Criança refugiada tem 5 vezes menos chance de estudar, aponta ONU

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Patrick Abale, professor da escola de Yangani, em Uganda. Crédito: ACNUR

Relatório “Deixados para trás”, do ACNUR, mostra que apenas 1% dos 6,4 milhões de refugiados em idade escolar concluirão ciclo de estudos até o ensino superior

Por Victória Brotto
De Estrasburgo (França)
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“A quem Yagani pertence?”, pergunta em inglês o professor Patrick Abade no meio de uma sala lotada por crianças. Estalando os dedos e dançando, ele faz da pergunta uma canção – e a repete três vezes. As meninas e os meninos ao seu redor, mesmo espremidos uns nos outros, dão risada e o acompanham. “A quem Yagani pertence?”, cantam todos.

Yagani é uma pequena escola primária em Bidibidi, Uganda. Lá não estudam só meninos e meninas ugandeses, mas também algumas crianças refugiadas, principalmente vindas do Sudão do Sul. Elas fazem parte dos 61% de crianças refugiadas entre 5 e 7 anos que vão à escola – percentual que contrasta com os 91% de outras crianças ao redor do mundo que frequentam a escola regularmente. Ou seja, uma criança refugiada hoje tem cinco vezes menos chances de estudar do que uma criança fora de uma situação de refúgio.

Patrick Abale, professor da escola de Yangani, em Uganda.
Crédito: ACNUR

Daqui alguns anos, quando já estiverem na adolescência, a maioria delas vai parar de estudar porque não vai encontrar espaço no sistema educacional dos países que as acolheram. Isso porque de todos os refugiados adolescentes, apenas 23% conseguem uma vaga no Ensino Fundamental – sendo que 83% dos outros adolescentes no mundo conseguem continuar seus estudos depois da escola primária.

E, quando forem jovens, apenas 1 em cada 100 refugiados entrará no Ensino Superior – o que representa 1% de uma população de 6,4 milhões de jovens. Os outros 99% – mais de 5 milhões de jovens – ficarão sem um diploma universitário, o que significa que viverão às margens da sociedade depois de terem fugido de seu países para não morrerem assassinados por milícias, por seus próprios governos ou para simplesmente não morrerem de fome.

Os números são do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, o ACNUR, publicados na última quarta-feira, 13, no relatório “Deixados para trás” (Left Behind, no nome original em inglês). “A Educação deve ser parte integral da resposta para a crise de refugiados – ela não é um item de luxo, mas uma necessidade básica”, afirma o alto comissário para refúgio da ONU, Filippo Grandi. “Ela proporciona um ambiente estável e de proteção para o jovem, quando tudo ao redor dele parece ser apenas caos”.

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No relatório, Grandi critica a falta de resposta da comunidade internacional um ano depois dela ter se comprometido, pela Declaração de Nova York, a ajudar os refugiados em termos de educação.

“A Declaração para Refugiados e Migrantes feita em Nova York ano passado, assinada por 193 países, coloca a educação como prioridade à crise migratória”, afirma o comissário. “Mas mesmo após um ano depois, os refugiados estão em risco de serem deixados realmente para trás em termos de educação”. E acrescenta: “É tempo para todos nós colocarmos em prática as nossas palavras”.

“Há uma desigualdade evidente de oportunidades para refugiados e não-refugiados (…). Precisamos investir em escolas, em professores, dar o material de estudo apropriado aos refugiados e também dar oportunidades iguais tanto a meninas quando a meninos refugiados”, afirma a sudanesa Alek Wek, embaixadora da Boa Vontade do ACNUR.

Alek Wek, embaixadora do ACNUR, durante visita a Juba (Sudão do Sul).
Crédito: Brian Sokol/ACNUR

Alek fugiu de sua vila aos 14 anos por causa da guerra civil e se mudou para Londres, na Inglaterra, onde estudou moda na universidade. “O mundo tem muito a perder se deixar gerações inteiras de refugiados crescerem marginalizados e alienados.”

Nyahok, a menina que quer voar

Nyahok Reath, de 16 anos, quer estudar para conseguir entrar em um avião, mas não como passageira. A menina Nyahok, da cidade de Nasser, no Sudão do Sul, quer pilotar uma aeronave. “Meu sonho sempre foi me tornar uma piloto. Quando eu era mais nova, eu via aeronaves sobrevoando Nasser. Eu via aqueles pilotos saindo de seus aviões com aqueles uniformes bonitos…”, afirmou a menina a uma das equipes da ACNUR.

Nyahok faz parte dos 67% dos refugiados que estão fora da escola. Ela e sua família fugiram de Nasser por causa da guerra civil, moraram em um campo de refugiados na Etiópia e, com a ajuda de um tio, a menina foi estudar no Quênia, em Nairóbi. Mas depois de seis meses o tio não conseguiu mais pagar a sua escola, e Nyahok precisou interromper seus estudos.

