A falácia do American Dream – ou uma reflexão pessoal sobre migração nos EUA

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Graffiti em Chapel Hill, no Estado da Carolina do Norte (EUA). Crédito: Arquivo Pessoal/Patrícia Martuscelli

Os EUA são muito bons em vender a ideia de que o país é uma terra da oportunidades; na prática, o American Dream é um sonho que não é realidade

Por Patrícia Nabuco Martuscelli
Em Chapel Hill (EUA)

A migração é um tema sensível para mim como pessoa e pesquisadora. Como bisneta de imigrantes italianos, senti a necessidade de começar a estudar esse tema em 2011 quando ainda estava na graduação. Naquele momento, tive a oportunidade de pesquisar sobre o refúgio. Em 2015, quando me mudei para São Paulo, tive contato direto com a população imigrante e refugiada por meio de trabalhos voluntários na Missão Paz e na Cáritas Arquidiocesana de São Paulo. Mas só no meio de 2017, ao vir realizar um período de estudos nos Estados Unidos da América, foi que pude realmente me colocar no papel de imigrante.

Essa é uma reflexão muito pessoal sobre uma experiência migratória de alguém que teve contato com imigrantes nos Brasil e também está pesquisando migração nos Estados Unidos. Cada experiência migratória é única, portanto, não tenho pretensão de que meu relato seja representativo de qualquer ideia sobre imigração e nem acredito que haja um caso clássico de migração.

Ser latina

É no mínimo curioso para um pesquisador se transformar em seu objeto de estudo. No caso, eu pude realizar um percurso migratório documentado, como pesquisadora de um centro de estudos em uma universidade de renome internacional, contando com o apoio da universidade, da minha família e sem me preocupar com questões econômicas. Importante ressaltar que o visto concedido para pesquisa não te permite trabalhar e que tive que mostrar ao governo estadunidense que teria como arcar com minhas despesas durante os 12 meses antes mesmo de sair do país. Também tive que comprar um caro seguro saúde para o período de 12 meses sugerido pela universidade. Além de migrar documentada e com todo esse apoio, também tive o privilégio de estudar inglês desde os 8 anos de idade. Isso me possibilitou conseguir me comunicar com as pessoas facilmente assim que cheguei. Por fim, ainda que seja mulher, gozo do privilégio de ser branca e, portanto, sou constantemente confundida com europeia, até o momento quando alguém pega meu passaporte e percebe que sou brasileira. Aí então passo a ser vista e definida como “latina”.

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Interessante pensar que os brasileiros não se consideram latinos. Eu mesma nunca me identifiquei com a ideia de latina. Conversando com uma professora que trabalha com mulheres imigrantes aqui nos EUA, percebi que isso pode ser fruto de meu próprio preconceito sobre o que significa ser latino. Na realidade, nem os mexicanos, salvadorenhos, hondurenhos se consideram latinos. A ideia de latino é pejorativa e coloca uma série de grupos dentro de uma mesma caixa que se relaciona com “imigrantes” e “indocumentados”.

“Boas Vindas” não exatamente exprime o que os migrantes encontram nos EUA.
Crédito: Arquivo Pessoal/ Patricia Martuscelli

Nem tudo são flores na terra do Tio Sam. A pobreza nos EUA, assim como no Brasil, tem cor. Os pobres são negros e obesos. Sim… muito obesos… Marcas de redes de fast food caríssimas no Brasil são baratas aqui nos EUA, de modo que a população mais pobre não tem dinheiro para consumir produtos frescos como frutas e verduras, que são mais caros. A população latino-americana é parcialmente visível. Sinais nos ônibus são também escritos em espanhol como uma tentativa de integração, por exemplo. São imigrantes que trabalham na construção civil. Mas eles também não querem ser tão visíveis. Ainda mais no atual ambiente político que o país vive.

O governo Trump causou marcas na população latina. Estudos já mostram que denúncias de violência doméstica caíram 80% na população latina em diversas cidades no país. Isso significa que essa população está com medo de ter qualquer contato com autoridades, mesmo para buscar proteção e seus direitos, com medo de serem deportados. Isso para não mencionar o fim da Proteção Temporária (TPS) para diversos grupos como haitianos e salvadorenhos e do programa DACA para jovens que chegaram ao país como crianças.

