Aos 5 anos, Abraço Cultural se reinventa para manter ‘abraços’ em meio à Covid-19

O projeto que atua em São Paulo e Rio de Janeiro lança campanhas e repensa maneiras de apoiar migrantes em situação de refúgio

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O projeto abraço Cultural oferece cursos de idiomas ministrados por refugiados. Crédito: Ilana Goldsmid/Abraço Cultural - mar.2016

Com quase 8 mil alunos, cem professores capacitados e mais de R$ 2 milhões de renda geradas por migrantes. Esses são alguns dos números do Abraço Cultural, projeto pioneiro que tem pessoas em situação de refugio como docentes em cursos de idiomas e cultura.

O Abraço Cultural nasceu em São Paulo em julho de 2015, iniciando com cursos pilotos. No semestre seguinte, o projeto chegou ao Rio de Janeiro.

Assim como outras associações que lidam com a temática migratória, o Abraço Cultural e suas as parcerias também sentiram os efeitos da pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

Em resposta à pandemia, o Abraço criou meios para que a renda dos migrantes (incluindo refugiados) no Brasil fosse o menos impactada possível pela situação. A campanha  #AbraceDaí consiste em uma plataforma digital que acolhe e divulga o trabalho dessa população.

Abraçando Histórias

Além disso, o projeto Abraçando Histórias foi lançado para dar voz a quem faz o projeto, como maneira de celebrar as conquistas ao longo desses anos e se manter próximo aos nossos alunos e professores, apesar do distanciamento social.

O projeto também tem como objetivo mostrar quem são as pessoas portadoras do projeto e o que elas têm para contar sobre suas atividades e experiências vividas.

Ao longo de 12 semanas, 11 histórias diferentes dos professores e das professoras do Abraço SP foram compartilhadas através de vídeos e depoimentos completos de cada protagonista dessas narrativas.

“O Abraçando Histórias nasce da mesma força que impulsionou a criação do Abraço Cultural em 2015: o desejo de ouvir as pessoas que historicamente são invisibilizadas”, afirmou Bianca Silva, analista de comunicação do Abraço Cultural SP. E acrescentou: “Queremos contar histórias que nem sempre são contadas, histórias que vão além do que a grande mídia nos conta, histórias de pessoas que têm um filme preferido, uma comida preferida ou que não têm preferência nenhuma. “

Segundo Silva, essas histórias contadas são de pessoas que vivem a cidade de São Paulo em diferentes intensidades e, ao mesmo tempo, em sintonia com as mais de 20 milhões de pessoas que movem a capital.

“São histórias de pessoas comuns e excepcionais, histórias curiosas, emocionantes e divertidas de nossos professores e professoras, histórias do cotidiano que demonstram suas personalidades, visões de mundo, interesses e sensações” pontuou a analista de comunicação do projeto em SP.

Abrace Daí

Muitos imigrantes que tinham como fonte de sustento a venda de artesanatos e comida viram sua fonte de renda ser diretamente impactada pela quarentena.

Como forma de apoiar mesmo à distância os refugiados, as refugiadas, requerentes de refúgio e outros migrantes que estão no Brasil, o Abraço Cultural lançou em parceria com a Atados a campanha #AbraceDaí.

“O Abrace Daí é tanto uma campanha como uma plataforma digital que reúne iniciativas que promovem o acolhimento a população de refúgio e, também, uma forma de divulgar o trabalho de pequenos empreendedores que encontram na venda de alimentos e artesanatos uma maneira de se sustentar no Brasil. O nome e a ideia vem da necessidade de continuar apoiando os refugiados mesmo com a quarentena” explicou Silva.

O objetivo é juntar os refugiados, refugiadas e outros migrantes que estão adaptando seus negócios para vendas online às instituições e iniciativas que apoiem essa população. Para isso, a plataforma é dividida em duas seções: a “Quero ajudar” e a “Preciso de Ajuda”.

Na primeira, é divulgado as aulas online do Abraço, os serviços oferecidos por esses empreendedores e uma lista de instituições que estão recebendo doações para a população refugiada.

“O Abrace Daí é tanto uma campanha online para promover o acolhimento de migrantes e parar divulgar o trabalho de pequenos empreendedores migrantes.” (Foto: Divulgação)

A segunda seção oferece serviços de apoio psicológico gratuitos, dicas e informações para os seus negócios e orientação de acolhimento para recém chegados ao país, além de listar instituições e iniciativas de apoio à refugiados.

“Durante o processo de criação do AbraceDaí, recebemos alguns relatos sobre os desafios encontrados pelos empreendedores em adaptar suas vendas para o ambiente online. Com o apoio de um grupo de voluntários, desenvolvemos um manual para auxiliar os empreendedores/as nesse processo”, comentou a analista ao MigraMundo.

Com o apoio de um grupo de voluntários, um manual com dicas para as vendas online foi criado para ajudar o empreendedor. O guia Como Adaptar seu Negócio para Vendas Online traz informações sobre vendas por redes sociais, serviços de entrega, maneiras de precificar o serviço, cuidados de higiene durante a pandemia e dicas de como fotografar os produtos.

Até agora, o Abrace Daí já conseguiu divulgar 38 empreendedores de São Paulo e do Rio de Janeiro; 7 instituições e ONGS para doação direta; 8 iniciativas de apoio à refugiados em período de COVID-19; 2 contatos de apoio psicológico; e dicas de organizações que realizam o acolhimento primário a refugiados e refugiadas.

