Diversidade e trocas marcam IX Fórum de Migrações no Rio de Janeiro

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Coletivos e experiências práticas se misturaram a trabalhos acadêmicos no IX Fórum de Migrações. Na foto, faixa da Frente de Mulheres Imigrantes e Refugiadas. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Evento aconteceu na UFRJ, ao mesmo tempo que o V Simpósio de Pesquisas sobre Migrações, e serve como ponto de encontro entre diferentes conhecimentos sobre a temática migratória

Por Rodrigo Borges Delfim
No Rio de Janeiro (RJ)

Entre os dias 16 e 20 de outubro a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) reuniu pesquisadores, militantes e coletivos ligados às migrações no IX Fórum de Migrações/Migratic 2017 e no V Simpósio de Pesquisas Sobre Migrações. Uma média de 60 pessoas por dia acompanhou os debates, que se estendiam das 8h30 às 20h.

Para este ano o tema escolhido foi “Interculturalidade, comunicação e migrações transnacionais: fronteiras, políticas e cidadania”, abordado ao longo da programação tanto do Fórum (por cerca de 40 conferencistas de diferentes países) como do Simpósio (foram 83 trabalhos apresentados, entre pesquisas ainda em aberto e recém-concluídas, contra 60 da edição anterior). Essa edição foi resultado da articulação de uma rede de pesquisadores do Brasil e de outros países da América Latina, América do Norte, Europa e África (veja mais abaixo).

Primeira mesa de debates do IX Fórum de Migrações teve auditório lotado para acompanhar as discussões.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Os migrantes tiveram participação decisiva no Fórum, tanto como integrantes da equipe de apoio como nas mesas de debates e na feira gastronômica Chega Junto, que a cada dia trazia diferentes opções de refeições e petiscos preparados por migrantes e refugiados residentes no Rio. Além disso, os migrantes foram responsáveis pela mesa de encerramento, na sexta-feira (20), formada por representantes de coletivos do Rio e de São Paulo – saiba mais aqui.

“O Fórum e o Simpósio superaram a minha expectativa e dos demais organizadores. Não tivemos grandes contratempos que impediram o andamento do evento, com 40 palestrantes e 83 simposistas, mas o sucesso vai além do quantitativo. As mesas foram extremamente ricas, diversas e profundas em termos de pesquisa, teoria, metodologia, e principalmente acho que o grande ganho do Fórum foi que conseguimos colocar na mesma mesa várias perspectivas, de diferentes escolas, de diferentes países. Sempre tentamos ter essa dupla diversidade, não apenas teórica, mas também das origens, dos que contribuem com o encontro”, aponta o professor de comunicação da UFRJ Mohammed ElHajji, marroquino de nascimento e radicado no Brasil, ao fazer um balanço do evento – do qual é idealizador e coordenador-geral.

Diversidade e interculturalidade

A diversidade e interculturalidade citadas por ElHajji ficaram bem claras na composição das mesas do Fórum e do Simpósio, organizadas por eixos que ajudavam a mesclar diferentes perspectivas – históricas e contemporâneas, abordagens teóricas e práticas, contextos e realidades locais e em âmbito global.

A relação entre migrações e gênero esteve em pelo menos três debates ao longo da semana; outras três mesas trataram diretamente da abordagem das migrações por parte da mídia e de como os migrantes se utilizam das novas tecnologias para se comunicarem e comunicarem suas próprias narrativas; mais três mesas concentraram discussões sobre refúgio e migrações forçadas; também tiveram espaço de destaque os debates em torno de participação política, representação cultural, cidadania universal, identidades, saúde, entre outras. O Fórum e o Simpósio também foi uma oportunidade para conhecer um pouco da cena migratória fora do Brasil, a partir de relatos e pesquisas de participantes de outros países.

A diversidade buscada pelo Fórum foi apontada pelos participantes como um dos seus destaques. “O evento foi maravilhoso. A troca interdisciplinar foi fantástica, nota 10 do começo ao fim”, afirmou Eric Júnior Costa, da Universidade Aberta de Portugal, que apresentou um trabalho sobre o português como língua de acolhimento.

“Quando estamos trabalhando com migrações, nem sempre ficamos sabendo que há psicólogos, filósofos e pessoas de disciplinas diferentes também abordando o tema. Assim, por meio dos eixos, diferentes grupos podem conversar entre si, o que faz deste Fórum um espaço único na temática da migração”, opina Samantha Serrano, nascida nos Estados Unidos e doutoranda em saúde coletiva pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ela é também integrante da Equipe de Base Warmis – Convergência das Culturas, importante coletivo de mulheres migrantes na capital paulista e que também integrou a mesa de encerramento do Fórum.

Coletivos e experiências práticas se misturaram a trabalhos acadêmicos no IX Fórum de Migrações. Na foto, faixa da Frente de Mulheres Imigrantes e Refugiadas.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

O psicólogo Filipe Galindo, doutorando pela Universidade de Toulouse (França) também elogiou a presença de pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento no evento, mas ligados entre si pela pesquisa e atuação em relação às migrações. “Achei a programação muito rica e diversificada. Antes de chegar aqui achei que ficaria um pouco como “peixe fora d’água pelo fato de eu ser psicólogo, mas achei maravilhoso ver trabalhos de várias áreas, tanto acadêmicos como não acadêmicos”.

Entre as sugestões dos participantes para as próximas edições do Fórum estão: um programa de hospedagem solidária para atender os que são de fora do Rio de Janeiro; a realização de mesas simultâneas, que permitiriam um maior número de atividades em um tempo menor; e também um intervalo maior entre os debates – havia uma pausa de apenas 30 minutos entre os debates do Fórum e as apresentações do Simpósio.

Projeção internacional

O Fórum e o Simpósio, organizados anualmente na UFRJ, desta vez assumiram um caráter mais internacional. O evento englobou também a edição de 2017 do Migratic, promovido pela Universidade de Clermont-Ferrand (França). Combinação essa que foi possível graças a uma articulação informal de professores de diferentes instituições da América Latina, América do Norte, Europa e África.

“O desejo é de termos, em um primeiro momento, a criação de uma rede internacional de pesquisadores da questão migratória, da mobilidade humana e da interculturalidade; e em um segundo momento, possibilitar a circulação do evento entre vários países. Seria uma maneira de ter uma presença efetiva em cada um dos parceiros do evento”, comenta ElHajji, que é integrante dessa rede.

Os planos de ampliação da internacionalização do evento, segundo o professor, também incluem o Simpósio. “A ideia é fazer, ano a ano, um mapeamento dos diferentes tipos de pesquisa sobre migrações em curso no Brasil e também no exterior. Cada ano temos participantes de outros países no Simpósio, além do Brasil. Ele tem a importância de atualizar, o tempo todo, o ‘estado de arte’ das pesquisas sobre migrações”.

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