Mas voltando para minha experiência pessoal. Logo que cheguei ao aeroporto, o agente de fronteira, ao pegar meu passaporte e ver o meu tipo de visto, comenta como será maravilhosa minha experiência como babá (aupair) nos Estados Unidos. Nada contra as pessoas que migram por essa razão e realizam um trabalho muito digno e necessário (conheci uma professora que era eternamente grata pela aupair brasileira que vivia em sua casa, sem essa profissional, a professora não conseguiria dar aulas, terminar seu doutorado e ainda dar atenção para seus dois filhos). O problema é a imagem que esse agente migratório tem da mulher brasileira jovem que chega aos EUA. Na mente dessa pessoa, uma brasileira não pode ser uma imigrante altamente qualificada como uma pesquisadora, ela pode apenas ocupar determinadas posições laborais baseadas em visões prévias do que é ser mulher e do que é ser latina, mais especificamente brasileira.

Migrar é um processo difícil e complexo. Você está longe de sua família e amigos. Você enfrenta desafios diários e isso pode ser mais ou menos doloroso a depender da sua condição migratória e de sua rede de apoio. Como migrante branca, altamente qualificada e documentada também enfrentei alguns pequenos desafios que me fizeram repensar o tema da migração e o olhar que eu direciono para imigrantes que estão em situação de maior vulnerabilidade do que eu.

Pequenas coisas se tornam difíceis quando você é um imigrante – dentre elas, fazer compras. Você não conhece as marcas e os produtos. Por exemplo, logo que cheguei fui ao mercado comprar shampoo. Tinha tantas opções com um vocabulário em inglês que eu não entendia. Infelizmente devo ter faltado nessa aula de inglês que ensinava como falar componentes de shampoo. Por isso, passei cerca de 30 minutos olhando e tentando decidir o que é que eu precisava. A mesma situação se repetiu no corredor dos cereais por causa da infinidade de opções. As pessoas passavam por mim, pegavam seus shampoos e olhavam como se eu fosse um ET lá olhando as diversas marcas. No final decidi por um shampoo e um cereal e fui embora.

Com o tempo, você vai se acostumando, mas no começo é tudo novo. Você também tem que se preocupar como questões culturais. Brasileiros são afetuosos e abraçam. Em mais de uma situação me peguei encontrando um colega americano na rua que fazia alguma aula comigo e fui cumprimentar a pessoa dando um abraço. É impressionante a reação dos americanos a um simples abraço. Eles ficavam parados e atônitos. Diante da situação, eu ficava extremamente envergonhada, pedia desculpas e explicava a situação. Além disso, você é diferente. Você se veste com roupas e sapatos que são diferentes e todo mundo te olha na rua.

A questão da saúde

Uma das frases mais interessantes que ouvi aqui nos EUA foi que os produtos são baratos, mas os serviços são caros. Isso inclui serviços de saúde. A experiência mais traumática que eu vivi até agora foi acessar serviços de saúde nos Estados Unidos. Lembrando,claro, que eu possuo um seguro de saúde caro da universidade e que fui tentar me consultar na rede que é coberta pelo seguro. Um professor brasileiro definiu da melhor forma o sistema de seguro saúde nos Estados Unidos: é como um seguro de carro, se você precisar acionar precisa pagar o sinistro. Essa ideia é muito difícil de ser entendida por um brasileiro porque se você tem plano de saúde no Brasil, suas consultas e exames são cobertos. Se você não tem plano, mas passar mal na rua, poderá ser atendido pelo SUS e alguém chamará uma ambulância para você. Não existe SUS nos EUA. Se você passar mal na rua e chamarem uma ambulância para você, essa brincadeira pode te render uma conta médica de cerca de 1000 dólares, contando é claro que você tem seguro.

Loja em Chapel Hill (EUA). Produtos são baratos, mas o mesmo não se pode dizer dos serviços no país.
Crédito: Arquivo Pessoal/Patrícia Martuscelli
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Pois bem, fui acessar os serviços médicos. Primeiro que os estadunidenses adoram telefone. Todo tipo de serviço você tem que ligar para agendar ou ligar para pedir informação. Então você tem que ligar para o seguro saúde doente sem entender direito o inglês da pessoa do outro lado (é muito diferente conversar com alguém ao vivo e por telefone, principalmente logo que você chega ao país. Só de ver a boca da outra pessoa mexendo, já facilita a compreensão) para tentar entender qual será o valor da consulta. Ninguém te dá uma informação precisa porque a consulta médica depende dos exames que a médica pedirá. Exames que você consegue fazer de graça no posto de saúde, como exames de sangue e de urina, podem custar mais de 250 dólares cada se você tiver seguro. Ou seja, você está doente e acaba ficando com mais medo de ir ao médico porque você não sabe quanto custará o atendimento. E você acaba ficando mais ansioso e doente.

Depois da consulta, o plano de saúde te envia pelo correio uma conta que você tem de pagar. Ao mesmo tempo, todo mundo tem uma história terrível para te contar sobre o sistema de saúde estadunidense. Fulana foi na manicure, a unha dela encravou e ela teve que ir na emergência. Para ficar mais barato, ela fez o procedimento sem anestesia (meu Deus o.O) e acabou gastando mais de 533 dólares. Isso porque ela tinha seguro.

