Como o Covid-19 afeta imigrantes e refugiados no Brasil

Além da questão da saúde, imigrantes e refugiados tendem a ser afetados de diferentes formas pelo novo coronavírus, da renda ao medo da xenofobia

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Por motivos diversos, imigrantes em geral estão entre as populações mais vulneráveis ao coronavírus
Quadro do artista congolês Lavi Israël, inspirada na pandemia de coronavírus. Foto foi cedida ao MigraMundo pelo próprio artista

Por Patrícia Nabuco Martuscelli*

Há alguns anos durante minha pesquisa para o doutorado, me deparei com o seguinte caso: houve um casamento entre dois refugiados sírios que estavam no Brasil, porém havia algo diferente de outros matrimônios: um computador estava ligado com um aplicativo de videoconferência para permitir que as famílias dos noivos que não tinham como vir para o Brasil participassem desse momento de felicidade e união entre duas famílias.

Se essa situação parecia algo fora da realidade dos brasileiros que tinham suas famílias no país e um “problema” apenas para refugiados e imigrantes, hoje com recomendações para o distanciamento social, famílias brasileiras têm se encontrado no mundo virtual com a ajuda de aplicativos e sites de videoconferência.

É um fato que a pandemia do novo coronavírus (COVID-19) tem afetado a vida de praticamente toda a humanidade. Porém, imigrantes e refugiados tendem a ser afetados de diferentes formas por viverem em mobilidade, ou seja, não estarem no país que eles são nacionais. Pensando nisso, comecei a pesquisar como o coronavírus afeta a vida de imigrantes e refugiados no Brasil.

Ao todo, realizei 25 entrevistas com refugiados e imigrantes de diferentes nacionalidades: Síria, Mali, Camarões, Senegal, República Democrática do Congo e Colômbia para entender suas experiências enfrentando uma pandemia em uma situação de mobilidade. Algumas reflexões dessa entrevista compõem essa série do MigraMundo.

‘Classificação’ de imigrantes e refugiados no Brasil

Por um lado, imigrantes e refugiados enfrentam as mesmas dificuldades que brasileiras estão enfrentando. Um entrevistado me explicou que seria possível classificar os imigrantes e refugiados no Brasil em três categorias:

a) imigrantes e refugiados que estão em situação de maior vulnerabilidade incluindo desempregados, com doenças crônicas, idosos e mais pobres – normalmente esses imigrantes chegaram ao país sem nada;

b) imigrantes e refugiados mais novos que chegaram ao país com habilidades que os permitiram se inserir no mercado de trabalho – entrariam nessa categoria profissionais liberais que trabalham em suas profissões e aqueles que estão empregados com carteira assinada;

c) imigrantes e refugiados que chegaram ao país com algum capital que permitiram que eles abrissem negócios próprios.

Assim, como os brasileiros, esses três grupos são afetados de diferentes maneiras pela crise do coronavírus. Os imigrantes e brasileiros mais vulneráveis incluindo os desempregados temem não ter o que comer durante o isolamento social. Muitos imigrantes do segundo tipo atuam como autônomos e, se eles não possuem reservas, também podem estar enfrentando necessidades.

Os imigrantes que possuem negócios próprios também viram eventos cancelados e estão em uma situação difícil. Os que estavam empregados com carteira assinada, como muitos brasileiros, temem o futuro de perderem seus empregos como decorrência do agravamento da crise econômica.

Há também imigrantes e refugiados que estão no grupo de risco por causa da idade ou por possuírem doenças crônicas. Assim como os brasileiros que estão nessa categoria, eles têm especial medo de serem infectados.

Moradia e saúde

A epidemia também afeta desproporcionalmente pessoas que moram em ocupações e a população em situação de rua. Muitos imigrantes e refugiados (assim como brasileiros) não tem condições dignas de moradia e ficar em casa não é uma opção.

Os entrevistados explicaram que as pessoas que moram em ocupações vivem em condições degradantes, sem acesso à água e itens de higiene e sem possibilidade de seguirem as recomendações de distanciamento social. Nesse sentido, os entrevistados reconhecem que os imigrantes e refugiados em pior situação seriam esses que vivem em ocupações e nas ruas porque mesmo os que vivem em favelas e comunidades possuem mais possibilidade de seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). 

Os efeitos psicológicos da doença também afetam imigrantes, refugiados e brasileiros. Os entrevistados relataram medo, ansiedade, estresse, preocupação, incertezas em relação ao futuro. Contudo, além das preocupações que brasileiros também poderiam ter, refugiados e imigrantes são mais afetados por essa crise por estarem em uma situação de mobilidade.

