De decepção a medo: brasileiros no exterior falam da postura de Bolsonaro frente ao coronavírus

MigraMundo ouviu oito brasileiros em três continentes onde o apoio eleitoral ao agora presidente era forte; a palavra "aterrorizante" foi repetida diversas vezes em relatos indignados com o governo e sensíveis ao número de mortes e à pobreza no Brasil

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De Estrasburgo (França)

O clima na comunidade brasileira no exterior era majoritariamente de apoio a Jair Bolsonaro, então candidato durante as eleições presidenciais de 2018. Mas após o presidente brasileiro ter adotado posturas polêmicas frente à uma crise sanitária sem precedentes na história contemporânea mundial, qual é o clima entre os mais de 1,6 milhão de brasileiras e brasileiros que vivem fora do país ?

Em países como Estados Unidos, Inglaterra e Portugal, a vitória de Bolsonaro foi massiva, o que explica a vitória no segundo turno por 71% a 29% sobre o petista Fernando Haddad.

O MigraMundo conversou com oito brasileiros residindo em três diferentes continentes: Europa, América do Norte e Oceania — locais onde a imprensa critica acidamente o presidente brasileiro.  

Os entrevistados se disseram insatisfeitos com a postura de Bolsonaro, descreveram sentimentos como ira, decepção e medo frente ao que chamaram de “postura irresponsável” do presidente ao longo da crise sanitária provocada pelo vírus Covid-19.

De acordo com dados divulgados no último sábado (17) pelo Ministério da Saúde apontam que o Brasil já registra 241 mil casos de coronavírus, com 16.118 mortes. Tais números já colocam o país como o quarto mais afetado pela pandemia, atrás somente de Estados Unidos, Reino Unido e Rússia.

Em vários Estados brasileiros o sistema hospitalar já se aproxima de um colapso, além das suspeitas de subnotificação de casos de vítimas do Covid-19.

Decepção

A demissão do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, a saída de Sérgio Moro do ministério da Justiça, o desrespeito às orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), assim como a fala de Jair Bolsonaro “E daí?” ao ser questionado sobre as cinco mil mortes foram descritas pela maioria como sendo posturas descritas como sendo a gota d’águá.  

Todos os entrevistados se mostraram altamente sensíveis ao número de mortes e ao fato de que a parcela mais pobre da sociedade estaria muito mais exposta à contaminação por conta das precárias condições em que vivem.

Da Inglaterra, a administradora Marina Carnelós se disse decepcionada com Bolsonaro e denuncia pobreza no Brasil e irresponsabilidade do presidente.
(Foto: MC/ Arquivo pessoal)

“O Bolsonaro foi uma das maiores decepções (…) a gente confiou nele para gerenciar o Brasil e ele está traindo o país”, afirmou a administradora de empresa Marina Carnelós, 28,  moradora da cidade de Bournemouth, na Inglaterra.

Marina votou em Bolsonaro nas últimas eleições acreditando que ele tinha uma boa equipe para gerenciar o Brasil. No entanto, seu apoio ao governante foi diminuindo desde o início da epidemia.

“Eu apoiei o Bolsonaro porque eu queria mudança  (o que eu continuo querendo para o Brasil) e porque ele não era do PT, eu sabia que o Haddad seria só mais uma marionete”, contou Marina. E acrescentou: “O plano de governo de Bolsonaro era um plano muito bem estudado, com estratégias e estatísticas. Eu via no Bolsonaro um administrador que o país precisava.”

Sobre os posicionamentos polêmicos de Bolsonaro, Marina afirmou que ela não concordava com os seus princípios, mas achava que o então candidato tinha escolhido uma boa equipe, e que ele “iria deixar a sua boa equipe trabalhar.”

“Acontece que com o Covid, o fato dele ter demitido o Mandetta no meio de uma pandemia, o desrespeito às orientações da OMS, a ida a passeatas quando vidas estão sendo perdidas, ele dizendo “E daí?” quando muita gente está morrendo… eu vi que não era possível”, afirmou.

“Ele ultrapassou todos os limites da humanidade”, acrescentou a brasileira, que informou estar arrependida de seu voto, dizendo que é a favor da interdição do presidente.