“Momento amoroso de se estar aberto”

Ludmila Lee é uma das professoras do Abraços Cultural São Paulo que teve que se adaptar às aulas online. Cubana filha de coreanos, a professora teve muito receio de como o aprendizado se daria, uma vez que via nas aulas presenciais uma troca cultural, linguística e de carinho muito forte de ambos os lados.

Quando saiu de Cuba, a população da ilha ainda tinha acesso restrito à internet, por isso, as plataformas digitais se tornam especificamente desafiantes para Ludmilla. Entretanto, apesar do receio da não presencialidade dificultar o ensino, a professora encontrou na coordenação do Abraço Cultural e em seus alunos muito suporte, paciência e empatia.

Apesar do isolamento social, a professora e sua classe conseguiram fazer uma aula cultural sobre culinária, na qual ela e os alunos brindaram à vida e a oportunidade de estarem aprendendo. Em conversa com a equipe MigraMundo, Ludmila disse que nunca havia pensado em dar aulas dessa maneira antes, mas que estamos agora em “um momento amoroso de se estar aberto e de muito aprendizado”.

“O Caminho é esse”

Yimary de Perdomo mora há quatro anos no Brasil e foi uma das muitas refugiadas que viu sua renda ser fortemente atingida pela proibição de eventos. Responsável pela Tentaciones da Venezuela, a empreendedora criou um serviço de encomendas e delivery para continuar com seu negócio durante esse período.

O cardápio foi reduzido e uma linha de comidas congeladas foi desenvolvida especialmente para esse momento. “Nós que somos refugiados certamente passamos por certos processos que é impossível sair de casa [e por isso] a gente normalmente tem uma despensa de congelados” disse em conversa com o MigraMundo.

Por conta da quarentena, Yimary focou seus esforços em divulgar seu serviço em diferentes redes sociais e encontrou no Abrace Daí um parceiro para chegar a outros públicos. Novos clientes foram alcançados através de diversas redes o que deixou a empreendedora impressionada. Para ela, a plataforma do Abraço ajuda a concentrar todas as informações necessárias para clientes e empreendedores e se vê muito feliz com a iniciativa “o caminho é nos apoiar, nos ajudar, pensar um pouco no outro e em como ele está”.

Abraço Cultural RJ

Em 2020, o Abraço Cultural no Rio de Janeiro completa quatro anos de atividades ao público e cinco anos de início de concepção da unidade. Mesmo com as adversidades causadas pela pandemia, a unidade carioca manteve seus projetos em andamento, assim como iniciou novos.

Visando diminuir a disparidade entre professoras e professores, 4 novas profissionais foram contratadas após passarem por uma capacitação pedagógica. Agora, a equipe conta 16 docentes.

Em março, um segundo espaço físico na cidade foi inaugurado. Localizado no Largo do Machado, o ambiente conta com 5 salas de aula e um espaço para eventos. Além disso, a adaptação para aulas virtuais e a criação de cursos particulares têm contribuído para uma maior estabilidade na renda dos professores e professoras.

Foi também neste ano que foi colocado em prática uma vontade antiga da equipe: a política de bolsas socioeconômicas abertas à população.

“Esse processo complementa nossa política de bolsas de estudo já existente, destinada a pessoas em situação de refúgio que pretendem aprender um dos idiomas ensinados na instituição. Na política de bolsas para pessoas em refúgio já conseguimos atingir cerca de 22 pessoas” explicou Roberta Sousa, coordenadora de comunicação do Abraço RJ, em conversa com o Migra.

Perto do Dia Mundial do Refugiado, o Abraço RJ lançou sua primeira publicação digital sobre refúgio, uma revista virtual feita em parceria com o coletivo Feminicidade. O material narra como o projeto “Mulheres & Refúgio: histórias para ocupar a cidade” que foi elaborado ano passado e conta com entrevistas de 10 mulheres em situação de refúgio que participaram do projeto.

Por fim, a unidade bateu seu recorde de alunos pelo terceiro semestre consecutivo, chegando a mais de 500 estudantes na cidade.

Próximos passos

Durante a pandemia, a equipe do Abraço Cultural foi obrigada a reinventar sua maneira de atuar. A adaptação virtual veio depois de muitas pesquisa pedagógica e digital.

Entretanto, apesar do desafio, graças a esse novo formato o projeto conquistou espaço em outras cidades do país e do mundo, promovendo mais interação e respeito às diversidades culturais e garantindo a sustentabilidade financeira de seu corpo docente.

“Os próximos passos são: permanecer com as formações para o uso de ferramentas digitais com os professores; seguir com a oferta de aulas online, mesmo quando as aulas presenciais retornarem, pensando nos nossos alunos que não moram em São Paulo e Rio de Janeiro. E conseguir conscientizar um número maior de pessoas sobre a causa do refúgio, por meio das nossas aulas, projetos e atividades culturais” explicou Silva quando perguntada sobre o futuro do Abraço.

“Nas próximas semanas lançaremos atividades culturais em nossas redes sociais, com o objetivo de desmistificar o refúgio e compartilhar as culturas dos países dos nossos professores, abordando assuntos como cinema, gastronomia, heranças da diáspora africana e muito mais” concluiu.


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