mama África (ao centro) homenageada em 2018 na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. (Foto: Alex Vargem)

Por Alex André Vargem*

“Vidas pretas importam! É preciso o reconhecimento e respeito aos africanos e todos os negros no mundo”, declara o africano Domingos, cabo-verdiano residente no Brasil.

Recorda- se, no dia 25 de maio, a luta pela independência do continente contra a colonização europeia e contra o regime do Apartheid que estabeleceu a segregação racial na África do Sul. Foi instituído porque neste dia, em 1963, que se criou a Organização da Unidade Africana (OUA), na Etiópia, com o objetivo de defender e emancipar o continente africano.

Em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 25 de maio como o Dia da África ou o Dia da Libertação da África. Em 2002 a OUA foi substituída pela União Africana, mas a celebração da data manteve-se.

No Brasil, cuja maioria da população é composta majoritariamente por afrodescendentes (54% da população) ao longo dos anos, atividades são realizadas por grupos de diferentes nacionalidades que aqui residem.

Africanos durante a 11º Marcha dos Imigrantes e Refugiados em São Paulo, em dezembro de 2017.
(Foto: Alex Vargem)

Mesmo em tempos de Covid-19 e dado o isolamento social, na data solene reflete-se como uma forma de afirmar o protagonismo, a releitura da luta anticolonial, denúncias contra o racismo e xenofobia, combater estereótipos negativos, em muitos casos, dada a relação histórica do racismo estrutural advindos de inúmeras situações, em especial, daqueles que residem no Brasil, as considerações sobre as relações hierarquizadas na sociedade entre brancos e não-brancos, nacionais e não-nacionais, o lugar de fala neste contexto marca o posicionamento negro africano frente às diversas situações, cujo papel político e pedagógico é fazer com que muitos não-africanos compreendam as múltiplas realidades.

Reflexo de conquistas

Para João Canda, escritor angolano que reside em São Paulo faz 5 anos, palestrante em questões africanas, produtor cultural e fundador da Literáfrica:

“O dia da liberdade e libertação da África como chamado anteriormente e comemorado anualmente todo dia 25 de Maio, nos remete a uma profunda reflexão em relação ao papel do continente berço no mundo, as conquistas que precisam ser ampliadas e consolidadas, procurando sempre compreender a evolução história dos povos africanos em sua relação com os outros povos e, por meio da arte, espelhar a riqueza cultural e vivências africanas”, ressalta o escritor que realiza grandes eventos no país sobre a temática.

João Canda, escritor angolano, durante palestra sobre africanidades na Câmara dos Vereadores de São Paulo.
(Foto: Arquivo pessoal)

Entre os grandes expoentes da migração africana no Brasil, é importante frisar o destaque para as grandes ações realizadas por diversos grupos e pessoas nestes anos, em especial, protagonizado pela senhora Diamu Diop, conhecida por todos como Mama África. Pude acompanhar sua trajetória ao longo destes anos —especialmente, sua liderança — na construção de uma rede de apoio e solidariedade em torno das pessoas desabrigadas (migrantes e brasileiros) em decorrência do incêndio e desabamento do edifício Wilson Paes de Almeida, no dia 1 de maio de 2018.

Senegalesa, ela tem atuado frente às diversas situações para o prol e bem-estar da sua comunidade desde sua chegada aqui no ano de 2006, se tornou uma importante referência para africanos de diversas nacionalidades e afro-brasileiros, reconhecida e premiada. A iniciativa nos últimos anos como empreendedora com a venda de tecidos e roupas africanas, o suporte diário aos grupos, em alguns casos, emergencial às comunidades, são alguns exemplos das benesses promovidas pela Mama África.

Mama África (ao centro) homenageada em 2018 na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. (Foto: Alex Vargem)

Mobilização social

Nas últimas semanas, coletivos têm se manifestado e fomentado suas atividades dado o isolamento social. A importância da #soujoaomanuel lançada em memória do angolano assassinado na última semana em São Paulo, é uma das iniciativas e formas de se almejar por justiça social, mas para além do mundo digital e algumas reportagens veiculadas em grandes mídias, que infelizmente ainda reproduz estereótipos negativos e promove o exotismo, atividades no que tange às africanidades no mundo marcam o momento.

De acordo com a angolana residente em São Paulo, Rudmira Fula — comunicadora, palestrante e idealizadora do Projeto Mira África — o dia 25 de Maio é comemorado pelos africanos e todos os negros no planeta, mas para se chegar a esta data muitas questões se antecederam.

“Foi a organização de várias conferências, partidos e coligações, que lutaram para que este momento fosse comemorado, que tinham como princípio, o Pan-Africanismo, que era a luta pelo emancipação do negro no mundo, que sofriam com as atitudes dos países coloniais, que julgavam os povos africanos como mercadorias, como pessoas sem consciência e capacidade de raciocínio. Os negros, mulheres e homens, mostram ao mundo que podem se governar e exercer funções não antes disponibilizadas a nós”.

A comunicadora angolana Rudmira Fula palestrando em evento sobre questões africanas. (Foto: Gustavo Stefano)

Rudmira considera que é preciso pensar sempre na temática: “É importante não só o 25 de Maio, mas todos os dias para se pensar questões do continente, mas essa data vem cada vez mais reafirmar a existência e nunca esquecermos que o continente africano viveu e contribuiu para a construção daquilo que nós conhecemos no mundo. Da África saíram forças, riquezas, não só minerais, mas toda uma intelectualidade espalhada pelo mundo, além de uma força de trabalho, que contribui para a economia mundial, em todos os continentes, inclusive no Brasil, dada a nossa presença histórica aqui”, destaca a comunicadora.

Já para Vensam IaLa, oriundo da Guiné-Bissau – ator, ativista Pan-Africanista e Idealizador da @vistoafrica, tem atuado ao longo dos anos como forma de conscientizar a sociedade brasileira sobre questões do continente africano, em especial, a campanha “A África não é um país”, no qual conscientiza a sociedade brasileira que no continente africano, há mais de 50 países com diferentes culturas, ele comenta o dia 25 de Maio.

O ator e ativista, Vensan IaLa, de Guiné-Bissau, com a camiseta da campanha “Africa is not a country”, “A África não é um país”.
(Foto: Arquivo pessoal)

 “Esta data é importante, mas para mim não há o que comemorar, apesar das nossas independências políticas, engana-se quem acha que o projeto colonial deixou o continente em paz, o projeto colonial não acabou, ele só se reinventa e continua, podemos ver que logo após as independências nos anos de 1960, os líderes que lutaram, todos foram mortos por conta de uma agenda imperialista, e a partir disso a África começou a produzir líderes ao qual não se reconhecia, não tinham o espírito de patriotismo. Eu sempre falo que esses líderes são ‘peles negras com máscaras brancas’, que atendem à demanda do ocidente (em referência a obra do intelectual negro, Frantz Fanon), isso é complicado e essa data significa para nós pensarmos, que independência é essa que nós tomamos e não se consegue trazer grandes avanços para o povo?”, questiona Vensam.

“É uma data para pensarmos enquanto povo africano no continente e enquanto povo africano diaspórico, o que podemos fazer em conjunto para superarmos essas dificuldades? Como romper de maneira efetiva essa imposição e controle colonial no continente? É importante termos força e fazer com que nossa voz e nossa luta seja ouvida, inclusive aqui no Brasil”, completa o guineense.

*Alex Vargem é doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp, membro da Cátedra Sérgio Vieira de Mello – Unicamp, com mais de 18 anos de trabalho social junto a diversos grupos africanos no Brasil.

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