Alusão a “mercado de escravos” em matéria sobre imigrantes causa indignação

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No último dia 17 de agosto, o jornal O Globo publicou uma matéria intitulada “São Paulo tem romaria de empresários para contratar imigrantes” e focada no trabalho de mediação de vagas para empregos feito há sete décadas pela Missão Paz entre empresas e migrantes. A reportagem assinada por Mariana Sanches, no entanto, causou polêmica por ter minimizado essa atuação e ainda comparado o processo de seleção a “um mercado de escravos”.

“A seleção dos trabalhadores, por vezes, faz lembrar a escolha feita por senhores de engenho em mercados de escravos no Brasil, até o século XIX. No Acre, ponto de entrada de haitianos e senegaleses, segundo pesquisadores da Universidade Federal do Acre, empresários chegam a checar os dentes, os músculos e a pele dos imigrantes. Em um vídeo disponível na internet, um dos recrutadores admite que escolhe os empregados pela canela. Segundo ele, na seleção de trabalhadores para um frigorífico, levava em conta “uma tradição antiga, do pessoal da escravidão, de que quem tem canela fina é bom de trabalho, canela grossa é um pessoal mais ruim de serviço (sic)”.

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Entre especialistas e demais profissionais próximo da temática migratória a reação foi quase imediata. Para Helion Povoa Neto, do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios (NIEM) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a atitude crítica quanto à exploração do trabalho é bem vinda, mas alerta que é preciso fazer justiça e ter atenção aos que realmente defendem a causa dos migrantes. “Parece-me algo inadequado – para não dizer injusto, e mesmo mal-intencionado – retratar como mero balcão de empregos ou agência improvisada a Igreja Nossa Senhora da Paz, em São Paulo. Durante algumas semanas, ela foi a instituição que acolheu, vestiu, alimentou e abrigou centenas de haitianos que saíam do Acre e chegaram a São Paulo. Enquanto isso, o poder público demorava a se posicionar e a imprensa, em grande parte, os retratava de forma hostil, alarmista e criminalizadora”, se pronunciou por meio de seu perfil no Facebook.

Igreja Nossa Senhora da Paz, na região do Glicério, onde fica a Missão Paz. Local é referência para imigrantes na capital paulista. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Igreja Nossa Senhora da Paz, na região do Glicério, onde fica a Missão Paz. Local é referência para imigrantes na capital paulista.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

 

Já a geógrafa e professora aposentada da UFRJ Regina Petrus foi ainda mais longe na crítica ao material publicado. “Poucas vezes um jornalista conseguiu ser tão inconsequente e ignorante em um assunto tão complexo quanto é a dificuldade de inserção dos imigrantes  no mercado de trabalho. A migração internacional é um tema central no mundo contemporâneo!  Publicar no jornal O Globo uma matéria sensacionalista  e totalmente irresponsável  ao citar nomes,  recortar dados de trabalhos sérios e respeitados de pesquisa e, especialmente, ao levantar suspeitas sobre a ação em favor dos imigrantes e refugiados que se realiza na Missão Paz,  da qual faz parte a Igreja Nossa Senhora da Paz, em São Paulo, não é qualquer coisa!(…) Sugiro à jornalista que pelo menos entre no site http://www.missaonspaz.org/ e leia, veja as fotos ou assista aos vídeos sobre o que fazem os que trabalham por ali; antes de mostrar fotos do pátio da Igreja Nossa Senhora da Paz comparando-o a um mercado de escravos!”, expressou-se também por meio das redes sociais.

Sobre a entidade

A Missão Paz agrega a Igreja Nossa Senhora da paz, a Casa do Migrante, o Centro de Estudos Migratórios, a revista Travessia, o Centro Pastoral e de Mediação dos Migrantes (CPPM) e a Biblioteca do Centro de Estudos Migratórios. Embora trabalhe com a temática migratória desde sua fundação (1939), a instituição ficou em evidência especialmente neste ano por conta da acolhida aos imigrantes que chegavam a São Paulo vindos de ônibus do Acre.

Em 21 de maio passado, a Missão Paz convocou uma coletiva de imprensa na qual prestou contas sobre os atendimentos e encaminhamentos adotados durante as semanas de maior fluxo de migrantes, além de fazer um apelo por uma política nacional migratória. O local da coletiva foi o mesmo auditório que, poucos dias antes, chegou a abrigar mais de 200 imigrantes ao mesmo tempo – fato lembrado pelos colchões usados por eles e espalhados propositalmente pelo salão para a coletiva.

Representantes da Missão Paz fazem apelo ao governo federal para uma legislação migratória urgente e humanista. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Representantes da Missão Paz fazem apelo ao governo federal para uma legislação migratória urgente e humanista.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Os equívocos quanto ao trabalho desempenhado pelas instituições que apoiam migrantes não ficam restritos à imprensa. Poucos dias após a coletiva da Missão Paz, um debate na sede paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) intitulado “A Questão do Refúgio e os Haitianos em São Paulo” também contou com uma fala do conselheiro e ex-presidente da entidade, Luiz Flávio Borges D’Urso, que causou constrangimento em parte do público presente no evento.

“Fato é que esses haitianos chegaram aqui em São Paulo vieram para o Glicério, foram recepcionados por um padre, estavam dormindo no chão e não tinham absolutamente nada. Algumas entidades sociais prestaram algum socorro, a OAB esteve lá e levou alguns mantimentos que foram frutos de nossas campanhas,” disse.

O debate em torno da migração vem ganhando espaço na sociedade e na mídia brasileira – o que, por si só, já pode ser considerado um avanço. Por outro lado, ainda permanecem equívocos e até mesmo erros grosseiros na cobertura dos veículos de comunicação, que ajudam a alimentar estereótipos ainda cristalizados no imaginário popular e são difíceis de combater. A matéria publicada no jornal O Globo e as falas no debate da OAB-SP se juntam a outros exemplos já existentes que mostram o longo caminho ainda a ser percorrido.

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