Colômbia, primeiro país de destino dos migrantes venezuelanos

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Mãe e filho cruzam ponte que liga a Venezuela a Cucuta, na Colômbia. Crédito: Boris Heger/ACNUR

Colômbia é o pais que mais recebe migrantes venezuelanos recebe, o que estabelece desafios não só na sua política migratória, mas também na política social e na integração social

Por Edgar Andrés Londoño Niño
No Rio de Janeiro (RJ

Em um restaurante, no cabeleireiro, no transporte público ou inclusive assistindo ao jornal; nunca antes como hoje os colombianos tinham tido tanto contato na sua cotidianidade com um grande número de população imigrante. E é que com a crise da Venezuela, a Colômbia passou a ser o país que mais migrantes venezuelanos recebe, o que estabelece desafios não só na sua política migratória, mas também na política social e na integração social.

Precisamente, contrário a outros países latino-americanos, a Colômbia não foi na sua história um lugar de destino que recebesse grandes fluxos migrantes, pois era mais conhecido como um país que expulsava população, especialmente pelo conflito armado interno, sendo a Venezuela e o Equador os principais destinos dos emigrantes colombianos.

Com a crise venezuelana, que começou em 2013 e se aprofundou em 2015, aumentaram os ingressos diários de venezuelanos. Mesmo que a Colômbia já tinha recebido fluxos de venezuelanos, como alguns profissionais ligados ao petróleo que saíram com as reformas a PDVSA impulsionadas pelo presidente Chávez, assim como dissidentes desse governo que viajavam geralmente por via aérea até Bogotá, foi com o aprofundamento da crise que começou a se diversificar o perfil dos migrantes que chegavam no país.

Assim, muitos venezuelanos reuniram recursos e viajaram ao país vizinho dada a falta de dinheiro, de alimentos e a insegurança cidadã. Alguns migrantes entrevistados em Bogotá assinalaram:

“Vendi tudo para reunir recursos e conseguir vir para a Colômbia”.

“Eu não ia ficar na Venezuela morrendo de fome ou que me matem por um celular. Sinto saudade da minha família, mas vou embora”.

Fronteiras, vizinhança e migração

A longa fronteira entre os dois países, de 2.219 km é uma fronteira porosa, o que faz difícil o controle de ingressos por parte das autoridades colombianas.

A proximidade geográfica é, sem dúvida, um fator que faz com que os venezuelanos migrem à Colômbia. O transporte terrestre resulta mais barato e permite ir avançando progressivamente no território do país vizinho e ir reunindo dinheiro para chegar ao lugar de destino. Por isso, a migração fronteiriça adquiriu novas dimensões nos sete pontos autorizados de ingresso à Colômbia, mas também pelos múltiplos passos não autorizados.

Mapa da fronteira entre Colômbia e Venezuela.
Crédito: Reprodução

Ainda assim, muitos dos venezuelanos passam a fronteira diariamente em busca de medicamentos, escassos na Venezuela para comprar mercado básico ou inclusive em procura de tratamentos médicos. Porém, cada vez mais pessoas chegam na fronteira e se dirigem às principais cidades do país.

Cúcuta é a cidade que mais recebe migrantes venezuelanos, pois mais da metade ingressam pela ponte internacional próxima (a flecha verde no mapa). Porém essa cidade e outros centros povoados da região fronteiriça entre os dois países, têm ultrapassado suas capacidades para atender à população migrante, sendo necessária a intervenção do governo nacional.

A migração nas cidades colombianas

Cada vez mais os venezuelanos que chegavam na Colômbia começaram a viver em diferentes cidades distantes da fronteira. As cadeias migratórias, cada vez maiores, fazem com que na Colômbia existam cada vez mais familiares e amigos que recebem novos migrantes.

Migración Colombia, a entidade encarregada do controle migratório no país, assinala que em 2015 entraram 48.714 venezuelanos e em 2017 foram 600.000 os ingressos, o que evidencia o grande aumento do fluxo de imigrantes. Porém, esses dados correspondem às entradas feitas em postos de controle fronteiriço, não contabilizando os ingressos por pontos não autorizados, pelo qual o número atual de imigrantes pode ser muito maior.

Na maioria é uma população jovem que abandona à Venezuela por causa da crise política e econômica e trabalha formal ou informalmente na Colômbia para enviar remessas a seus familiares (pais, avós e em alguns casos filhos que ficaram na Venezuela).

O governo colombiano, sem dúvida alguma, se enfrenta a uma situação sem precedentes. Mesmo que houveram algumas mudanças importantes na política migratória do país, especialmente com mais garantias para a legalização dos imigrantes, entre elas a expedição de documentos que lhes permitem trabalhar, assim como uma maior presença institucional na fronteira desde 2015, em fevereiro de 2018 o governo aumentou os controles fronteiriços, o que reduziu os ingressos nos postos de controle fronteiriço, mas aumentou os ingressos por pontos de acesso ilegais, aumentando a vulnerabilidade da população migrante.

Assim, a preocupação predominante por parte das autoridades colombianas tem sido controlar a migração mais do que garantir os direitos dos imigrantes. Existe assim uma predominância de uma ideia negativa da migração, que é considerada, em palavras do presidente Juan Manuel Santos, como “o problema mais sério que tem o país”.

Entre a solidariedade e a xenofobia
A oposição da população colombiana ao governo de Nicolás Maduro tem sido maioritária, especialmente após a deportação de vários colombianos que moravam na Venezuela em 2015. Isso contribuiu em um começo à existência de um sentimento de solidariedade com os imigrantes que chegavam ao país. Porém, com o aumento da população migrante, tem aumentado as tensões sociais e os casos de xenofobia.

Uma jovem venezuelana assinala que:

“A maioria tem uma percepção negativa dos venezuelanos. Dizem que a gente chega a tirar o trabalho, que a gente trabalha por pouco dinheiro (…) mas é pela necessidade”.

Assim, mesmo existindo várias iniciativas importantes de apoio e acolhimento à população migrante, especialmente da sociedade civil, têm-se apresentado vários casos de xenofobia, como o ataque a acampamentos de venezuelanos em Cúcuta e protestos pela presença dos migrantes nessa cidade. Como assinalado pela maioria de imigrantes, na cotidianidade, existem atos discriminatórios, como assinalado por alguns venezuelanos em Bogotá:

“uma senhora me escutou o sotaque, me perguntou de onde era e me olhou de uma forma distinta e começou a me perguntar como podia trabalhar no país”.

“Uma senhora me falou: você é venezuelana, não vou comprar nada para você. Vocês são como ratos que invadem a casa.”

Mãe e filho cruzam ponte que liga a Venezuela a Cucuta, na Colômbia. Crédito: Boris Heger/ACNUR

Contudo, mesmo que as migrações entre os dois países tenham estado presentes na história binacional, as dimensões da atual migração não tinham precedentes, tanto no país de destino, quanto no país de origem. Especialmente, ainda existem grandes desafios para garantir os direitos da população migrante e sua efetiva inclusão social, dadas as múltiplas vulnerabilidades como superlotação, problemas no acesso ao serviço de saúde, tráfico de pessoas e o contrabando de migrantes, xenofobia, entre muitos outros.

Edgar Andrés Londoño Niño, colombiano, é pesquisador do Observatório Político Sul-americano e do Núcleo de Estudos de Atores e Agendas de Política Externa do IESP-UERJ, além de autor convidado para este edição da coluna Fronteira Aberta

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