Mas o martírio com os serviços de saúde não acaba nunca. No início de setembro, marquei uma consulta para entrar no sistema de saúde da universidade e poder acessar serviços de urgência, que são mais baratos do que o pronto-socorro, em caso de necessidade. Antes de agendar a consulta, liguei para o sistema de saúde que explicou que uma consulta seria 20 dólares. Considerando essa informação, marquei a consulta e, no dia do agendamento, confirmei essa informação com a recepcionista que passou a mesma situação. Qual foi minha surpresa quando mais de 4 meses depois chega no meu apartamento uma carta com uma conta no valor de 297 dólares? Além de ficar desesperada porque obviamente você não está esperando por isso, você liga para o plano de saúde que explica que eles cobram consultas médicas (office visit) mas não consultas preventivas (physical routine exam), e que o sistema de saúde estava cobrando esse segundo e não o primeiro.

Sem entender a diferença entre essas duas coisas, ligo para o sistema de saúde e explico a situação. Ao mesmo tempo, confirmo na página online do sistema de saúde que tipo de consulta foi feita e está escrito office visit. Resultado: é bem provável que alguém tenha cometido um erro no meio desse trâmite, mas é uma questão tão procedimental que dificilmente um estrangeiro entenderia. Como você poderia imaginar que o sistema de saúde ia utilizar um código que seu plano não cobre? Parece que todo o tempo que você perde ligando para um lugar e para o outro (para tentar entender a situação e não pagar uma conta astronômica que não faz nenhum sentido) é normal para os estadunidenses. Sem argumentar que o sistema de saúde do Brasil é o melhor do mundo ou que o SUS não tem problemas, mas não me lembro de passar horas ao telefone com o plano de saúde e com o hospital por coisas básicas como consultas ou exames de sangue.

Uma pessoa documentada com plano de saúde e que fala inglês fica assustada com o sistema de saúde nos EUA. Imagina um imigrante indocumentado que fala apenas espanhol? Essas experiências me fizeram refletir sobre a situação nos países daquelas pessoas que preferem viver indocumentadas em um país em que elas não possuem direitos e não podem nem ficar doentes.

Graffiti em Chapel Hill, no Estado da Carolina do Norte (EUA).
Crédito: Arquivo Pessoal/Patrícia Martuscelli

Terra de oportunidades?

Os EUA são muito bons em vender a ideia de que o país é uma terra da oportunidades, onde aqueles que trabalharem duro podem alcançar tudo aquilo que desejarem. Mas na prática o American Dream é um sonho que não é realidade. A desigualdade nos EUA é enorme. Ter um presidente que tem posições tão contrárias à imigração, traz à tona o que as pessoas têm de pior. Se antes uma pessoa teria medo de ser julgada socialmente por ser xenófoba, com as declarações de Trump essa mesma pessoa passa a se sentir legitimada para ser preconceituosa e tratar mal quem fala inglês com sotaque. Aconteceu comigo algumas vezes. Não na universidade, mas no ônibus e em um bar durante o Super Bowl – que é a final do campeonato nacional de futebol americano.

Ser um imigrante nos EUA é bem diferente de passar férias em Orlando ou em Nova York. No último caso, você é um turista. Ser um imigrante indocumentado nos EUA significa conviver todo o dia com o medo: medo de ser deportado, medo de ficar doente e ter que enfrentar um sistema de saúde que nem os americanos entendem, medo de não poder trabalhar. Ainda assim com todo esse medo e insegurança as pessoas migram. Elas migram não é porque elas querem deixar suas casas, mas porque elas precisam. Enquanto elas precisarem, elas vão continuar migrando mesmo considerando os riscos da jornada. Quem ganha com esse sistema: redes de atravessadores de imigrantes que lucram milhões por ano, empresas privadas que administram centros de detenção para imigrantes no país (incluindo centros para famílias) e empresários que precisam do trabalho dos imigrantes e, como eles estão indocumentados, pagam menos do que o salário mínimo.

Minha experiência migratória privilegiada me fez entender que migrar, mesmo nas condições mais ideais do mundo, não é fácil. Fácil é culpar pessoas por erros estratégicos de política, fácil é separar famílias e construir muros. Agora entender um fenômeno complexo como a migração em que cada caso é um caso, isso sim é um trabalho difícil. São em tempos sombrios como esses nos EUA, em que pessoas que trabalham com imigrantes também estão com medo, que o ativismo pela causa é tão importante. Precisamos reconhecer que o American Dream não é real e defender a livre migração para todos.

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