Nyahok Reath, 16, sonha em pilotar aviões.
Crédito: ACNUR

Hani al-Moliya fugiu ainda adolescente com a sua família de Homs, na Síria. Seus tios e primos foram mortos porque não quiseram deixar suas casas. Na hora de deixar tudo para trás, Hani contou à Melissa Fleming, porta-voz do ACNUR, que decidiu pegar seu diploma do Ensino Médio.

“Eu sabia que a minha vida dependia dele. Sem educação, eu não sou nada”. Ele e sua família viveram depois em um campo de refugiados no Líbano e após “tempo demais”, conforme diz Fleming, o jovem conseguiu asilo no Canadá. Hoje ele estuda Engenharia da Computação na Ryerson University, em Toronto.

“Quando as pessoas me perguntam por que o problema dos refugiados deve ser um problema do mundo todo, eu sempre penso em Hani, o menino determinado que pegou seu diploma entre todas as outras coisas que deixou para trás”, afirma Fleeming. “Investindo em educação, nós investimos em jovens determinados, corajosos e criativos como Hani”.

Por que Educação?

“Eles querem saber de nós e nós queremos saber deles. Há tanto o que ser dito e explicado. Às vezes eu traduzo do Árabe para o alemão ou do alemão para o árabe”, diz Kamala, 10 anos, uma refugiada síria que vive hoje em Golzow, na Alemanha sobre seus colegas de classe.

De acordo com um novo estudo feito pelo Escritório Nacional de Pesquisas Econômicas dos Estados Unidos, quanto mais jovem e mais integrado na cultura local o refugiado está, mais lucros econômicos ele gerará para o país.
O estudo “Os ganhos econômicos e sociais dos Refugiados nos Estados Unidos: Evidências da ACS” usou a base de dados do centro de pesquisa American Community Survey (ACS) para analisar o perfil de refugiados de entre 18-45 anos que chegaram aos EUA nos últimos 25 anos. De acordo com as análises, os migrantes que chegaram antes dos 14 anos, hoje tem mais autonomia econômica do que os que chegaram aos EUA mais velhos.

Kamala, 10, refugiada síria que vive hoje na Alemanha.
Crédito: Gordon Welters/ACNUR

Para William Evans, um dos autores do estudo, é errado focar apenas no custo com os refugiados, porque eles também geram ganhos para a sociedade. De acordo com o estudo, ao longo de 20 anos, os refugiados contribuíram com 20,000 dólares a mais do que o que o governo americano gastou com eles. “ Você não pode olhar apenas para um lado dessa equação. Eles estão recebendo ajuda, mas também estão gerando ganhos sociais e econômicos”, afirma William Evans, economista e um dos autores do estudo.

Para o professor do Centro de Estudos de Refugiados (RSC, sigla em inglês) da Universidade de Oxford, Alexander Betts, é uma presunção coletiva incentivada pelo discurso político de que ‘se ajudarmos os refugiados, nós estaremos impondo custos aos cidadãos’.

“Nós tendemos a tirar uma conclusão por nós mesmos de que os refugiados serão um fardo eterno à sociedade”, afirmou Betts em um de seus discursos no TEDx de Vancouver, no começo do ano passado. “Mas eles não precisam ser um fardo, eles podem contribuir.”

Mojtaba Tavakoli está prestes a começar o seu doutorado em doenças neurodegenerativas na Universidade de Viena, onde já se graduou na Faculdade de Medicina em biologia molecular.

Mojtaba é afegão e chegou há dez anos na Áustria, como refugiado, quando tinha 13 anos de idade. Mojtaba fugiu com sua família de Ghazni, zona rural no leste do Afeganistão, quando sua etnia começou a ser perseguida. Sua família então fugiu para a Turquia, e depois seus pais o colocaram com seu irmão em um bote para a Europa. “A Europa era o único lugar onde estaríamos seguros”. Antes de chegarem, o irmão de Mojtaba morreu afogado. Realocado na Áustria, o menino Mojtaba foi adotado por um casal de cientistas e foi sendo integrado na sociedade e no sistema educacional austríaco.

O refugiado afegão Mojtaba Tavakoli, que vive na Áustria.
Crédito: ACNUR

Em seu novo país, o médico cientista ajudou a fundar a Associação de Jovens Estudantes Afegãos na Áustria e é onde hoje incentiva jovens refugiados como ele a se “interessar por política e a se integrar e a redesenhar seus futuros na sua nova casa”. “Precisamos sonhar grande”, afirmou ele em seu discurso de formatura.

Os pais de Mojtaba viverão com ele na Áustria em um futuro próximo – é o que ele quer. Na sua formatura, a família toda estava reunida; os pais afegãos e os pais adotivos austríacos. Seu pai, Joma Ali, sorria e disse: “A noite de hoje é uma bela noite.”

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