Como imigrantes e refugiados no Brasil veem as respostas das lideranças políticas contra o Covid-19

Mesmo sem direito a voto, imigrantes e refugiados residentes no Brasil também acompanham e possuem suas impressões quanto à política nacional

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Pôster do Projeto Amplifier. que usa a arte como forma de ampliar vozes de movimentos sociais, que ressalta que a tarefa de salvar vidas está nas mãos de todos. (Foto: Christian Bigwater/Amplifier)

Por Patrícia Nabuco Martuscelli*

Dizem que em águas calmas todos os navios têm bons capitães. Porém, a maior parte das embarcações enfrenta diversos desafios no mar. Isso também se aplica aos nossos países. Em um contexto de crise como a pandemia pelo novo coronavírus (Covid-19), a atuação dos líderes políticos tem se mostrado crucial para guiar sua população por esses tempos tenebrosos. Enquanto lideranças políticas de muitos países são elogiadas internacionalmente por suas rápidas ações para minimizar o contágio e os efeitos da doença em suas nações, outras são criticadas pela falta de políticas ou pelo modo que têm lidado com essa crise global.

Também as lideranças brasileiras estão sendo colocadas à prova sobre como agir nesse momento. O modo como os brasileiros percebem as respostas de seus governos à pandemia do covid-19 vem recebendo especial atenção da mídia, principalmente considerando as eleições municipais que estão programadas para ocorrer ainda nesse ano no país. Como eleitores, os brasileiros podem punir nas urnas seus representantes, o que coloca maior pressão por respostas a essa pandemia. Nesse sentido, observamos as diferentes estratégias de políticos nos governos federal, estaduais e locais.

Apesar disso, nem todos os residentes no Brasil possuem direito à voto. Os imigrantes e refugiados, apesar de viverem no país e pagarem impostos, não podem escolher seus representantes em eleições. Por isso, esse grupo normalmente não perguntado sobre suas impressões e reflexões políticas no país. Porém, suas reflexões são importantes, assim como as de cidadãos nacionais.

Considerando que o modo como o governo federal, estadual e local responde à pandemia afeta diretamente suas vidas, minha pesquisa perguntou a imigrantes e refugiados como eles estavam percebendo as respostas das lideranças políticas brasileiras à pandemia do covid-19.

Percepções sobre respostas à pandemia

Nas últimas semanas, entrevistei, por telefone, 34 imigrantes e refugiados de diferentes nacionalidades (Angola, Camarões, Chade, Colômbia, Guiana, Guiné, Mali, República Democrática do Congo, Senegal, Síria, Togo e Venezuela) que são residentes no país. 

A maior parte dos entrevistados respondeu as perguntas sobre como o governo federal, estadual e local estavam lidando com a pandemia. Meus entrevistados viviam em sua maioria no estado de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Apenas uma pequena parcela disse que não acompanhava a política brasileira, ou que não se envolvia em discussões políticas no país.

Dentre os entrevistados de São Paulo, a maioria percebe uma clara divergência (alguns até chamaram de conflito) entre o modo como o governo federal tem lidado com a pandemia e as ações do governo estadual e local. Essa mesma percepção ocorre em refugiados e imigrantes entrevistados no Rio de Janeiro, porém entre o presidente e o governador, com menor menção ao prefeito. 

De modo geral, os entrevistados reconhecem que o governo federal está preocupado mais com a economia do que com a população e que isso é questionável: “ele está mais preocupado com o material do que com o humano”. Eles também reforçam que a presidência não tem dado à devida atenção para essa doença e têm minimizado sua seriedade, o que poderia ser classificado como uma irresponsabilidade nas palavras de alguns imigrantes e refugiados. Outros entrevistados reconheceram que as respostas do governo federal foram muito confusas, com o presidente cada hora falando uma coisa.

 Já os governos estaduais e locais (ainda que eles pudessem ser criticados em outras frentes) tinham consciência da gravidade da crise e estavam tomando maiores ações para proteger a população como fechar as lojas e mandar ficar em casa. Os imigrantes e refugiados entendem que essas esferas subnacionais estavam adotando as medidas recomendadas pelas Organização Mundial da Saúde (OMS). Alguns imigrantes e refugiados elogiaram especialmente a atuação dos governos municipais no sentido de passar informações diárias para a população e também de agentes locais de saúde que estavam oferecendo cuidados em casa.