Da Suíça, o engenheiro Suedemborg Franco pede ao presidente “foco”, aumento de testes e tratamento da população.
(Foto: SB/Arquivo pessoal)

Marina contou ainda que seus amigos, moradores da mesma cidade na Inglaterra, estão também “profundamente decepcionados” com Bolsonaro, a quem apoiaram. Tal relato coincide com os outros relatos feitos pela maioria do grupo entrevistado.

“Muitos brasileiros aqui da Califórnia apoiaram Jair Bolsonaro durante as eleições. Com o passar do tempo, alguns mudaram o discurso, especialmente agora com as atitudes do presidente durante a pandemia” , afirmou  o empresário Guilherme Tigan, 30 anos, em San Diego, nos Estados Unidos. Ele, por sua vez, informou nunca ter apoiado o presidente.

“Se eu já não estava satisfeito com o trabalho realizado pelo Bolsonaro antes da pandemia, agora piorou. A falta de tato com que o presidente trata as pessoas que estão doentes e as pessoas que estão trabalhando para mudar o cenário, é inadimissivel. Isso sem contar que tudo isso não passa de uma “gripizinha”, na visão dele”, afirmou Guilherme.

Marina Sugrue, 29 anos, jornalista, que também mora nos Estados Unidos, mas em Chicago, afirmou que apesar de não ter apoiado o presidente quando candidato, entende que “o país estava buscando uma mudança, e que muitos pensaram que ele seria a salvação para a nação.”

De Chicago, a jornalista Marina Sugrue se diz aterrorizada com a realidade no Brasil , onde tem pais idosos morando no interior.
(MS/Arquivo pessoal)

Perguntada sobre a sua opinião, Marina o chamou de “irresponsável, sem nenhuma empatia para com as famílias que perderam seus pais, avós, filhos.”

Os familiares de Marina apoiaram e votaram no atual presidente da República, mas hoje, segundo ela, “eles se arrependeram” ou “não se conformam quão irresponsável ou incoerente ele é frente à pandemia.”

A assessora de imprensa Alana Moreira, 41, fala sobre o “silêncio” dos brasileiros que votaram em Bolsonaro em Lisboa, Portugal, onde mora desde 2017 — e um dos países onde o presidente teve mais votos, vindo depois apenas dos Estados Unidos, Japão e Inglaterra.

Segundo Alana, durante as eleições a parcela da comunidade brasileira a favor do atual presidente manifestou “de forma agressiva” o seu voto, “obrigando os blocos de esquerda a chamar a polícia para assegurar a votação na Universidade de Lisboa”.

“Mas depois disso eu não vi mais uma manifestação a favor, o que se tem hoje é um silêncio muito grande de quem votou nele.”

Alana afirmou que o governo está agindo de maneira “assustadora”: “É de uma irresponsabilidade tamanha (…) esse desprezo à ciência é algo assustador”, afirmou.

Myrna, tradutora intercultural na Suíça, se incomoda com debate político raivoso e denuncia falta de liderança de Bolsonaro. (Arquivo pessoal)

Da Suíça, o engenheiro Suedemborg Franco, 36 anos, e a tradutora intercultural Myrna, 56 anos, também opinaram. Suedemborg afirmou que o governo agiu com antecedência, antes do vírus se espalhar largamente. “Mas depois vários problemas transcorreram, como por exemplo, a quantidade baixa de testes, o que camufla o tamanho do problema e assim abafa ações necessárias e urgentes, além de alguns discursos sem cabimento do presidente.”

Myrna, que mora fora do Brasil há 19 anos, habitante da pequena cidade de Birrhard há pouco mais de 30 km de Zurique, não frequentava o noticiário brasileiro nos últimos tempos. A sua percepção de Bolsonaro era a mesma dos jornais suíços, críticos ao governo brasileiro por causa de acontecimentos como as queimadas na floresta Amazônica.

Myrna contou que foi muito incentivada por uma amiga a votar em Bolsonaro por “não ser o PT”. “Mas eu não tive coragem de botar o X no seu nome, ele me parecia muito despreparado intelectualmente”, afirmou ela, que contrariamente ao seu hábito de sempre votar nas eleições presidenciais desde os 16 anos, decidiu se abster em 2018. 

Sobre os tempos que correm no Brasil, Myrna disse que o presidente  “não assume uma postura de liderança”, como quando foi contra a política de isolamento do seu então ministro Luiz Henrique Mandetta.

