Debate lembra instabilidade e o drama de 20 anos de conflito armado no Congo

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Evento busca chamar a atenção sobre a situação do Congo, pouco divulgada no noticiário internacional. Crédito: Divulgação

Evento foi parte das celebrações pelos 56 anos de independência do Congo e tenta chamar a atenção para o que acontece no país atualmente

Por Gláucia Quenia e Christ Kamanda
Foto: Divulgação

A sala Galeria Olido no centro da cidade de São Paulo, no último dia 30 de junho, recebeu a grande conferência “O conflito armado da RD Congo no espaço geopolítico do mundo: imperialismo capitalista e guerra econômica”. A Infos-Migrant BR foi organizadora desse evento.

As atividades foram marcadas por palestras de especialistas na Geografia, História Política e pesquisador de Geopolítica para explicar aos participantes todo o contexto que envolve essa guerra que toma conta do leste congolês há duas décadas. Os minérios encontrados no Congo são extraídos em prol de grandes marcas mundiais de forma desumana em razão dessa riqueza natural cobiçada pelos países vizinhos na região do leste.

A data foi escolhida propositadamente para marcar dois momentos importantes para o Congo: a conquista da independência da Bélgica, ocorrida exatamente em 30 de junho de 1960; e com a finalidade de sensibilizar a comunidade internacional para denunciar a barbárie e exploração que acontecem no Congo há 20 anos e a mídia internacional ignora.

As palestras foram organizadas com assuntos sequenciais. Foram convidados para compor esse processo de conscientização o professor Luis Antônio Bittar Venturi, do Departamento de Geografia da FFLCH – USP; Pitchou Luambo, advogado congolês e mestrando em Relações Internacionais pela FESPSP e Christ Kamanda, jornalista congolês e pesquisador em geopolítica.

Evento teve objetivo de sensibilizar sobre a situação vivida pelo Congo. Crédito: Divulgação
Evento foi parte das celebrações pelos 56 anos de independência do Congo, segundo maior país da África em extensão.
Crédito: Divulgação

Com o tema “O Congo e seus recursos naturais”, o professor Luis Venturi explicou de forma minuciosa sobre a diversidade no país: localização, área e países fronteiriços; aspectos físicos e os recursos naturais; aspectos sociais: cidades, população e economia; o paradoxo congolês (com uma população em crescimento, cerca 77 milhões de habitantes e mais de 250 etnias). O Congo é o segundo maior país africano, é um dos mais ricos do mundo em recursos naturais e segundo país de maior biodiversidade do mundo.

O professor ainda apresentou as riquezas que possui a República Democrática do Congo. Além de importantes reservas de cobre, ouro, ferro, urânio e zinco. O Congo é maior produtor mundial de coltan – mistura de dois minerais (columbita-tantalita), que formam um tipo de liga natural de alta resistência térmica, eletromagnética e corrosiva, o que o torna fundamental para a indústria eletroeletrônica, em alta demanda no mundo atual. A RDC posse mais de 80% de reservas mundiais do “Coltan”. Toda a região do país e da zona de conflito mostra o quanto o Congo tem de riqueza natural e por que desperta o interesse daqueles que exploram esses recursos da maneira mais agressiva.

Em seguida, a fala do congolês Pitchou Luambo trouxe o tema “História política e conflito armado”. Ele retratou toda a história para que o país conquistasse sua independência até o conflito que toma conta do leste há 20 anos. Segundo Pitchou, a violência e exploração de Leopoldo II, rei da Bélgica, no Congo começaram quando ele tomou posse do país na Conferência de Berlim (1885). A borracha e o marfim eram as principais fontes de enriquecimento do rei. Porém, todo o trabalho era feito com mão de obra escrava. Dos seus atos desumanos, a mutilação era uma das punições que aplicava.

Na época, esses crimes cometidos pelo rei belga chamou a atenção da opinião mundial acarretando numa denúncia que fez a Bélgica se sentir pressionada. Por motivos políticos, desde a tomada de posse por Leopoldo II, o país teve como nome: Estado Livre do Congo (1885), Congo Belga (1908) e, até a conquista da independência, República Democrática do Congo-Kinshasa em 1960. Entre os nomes que lutaram pela independência está Patrice Lumumba, considerado um herói nacional. Entre 1971 até 1997, o ditador nacionalista Mobutu Sese Seko trocou o nome do país para Zaire.

A Guerra do Congo iniciou em 1996. O objetivo era derrubar Mobutu Sese Seko, que foi apoiado pelos EUA na Guerra Fria. Ela tem ligação com o genocídio em Ruanda, em 1994, quando os hutus massacraram 800 mil tutsis. A desestabilização no Leste do Ex-Zaire (RDC) aconteceu após o genocídio de Ruanda, quando Mobutu abriu um corredor humanitário e os perpetradores do genocídio fugiram para o Congo; os tutsis estavam planejando vingança. Em seguida, as tropas do presidente de Ruanda, Paul Kagame, entraram no Congo, derrubaram Mobutu e colocaram no poder Laurent Kabila e se dedicaram à aniquilação de seus assassinos em 2001.

Para finalizar as palestras, o também congolês Christ Kamanda levou o tema “Geopolítica, imperialismo capitalista e guerra econômica”. O jornalista analisou os papéis dos atores da guerra e a influência dos fatores geoestratégicos, além de dados estatísticos. Como, as “matérias primas” são indispensáveis para a sobrevivência das potências econômicas mundiais. São objetos de cobiça das potências, que são totalmente dependentes porque algumas delas não possuem em seus territórios essas riquezas. Na lista dessas potências estão os países europeus, o Japão e os EUA.

Essa é uma guerra geoestratégica da exploração dos recursos naturais pelas grandes potências ocidentais por meio das empresas multinacionais que alimentam o conflito, afirmou Christ. O relatório da ONG Anistia Internacional sugere que a Apple contribui para a guerra com a compra de coltan no Congo, – ao mesmo tempo, o comércio ilegal desses minerais financia as milícias. Eles são contrabandeados para países vizinhos. Mesmo o governo da República Democrática do Congo faz parte da cúpula responsável pela continuidade dos crimes cometidos no país. Segundo o relatório das Nações Unidas, os responsáveis militares e civis do Congo também estão envolvidos no comércio ilegal das armas.

São quase vinte anos de guerra, com a participação de milícias e grupos rebeldes de países vizinhos do Leste da República Democrática do Congo. É a maior e mais sangrenta guerra desde a Segunda Guerra Mundial. As mídias ocidentais enganam-se sobre o número dos mortos nesse conflito. Christ Kamanda afirma que são cerca de 20 milhões de mortos e desaparecidos desde 1996. Os crimes cometidos por guerrilheiros são estupros, trabalho infantil e mortes extremamente trágicas. Apesar de ser a maior e mais cara missão desde a criação da ONU, infelizmente, após 16 anos que ela está no Congo, a Monusco (missão da ONU no Congo) não consiga acabar com a guerra; e o número de mortos acrescenta todos os dias.

No final das palestras, os participantes deram seus pontos de vista sobre a guerra no Congo e reafirmaram a necessidade de trabalhar para sensibilizar a opinião mundial e denunciar as atrocidades contra os congoleses que vivem naquela região.

Outras ações são programadas para mobilizar a comunidade internacional e entender sobre o drama escondido da guerra do Congo.

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