Com a vitória de Trump nos Estados Unidos, novos muros se levantam; e é preciso se preparar para agir

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Bandeira dos EUA no Empire State Building, em Nova York, em noite de nevoeiro. Crédito: Rodrigo Borges Delfim - mai.2013/MigraMundo

Por Rodrigo Borges Delfim

Era maio de 2013. Estava como intercambista no Canadá e a escola de idiomas onde estudava fazia excursões semanais para os Estados Unidos. Foi nessa época que tive minha primeira, breve – e até agora, única – experiência no país. Mas lembrei como se fosse ontem da cena…

Estava voltando de Chicago de ônibus, com uma excursão com outros estudantes internacionais. No meio do caminho, parou em uma cidadezinha – não lembro o nome, mas era no Estado de Michigan, que faz parte do chamado Cinturão Industrial dos Estados Unidos. Era começo da tarde e a parada foi em uma pequena lanchonete, que parecia não ter recebido nenhum cliente até então.

Terminei de comer um pouco antes do restante dos demais estudantes e dei uma volta pelo quarteirão da lanchonete. A cidade estava bem empobrecida, parecia bastante decadente, mas o que me chamou a atenção de verdade foi um carro vermelho velho, já enferrujado, com estilo esportivo, provavelmente do final dos anos 80 ou começo da década de 90. Parecia abandonado. E logo me veio à cabeça a crise econômica de 2008, que atingiu os Estados Unidos e outros países ricos em cheio – e o Estado de Michigan, especialmente Detroit e a indústria automobilística. Logo, foi impossível não traçar um paralelo entre aquele carro velho, a pobreza nas redondezas, e como aquela crise deve ter atingido em cheio a população e ferido seus orgulhos – um carro velho em um país que preza tanto pelo automóvel…

Essa imagem voltou à mente quando li este artigo no portal HuffPost Brasil, publicado em julho deste ano, mas resgatado logo após a vitória do republicano Donald Trump. Sim, o texto é do Michael Moore, aquele cineasta autor de documentários como Tiros em Columbine e Fahrenheit 9/11 e considerado panfletário por muitos… Mas ele é de Michigan e, além de “prever” a vitória de Trump em novembro, lembrou de um episódio da campanha do republicano que combinava em com o que vi na minha breve passagem por Michigan (Estado no qual, aliás, Trump levou a melhor):

“Quando Trump falou à sombra de uma fábrica da Ford durante as primárias de Michigan, ele ameaçou a empresa: se eles realmente fossem adiante com o plano de fechar aquela fábrica e mandá-la para o México, ele imporia uma tarifa de 35% sobre qualquer carro produzido no México e exportado de volta para os Estados Unidos. Foi música para os ouvidos dos trabalhadores de Michigan”.

Com promessas assim, embaladas pelo slogan “Make America Great Again” e com o discurso de que vai unificar o país e governar para “todos os americanos”, Trump ganhou boa parte do eleitorado tradicional dos Estados Unidos que se sentiu abandonado. E claro, não dá para deixar de lado a desconfiança que recaiu sobre Hillary Clinton desde o começo da campanha, embora a maioria das pesquisas eleitorais apontasse para uma vitória da democrata, ainda que por margem estreita de votos.

Promessas e discursos que são apoiados em conceitos como a xenofobia, a misoginia e outros ódios contra minorias, no fechamento dentro de si próprio em vez de expandir horizontes. Novos muros físicos, sociais, culturais, políticos e econômicos devem ser erguidos, e os já existentes ganharão reforço. Tudo para “fazer a América Grande” novamente, mas pelo jeito é um preço que praticamente metade dos eleitores nos Estados Unidos aceitou pagar.

Veja aqui o resultado final da eleição presidencial nos EUA (com UOL e AP)

Depois de ler o texto de Moore, a vitória de Trump me pareceu menos absurda – mas não menos desastrosa. E também está longe de ser um fato isolado. Basta olhar para a vitória do Brexit no Reino Unido, para as políticas cada vez mais restritivas em relação às migrações em outros países (e que devem ser replicadas também nos Estados Unidos). O Brasil também entra nessa roda, é claro. Basta lembrar das reportagens que a Ponte Jornalismo tem divulgado sobre refugiados e solicitantes de refúgio no Brasil, só para citar um único exemplo e dentro do escopo do MigraMundo, as migrações.

O baque para quem acreditava em uma vitória de Hillary vai custar a passar, mas traz lições importantes e deve gerar uma profunda autorreflexão – só assim para não perder a esperança de uma vez com o mundo atual e seus retrocessos recorrentes. Só para citar um exemplo, essa eleição para mim mostra, mais uma vez, o quanto as redes sociais nos colocam dentro de grandes bolhas que nos levam a ter uma visão de mundo, mas que pouco ou nada têm a ver com a realidade. Mostra que é necessário enxergar além dessa bolha e tentar entender que argumentos conseguem angariar tantos apoios, mesmo quando pressupõem exclusão, discriminação e fechamento dentro de si, em nome de uma suposta segurança e manutenção do bem-estar. Por exemplo, o conceito de que “migração controlada” é diferente de “xenofobia” – que é encampado, por exemplo, até mesmo por brasileiros que vivem no exterior ou que já tiveram experiência como migrantes, independente do status migratório.

Dos limões azedos de agora, é preciso tentar fazer a limonada mais doce possível. Com reflexões, autocrítica, união e ações inovadoras e positivas, é possível manter abertos os caminhos que possibilitam mudanças. Mas sim, nunca é demais lembrar que o desafio e as dificuldades são cada vez maiores.
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Voltando a falar de Michigan, percebi hoje que não tinha fotografado o carro. Mas ao procurar uma foto para ilustrar este texto, me deparei com uma imagem um tanto quanto fantasmagórica que tenho da bandeira dos Estados Unidos no mirante do Empire State Building, em Nova York. Era uma noite com visibilidade zero do alto do edifício, e a bandeira era a única coisa que dava para ver em meio ao nevoeiro, além da luz no topo do prédio. E pensando bem, ela mostra o quão incerto o futuro vem se desenhando – e devemos nos preparar para ele.

Bandeira dos EUA no Empire State Building, em noite de nevoeiro. Uma foto que traduz o cenário de incerteza que se desenha. Crédito: Rodrigo Borges Delfim - mai.2013/MigraMundo
Bandeira dos EUA no Empire State Building, em noite de nevoeiro. Uma foto que traduz o cenário de incerteza que se desenha.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim – mai.2013/MigraMundo

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