De Sidney , Victor Olivieri chama negacionismo de Bolsonaro de assustador e propõe ao governo que adapte medidas utilizadas por outros países à realidade brasileira. (Foto: VO/Arquivo pessoal)

Myrna reclamou da falta de especialistas assessorando Bolsonaro, do presidente ter subestimado os efeitos do vírus, e de ter tido atitudes “provocadoras e irresponsáveis” como o juntar aglomerações de pessoas, provocando “insegurança no povo, medo, impedindo um enfrentamento efetivo da situação”, afirmou ela, que relatou ter colegas de trabalho no Brasil que não sabem a quem obedecer, se ao governo local ou ao governo federal.

“Eu comparo (as atitudes do presidente) com a atitude responsável e de liderança das autoridades daqui, que fazem o povo saiba da gravidade, mas que sinta que é possível superar a crise.”

Moradora da cidade de Barcelona, na Espanha, Mariana Araújo, 29, jurista especializada em migrações, disse que quem está “salvando Brasil é o federalismo”, por estar contendo a crise criada pelo Executivo federal graças às suas estruturas.

A brasileira culpou Bolsonaro pelas consequências da epidemia no Brasil e também responsabilizou os seus eleitores.

“Existe uma diferença entre responsabilidade e culpa, como escreveu (Hannah) Arendt (renomada filósofa alemã por suas teses sobre a condição humana e a banalidade do mal). A culpa pelas mortes Bolsonaro vai carregar para sempre, mas eu acredito também que quem votou nele tenha sim responsabilidade com o que está acontecendo.”

Em Sidney, na Austrália, o jornalista Victor Olivieri, 26 anos, afirmou que o sentimento que perpassa a comunidade brasileira na cidade australiana é “misto”.

“O sentimento é misto, algumas se decepcionaram, mas ainda há apoiadores, que acreditam que o governo tem feito o possível para solucionar a crise, tentando retomar a economia dentro de uma quarentena mais flexível”, afirmou.

E acrescentou:  “ Na minha opinião, o governo falhou e segue falhando ao não encontrar um plano de medidas sério e claro. É desesperador ver as crises que a própria gestão cria, indo equivocadamente na contra-mão dos médicos e cientistas, além do fato do apoio a manifestações pela volta do regime militar, algo que é ainda mais assustador.”

O Brasil (quando o vemos) de longe

As condições de vida da população mais pobre no Brasil choca os que vivem longe quando falam sobre as mortes pelo vírus. A maioria dos (as) entrevistados (as) tem parentes em grupos de risco, o que lhes causa preocupação por estarem longe.

“É assustador (estar longe do Brasil nesse momento). Eu não tenho nenhum familiar morando aqui nos EUA, meu maior medo é que algum familiar no Brasil fique doente e não tenha acesso ao tratamento ou que o hospital não tenha recursos suficientes (quarto, respirador, equipe médica), que seria o caso de meus pais que moram em cidade do interior e estão acima de 60 anos.”, disse Marina Sugrue, em Chicago.

Mariana Araújo, que mora em Barcelona e está atualmente no Brasil com os pais durante a epidemia, afirmou que o grande debate deste momento é fazer ou não a fila única nos hospitais, sem distinção entre pacientes privados e públicos.

Poder pagar por leitos privados explicita, segundo ela, uma elite da qual ela diz fazer parte. “Somos parte de uma certa elite que não conhece o Brasil (…) O Brasil não é o que a gente vive, o Brasil não é a Suiça, o Brasil não é o que mostra a propaganda do governo.”

Da Inglaterra, Marina Carnelós disse “ser um absurdo o Brasil ter pessoas sem saneamento básico e que vão morrer também de fome se o governo não fizer nada.”

Alana Moreira, de Lisboa, disse ser “preocupante viver fora do Brasil, porque “não conseguimos deixar tudo pra trás. Temos pais idosos, mesmo que tenham seguro privado, nós não sabemos se haverá luga para eles nos hospitais.”

“E eu me sinto realmente triste e preocupada porque vive-se em uma insegurança, numa falta de amparo, de  responsabilidade”, afirmou Myrna, brasileira na Suíça, onde ela se sente segura quanto à gerência da crise sanitária, assim como Suedemborg.

 Victor e Guilherme, um na Austrália e outro nos Estados Unidos, se dizem aliviados e satisfeitos por viverem em países que gerenciam bem a epidemia.