Houve entrevistados que reconheceram que os governos estaduais estavam de parabéns na forma como estavam lidando com a crise. Apenas dois entrevistados elogiaram as ações do presidente (como sugerir o isolamento dos idosos) por acreditarem que as condições no Brasil são diferentes dos países europeus mais afetados e porque é necessário pensar também na econômica. Um desses entrevistados também elogiou a ação da prefeitura de São Paulo de adotar uma quarentena de duas semanas como prevenção.

Uso político da pandemia

Uma outra reflexão recorrente é que imigrantes e refugiados percebiam que governadores e prefeitos estavam fazendo um uso político da pandemia. Ou seja, esses políticos estavam adotando medidas não porque se importavam de fato com a população, mas porque estavam pensando nas próximas eleições. Para eles, esse não seria o momento de fazer uma guerra política e propaganda política porque o foco deveria ser a prevenção da vida e da saúde das pessoas.

Alguns entrevistados (principalmente de países africanos) me informaram que uma liderança política (principalmente o presidente) seria como um pai para o país. Por isso, seu trabalho maior deveria ser preservar a vida das pessoas que moram no país, de todas elas sem distinção. Assim, todos os esforços deveriam ser empreendidos para não deixar ninguém morrer. Há um consenso de que a vida vale muito. Outros já reconheceram que é importante pensar na vida das pessoas em primeiro lugar, mas também na economia do país. Também reforçaram a importância da saúde para que as pessoas possam trabalhar e que a saúde deveria ser priorizada sobre o dinheiro.

Alguns entrevistados reforçaram que os governos deveriam adotar medidas mais duras para que as pessoas fiquem em casa tais como aplicar multas, adotar toques de recolher depois das 18 horas por exemplo, colocar a polícia nas ruas para fiscalizar o cumprimento das medidas e permitir que apenas os trabalhadores essenciais acessem o transporte público. Porém essas medidas deveriam ser tomadas garantindo as condições para que toda a população brasileira possa ficar em casa.

Ou seja, seria importante medidas mais rígidas acompanhadas de apoio financeiro para as pessoas pagarem suas contas, cestas básicas e kits de higiene. Também seria importante que a população brasileira reconhecesse a seriedade do novo coronavírus e ficasse em casa. Vários entrevistados se queixaram de que os brasileiros não estavam seguindo as recomendações de ficar em casa, o que colocava a vida de todos em risco. 

Desinformação e fake news

Para isso, seria importante recomendações claras e coordenadas dos diferentes governos. Isso contribuiria especialmente para evitar a desinformação e as fake news. Muitos entrevistados destacaram a importância de ter informações para lidar com o vírus e como há um grande número de fake news nas redes sociais. Alguns entrevistados reconheceram que, por não entenderem tão bem a língua e a cultura brasileira, refugiados e imigrantes (especialmente os recém-chegados) seriam mais propícios a caírem em esquemas para roubar dados e fake news. 

A qualidade das nossas lideranças políticas importa para todos os residentes de um país, independente do que está escrito em seus documentos de identidade. As decisões daqueles que estão no poder podem colocar em risco a vida de milhares de pessoas. Isso é especialmente claro em um contexto de pandemia como esse em que estamos vivendo. Nesse sentido, as respostas das nossas principais lideranças políticas têm decepcionado muitas pessoas. Isso inclui imigrantes e refugiados que participaram da minha pesquisa. E só reforça que conflitos políticos, confusão e falta de clareza são ainda mais perigosos quando um novo vírus ameaça todo o planeta.

Patrícia Nabuco Martuscelli é doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo

**A imagem usada neste artigo é de um dos pôsteres disponíveis no projeto Amplifier (livre reprodução se usada sem fins lucrativos), que visa usar a arte como forma de ampliar o alcance de vozes de movimentos sociais. O pôster de Christian Bigwater faz parte de uma série que tem o coronavírus e a prevenção a ele como tema


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