A Europa e sua máscara branca frente aos jovens afro-europeus

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Cena do filme Bande des Filles, que mostra a vida de uma adolescente negra em um bairro da periferia de Paris. Crédito: Reprodução

Essa problematização e invisibilidade podem ser encontradas em diversas áreas, dos meios de comunicação à investigação especializada

Por Laia Narciso Pedro*
Do CER-Migracions, em Barcelona
Traduzido por Márcia Passoni e revisado por Thales Speroni
Link original (em espanhol) – clique aqui

Artigo é parte da parceria entre o MigraMundo e o CER-M, da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) e Universidade de Barcelona (UB)

Recentemente, chegaram às minhas mãos informações sobre um espetáculo teatral apresentado em diferentes cidades espanholas, que se intitula: “No es país para negras”, interpretado por Silvia Albert e dirigido por Carolina Torres.

Diante deste título, fui assistir com entusiasmo, esperando encontrar a voz e as experiências de mulheres negras na sociedade atual e, sobretudo, as formas pelas quais se manifesta a desigualdade social através dos processos de racialização, algo incompreensivelmente insólito.

O espetáculo é uma criação coletiva a partir do texto: “Soy país para negras”, de Laura Freijo e pretende mostrar experiências do que chamam de racismo invisível e processos de empoderamento. Reconheço que minhas altas expectativas não foram satisfeitas, ainda que os pontos fortes podem ser a forma de mostrar os complexos processos de construção de identidade, a vivência da negritude em um contexto majoritariamente branco, os sentimentos de (não) pertencimento e as feridas causadas pelas experiências de racismo cotidiano. Seus pontos fracos são uma certa importação da história e referências dos afro-americanos, sem contextualizar as particularidades da Europa (neste caso, a Espanha), com as marcas deixadas pelo passado colonial (mais que escravista), ou a pouca relevância que adquire um fator crucial: as formas pelas quais se concretiza a estratificação étnica e os processos de racialização associados à estrangeria.

Entretanto, mais que fazer uma crítica à obra, meu objetivo é promover algumas reflexões urgentes. A discriminação e a desigualdade experimentadas pelos migrantes da África Ocidental e seus descendentes tornaram-se invisíveis? Isso incluiria o reconhecimento da cidadania negra na Europa? Que representações sociais são mais comuns? Encontramos referências positivas? Que impactos pode causar tudo isso?

E os titulares da imprensa revelam um imaginário coletivo muito negativo. As notícias falam principalmente sobre as tentativas de dar fortaleza à Europa (o “pulo do muro” ou os naufrágios no Mediterrâneo), de atividades ilegais (como a venda ambulante) ou práticas prejudiciais (como a mutilação genital feminina). Em contrapartida, nunca são noticiáveis as condições para a inserção social ou a denúncia da discriminação experimentada pelos imigrantes procedentes da África e seus filhos e filhas, muitos nascidos na Europa – os índices de desemprego, de abandono escolar prematuro, ou as dificuldades de acesso ao saneamento e a outros recursos básicos de um Estado de bem-estar agonizante. É provavelmente o caso mais extremo de sobre-exposição/dupla invisibilidade (Carrasco et al, 2002). Ser negro se vincula a imigração, e esta à violência, à ilegalidade ou a costumes atávicos e machistas, o grande argumento para deixar em alerta os defensores mais progressistas da Europa da igualdade, liberdade e fraternidade. Quando se fala da juventude, a ideia que se tem é homogênea, certamente branca e de classe média.

Raramente se publicam notícias como as assinadas por Danilson Gomes, na revista Vice, nas quais se denunciam as experiências com o racismo vividas por seis meninos e seis meninas negras em Madrid. “Jovens espanhóis negros contam suas piores vivências de discriminação” e “Jovens espanholas negras nos contam seus piores casos de discriminação e assédio”, publicadas em novembro e dezembro de 2016, respectivamente. Casos que vão desde o abuso policial à discriminação no acesso a moradia, à supersexualização no ambiente de trabalho e às humilhações racistas públicas nas universidades.

Dentre as poucas exceções, podemos mencionar duas obras surgidas em contextos com maior história, de fluxos migratórios mais antigos vindos dessa região africana.

O primeiro exemplo, Bande des Filles (Girlhood) (2014), no qual Celine Sciamma pretende mostrar a vida de uma adolescente negra em um bairro da periferia de Paris, assim como o processo e as consequências que a levam a unir-se a uma gang de garotas, desenvolvendo uma identidade resistente e opositora.