Em primeiro lugar, refugiados e imigrantes mencionam a dificuldade de encontrar informações precisas e evitar fake News. Há uma preocupação especial em relação aos recém-chegados que não possuem domínio do idioma português. Também, apesar de continuarem prestando serviços por e-mail e telefone, muitas organizações referência para essa população estão fechadas, o que agrava uma sensação de solidão e desamparo.

Em seguida, havia uma incerteza se imigrantes e refugiados poderiam se beneficiar de programas criados pelo governo para ajudar a população brasileira em meio à pandemia —eles estão entre os que podem solicitar o auxílio emergencial criado em resposta ao Covid-19.

Medo da xenofobia

Além disso, muitos imigrantes e refugiados narravam o medo de serem discriminados caso ficassem doentes e tivessem que acessar o sistema de saúde. Como a xenofobia é algo que dificulta o acesso de imigrantes a direitos, muitos entrevistados afirmaram que o maior medo de adoecerem é que eles não receberiam o tratamento adequado e poderiam ser preteridos (como já o foram em outras ocasiões) ao procurarem tratamento médico.

Outra situação que afeta unicamente os imigrantes e refugiados é o acesso à documentação. Os entrevistados reconhecem que todos os processos migratórios foram parados o que inclui processos de reconhecimento do refúgio, pedidos de reunião familiar e de naturalização, por exemplo. Isso é complicado especialmente para os mais de 200 mil solicitantes de refúgio que estão em situação temporária no país e que precisam da resposta da sua solicitação de refúgio para poderem seguir com as suas vidas.

Também entrevistados lembram que as fronteiras estão fechadas. Isso leva à incerteza de que se familiares de refugiados e imigrantes que já foram contemplados com vistos de reunião familiar e já tinham a passagem comprada conseguirão entrar no país.

Conexão com o país de origem

Além disso, refugiados e imigrantes se preocupam com a situação de seus familiares que estão nos países de origem. Todos os entrevistados mencionaram estarem preocupados com seus familiares porque eles vivem em países que estão em conflito e/ou que não possuem recursos para combater a epidemia.

Contribui para isso a dificuldade de enviar dinheiro para o país de origem. Muitos refugiados e imigrantes são responsáveis por sustentar suas famílias que ficaram no país de origem. Eles relataram que os serviços de envio de remessas – por não serem essenciais – estão fechados. Isso significa que não há como imigrantes e refugiados enviarem dinheiro para os seus familiares e isso pode resultar que seus filhos, esposas e demais familiares não tenham como arcar com custos básicos de alimentação e aluguel, por exemplo.

Esse contexto do país de origem tem preocupado os imigrantes e refugiados. Além do mais, há uma dificuldade de estabelecer comunicação com a família. Alguns entrevistados relataram que seus familiares moram longe das capitais onde o acesso à internet e celulares é muito limitado. Por isso, para se comunicarem com suas famílias, eles precisavam se dirigir a serviços que fazem chamadas telefônicas internacionais, porém esses locais estão fechados há cerca de 3 semanas.

Outro entrevistado refletiu que é muito importante que, nesse contexto de crise, não se criem situação que motivem a xenofobia. Ele reconhece que como todos estão sofrendo com essa crise, seria importante que o governo considerasse a população imigrante em seu planejamento sem criar situações de tensões entre brasileiros. Ele explicou, por exemplo, que imigrantes não acessam normalmente benefícios como cestas básicas em locais em que há brasileiros que também precisam delas por medo de sofrerem xenofobia. Assim, seria necessário pensar em medidas que reconhecessem as necessidades de diferentes minorias, dentre elas a da população imigrante e refugiada no país.

A experiência de Portugal, que garantiu acesso à documentação para todos os imigrantes independentemente da situação migratória, reconhece que todos os seres humanos são iguais e que aqueles que estão em situação de mobilidade precisam de um apoio extra para passar por esse momento de crise.

Também o Brasil, dentro das suas capacidades, poderia reconhecer os desafios extras que imigrantes e refugiados que não possuem redes de apoio no país estão passando. Assim como os brasileiros, eles contribuem de diferentes formas para o país (incluindo economicamente), mas diferentemente dos brasileiros eles estão ainda mais desamparados em meio ao maior desafio de saúde pública do nosso século.

Patrícia Nabuco Martuscelli é doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo

*Lavi Israël, cuja obra ilustra esta reportagem, é um artista congolês que mora atualmente no Brasil


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