Comissão do Vladimir Herzog defende entrega de prêmio a foto de haitiano tomando banho

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Em entrevista ao MigraMundo, a Comissão Organizadora do Prêmio Vladimir Herzog expôs os motivos que levaram à escolha do prêmio da categoria Fotografia deste ano.

O trabalho contemplado foi do fotógrafo Ronny Santos, feito em 19 de maio deste ano, de um migrante do Haiti que estava tomando banho de forma improvisada nas dependências da Missão Paz, em São Paulo. A imagem, que foi destaque nos jornais Agora e Folha de S.Paulo no dia seguinte (veja aqui), foi criticada por migrantes e entidades que trabalham com a acolhida e orientação dessa população.

De acordo com a Comissão, a premiação ao trabalho foi mantida “em vista de esclarecimentos prestados por escrito pelo autor da foto, segundo o qual não houve qualquer constrangimento do fotografado, para a feitura de várias fotos”. Também argumentou que “não foi publicada a foto do rosto do homem que se banhava – nem seu nome – para evitar que ele se constrangesse com a publicação”.

A entrevista completa sobre o posicionamento da comissão pode ser lida abaixo:

Selo do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos deste ano. Crédito: Divulgação
Selo do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos deste ano.
Crédito: Divulgação

MigraMundo: Quais critérios foram levados em conta para conceder o prêmio à referida imagem?
Comissão Organizadora: Os critérios gerais para atribuição do Prêmio Vladimir Herzog constam do seu regulamento, que se encontra em www.premiovladimirherzog.org.br e que se baseiam nos valores da democracia, cidadania e direitos humanos e sociais. Na categoria fotografia, são critérios específicos de premiação a qualidade técnica e enquadramento, correspondência com os fatos, o impacto estético da peça, inteligibilidade e grau de denúncia de violação de direitos humanos. Os jornalistas que foram jurados neste ano, integrantes de um grupo de 24 profissionais de imprensa, professores e estudiosos de comunicação de vários Estados do Brasil, escolheram essa foto – no que foram referendados pelos 11 membros da Comissão Organizadora do prêmio, em reunião pública realizada no último dia 30 de setembro, na sala Oscar Pedroso Horta da Câmara Municipal de São Paulo, e transmitida integralmente, online – pela força da imagem, pelo absurdo da situação fotografada e pelo roteiro de pauta enviado por seu autor.

Tanto a foto em si quanto o prêmio dado a ela foram alvo de objeção por parte de migrantes (especialmente haitianos) e de entidades e pessoas ligadas à temática migratória. Alguém chegou a se posicionar contra a premiação? Se sim, em que se baseou a decisão de manter a escolha?
Houve uma manifestação contrária à premiação, de autoria do padre Paolo Parise, da Missão Paz, que alegou que o homem fotografado fora constrangido pelo fotógrafo e pela foto publicada; que o mictório era usado para lavagem de roupas; e que por isso podia ser usado para banhos. Outra manifestação contrária foi a enviada pela coordenação da Organização dos Haitianos em São Paulo e assinada por Pierre Louis Viergina. Na rodada de consultas à Comissão Organizadora sobre o fato, um único membro da Comissão, representante do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, ponderou que, em sua opinião, a premiação deveria ser suspensa para se apurar a divergência e para se ouvir o outro lado da polêmica. O representante da Intercom, por telefone, recomendou calma e cautela na decisão final e que nada deveria ser encaminhado sem antes ouvir os dois lados. Mas todos os demais membros da Comissão deliberaram pela confirmação do prêmio, em vista de esclarecimentos prestados por escrito pelo autor da foto, segundo o qual não houve qualquer constrangimento do fotografado, para a feitura de várias fotos; e fez questão de não publicar a foto do 3 rosto do homem que se banhava – nem seu nome – para evitar que ele se constrangesse com a publicação. Além disso, na data da entrega do Prêmio Vladimir Herzog, pela manhã, houve uma Roda de Conversa no Tucarena, aberta ao público e previamente anunciada tanto entre todos os jornalistas vencedores quanto publicamente, e que também foi integralmente transmitida online, pela TV PUC. Questionado pelos colegas a respeito da foto nessa oportunidade, seu autor descreveu e explicou detalhadamente, de viva voz, o processo de realização do trabalho, não deixando dúvidas sobre sua legitimidade ética. Foram, portanto, consideradas as ponderações de ambos os lados e, no novo debate entre as entidades do Júri, decidimos manter a decisão. Entendemos que as informações sobre as instalações de emergência, e alegações sobre o constrangimento do fotografado e da comunidade haitiana apontados pelo Padre não retiram a importância da fotografia em termos de denúncia pública de um problema social. Concluímos que houve esforço na tentativa de preservar a imagem do fotografado, e neste caso, os danos à sua imagem e dos haitianos aludidos pelo Padre Paolo seriam menores do que aqueles causados pela não valorização ou supressão de informação sobre uma situação de grande relevância nacional e global, que é a falta de condições de instituições estatais e sociais para recepcionar os imigrantes.

Ao reconhecer essa imagem com um prêmio de direitos humanos, que mensagem o Vladimir Herzog deixa ou pretende deixar para a sociedade brasileira, incluindo os migrantes que também a compõem?
Ao selecionar todos os trabalhos jornalísticos distinguidos a cada ano, o Prêmio Vladimir Herzog deixa uma mensagem em defesa da democracia, da liberdade de expressão, da verdade, da dignidade humana e do interesse público. Acreditamos que o registro fotográfico premiado neste ano constrange mais quem submete uma pessoa a se banhar em um mictório do que quem é fotografado, sem ser identificado, ao fazê-lo.

1 COMENTÁRIO

  1. Prezados membros do Prêmio Vladmir Herzog, a desculpa de que o fotógrafo respeitou a imagem e o nome do haitiano não convence. No site da folha, http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/05/1631279-nova-onda-de-imigrantes-haitianos-causa-superlotacao-em-paroquia.shtml, é possível ver uma foto em que o rosto do haitiano está evidente. Dessa forma, não é possível concordar que o fotógrafo protegeu a imagem do haitiano na realização das imagens que levaram ao prêmio. Acredito até que o fotógrafo não saiba o nome do haitiano. Essa é uma falta de respeito aos direitos humanos dos haitianos e daquela pessoa em particular. Muito triste premiarem isso 🙁

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