Um segundo exemplo é o filme belga Black (2015), dirigido por Bial Fallah e Adil El Arbi. Falam deste filme como “Romeu e Julieta” do século XXI, mas neste caso os grupos rivais são representadas por filhos de imigrantes de origens diferentes, que mesmo nascidos na Europa, não se sentem europeus, e algumas meninas com posições subordinados a eles.

Sendo assim, ainda que sejam obras recomendáveis, novamente são representações problemática, que mostram identidades jovens associadas à violência e a delinquência em geral.

Essa problematização e invisibilidade podem ser encontradas até mesmo na investigação especializada. Em outro lugar (Narciso, 2010), analisei as publicações sobre migrações da África Ocidental à Espanha (número, temáticas e momento da publicação) e pude mostrar como os interesses acadêmicos haviam sido mais influenciados pelas características de novidade dos fluxos migratórios do que pelos problemas específicos que afetavam esses grupos. Dessa forma, os trabalhos sobre migrantes de origem negro-africana desapareceram quando esses deixaram de estar entre as principais origens dos fluxos, promovendo assim uma perspectiva receptora, no lugar de uma perspectiva socialmente sensível.

Concluindo, não se representa a cidadania negra europeia. Tanto nos países com fluxos mais recentes, os chamados países do Sul da Europa (Espanha, Portugal, Itália, Grécia e Turquia), como nos países que foram metrópoles coloniais por excelência até o século XX (França, Reino Unido, Alemanha, Bélgica, entre outros), ou até mesmo nos contextos onde há uma forte presença de pessoas com origem na África ocidental tem sido fruto de uma política mais aberta em termos de refúgio e asilo (por exemplo, nos países escandinavos). Parece que a experiência de ser jovem e negro na Europa atual não é tão diferente do que Frantz Fanon descrevia em “Peau noire, masques blancs”, de Paris, 1952, com a ausência banalizada e a presença patologizada, e a alienação ou os sentimentos de ser impróprio, ou mesmo as dificuldades para desenvolver identidades racializadas positivas.

Esta situação nos obriga a situar urgentemente debates e reflexões abertas.

Laia Narciso Pedro (laia.narciso@uab.cat ) é antropóloga e educadora social, membro do grupo de investigação EMIGRA e do Centro de Investigações em Migrações (CER-M). Possui mestrado em investigação etnográfica, teoria antropologia e relações interculturais e mestrado em migrações contemporâneas, ambos pela Universidade Autônoma de Barcelona. Atualmente está desenvolvendo sua tese doutoral intitulada: “Experiencias, trayectorias e identidades de los jóvenes negro-africanos en Cataluña: de la inmigración a la emancipación”, na qual investiga os processos educativos e vitais desses jovens, prestando especial atenção para o impacto de processos de racialização a partir de uma perspectiva de gênero.

Referências:

Carrasco, S., (dir) Ballestín, B., Herrera, D., Olivé, C.M. (2002) Infància i Immigració: entre els projectes dels adults i les realitats dels infants, Vol. IV (AADD) La Infància i les famílies als inicis del S. XXI. Barcelona [el línea: http://institutinfancia.cat/wp-content/uploads/2016/08/2002_informe2002_publicacio_vol4_cat.pdf, consulta realizada el 30/01/17].

Fallah, B. y El Arbi, A. (2015). Black, 95 min.

Fanon, F. (1959). Peau noire, masques blancs. Paris : Les Éditions du Seuil, 239 pp.

Gomes, D. (09/11/2016). Jóvenes negros españoles cuentan sus peores vivencias de discriminación. Vice [en línea: https://www.vice.com/es/article/jovenes-negros-espanoles-discriminacion-testimonios, consulta realizada el 30/01/17].

Gomes, D. (22/12/2016). Jóvenes negras españolas nos cuentan sus peores casos de discriminación y acoso. Vice [en línea: https://www.vice.com/es/article/jovenes-negras-espanolas-discriminacion-acoso-mujer-racismo-sexismo, consulta realizada el 30/01/17].

Narciso, L. (2010). Anàlisi de la producció científica sobre la immigració negroafricana a Espanya i Catalunya. Quaderns-e, 15 (2), 76-95 [en línea: http://www.antropologia.cat/files/laia%20narciso.pdf, consulta realizada el 30/01/17].

Sciamma, C. (2014). Bande des Filles (Girlhood). 112 min.

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