Epidemia escancara ignorância política

Dois elementos agravadores da crise sanitária foram recorrentes nas respostas dos (as) entrevistados (as): o fosso entre a política brasileira e a realidade do Brasil e a falta de educação política da população.

Para a jurista Mariana Araújo, existe uma falta de interesse da população brasileira, que acaba “diminuindo” tudo o que é política. “Eu li há dez minutos no Whatsapp mensagens de conhecidos meus dizendo que não queriam discutir política mas sim saúde, como se ambos não estivessem ligados”, afirmou.

“O Brasil tem dificuldade de fazer esse link (porque) a educação em política é muito precária”, acrescentou ela, que disse ainda estar “cansada de discutir questões mínimas, básicas e claras”, como por exemplo que “não se coloca presos em containers ou que diante de uma epidemia não podemos escolher de acordo com a conta bancária.”

A tradutora Myrna disse se incomodada com “o debate político raivoso” no Brasil, implementado, segundo ela, pelo ex-presidente Lula e pelo PT em 2002 quando eles dividiram a sociedade entre “pobres x ricos”.

“Eu conheci o Brasil antes dessa divisão, quando se debatia política sem se ter raiva uns dos outros. Mas o Lula foi implantando essa divisão, o tempo foi passando e isso foi se arraigando e se radicalizando, sem ser percebido. E temos o que temos hoje.”

Para a administradora Marina, na Inglaterra, a política é sinônimo de enriquecimento privado, por isso o interesse dos políticos de estarem lá, enquanto o país, de 270 milhões de habitantes, tem pessoas sem saneamento básico e que passam fome, além do fato de pagar impostos e não receber retorno.

Recados e propostas a Bolsonaro

“Se você tivesse quinze minutos de reunião com o presidente da República, o que você falaria e/ou proporia para ele?”, questionou a reportagem a todos (as) os (as) entrevistados (as).

“Eu não ia ter nem tempo para propor, eu ia esculachar: “Cadê a sua humanidade? Você foi uma das maiores decepções. Nós confiamos em você para gerenciar o país e você o está traindo”, respondeu Marina Carnelós, na Inglaterra, que votou em Jair Bolsonaro e hoje se arrependeu.

Da Austrália, Victor Olivieri gostaria de propor um plano de ação a Bolsonaro: “Gostaria de propor ao Bolsonaro que começasse agindo seriamente, como um presidente diante de uma crise. Seria interessante pegar o exemplo da gestão feita por outros países e adequar às nossas necessidades. Criar um plano de ação contra a pandemia, e parar de negar os fatos e não continuar polarizando a sociedade.”

Mariana Araújo, de Barcelona: “ Eu tinha muita vontade de encontrar com ele, porque eu tenho curiosidade de saber o que acontece na cabeça dele. Mas eu acho que não adiantaria falar com uma pessoa que só faz as coisas do seu jeito. Mas eu acho que eu ia dar uma de jornalista chata.”

Da Suíça, Myrna disse: “ Eu acho que eu nem ia gostar de ver ele. Eu ia preferir não ir porque não é coisa que a gente possa falar que vai entrar na cabeça (do presidente).”

Guilherme Tigan, em San Diego, também disse não preferir se encontrar com o presidente. “Acredito que não tenho estômago para dividir o mesmo ambiente com um cara desse por cinco minutos, quem dirá 15.”

Suedem, também na Suíça, diria ao presidente para manter o foco : “Foco nas nossas fortalezas, evite discussões desnecessárias, não brinque com temas criticos e haja como líder de uma das maiores e mais importantes nações do mundo.”

Marina Sugrue, nos EUA, pediria para Bolsonaro ser “ mais humano, (porque) os número de casos e mortes tem nome sobrenome e endereço assim como seus eleitores em 2018.”


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1 COMENTÁRIO

  1. Esses brasileiros, que agora se dizem arrependidos, deveriam ter pensado antes de votar. Como esperar humanidade de uma pessoa que tem um torturador como seu ídolo? A senhora citada que teme pelos seus pais, sabia a quem estava dando o seu voto. O atual presidente nunca escondeu quem é, o que pensa e como age. A crise sanitária e economica deflagrada pelo virus corona só expoe com toda clareza a consequência dos votos.

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