Comunicadores migrantes apontam necessidade de investimento em mídias independentes

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Telefone celular, câmera e microfone são as ferramentas de Antonio na rua para suas pautas. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Tanto para temas locais como globais, a comunicação é capaz de mobilizar e informar. MigraMundo começa a trazer mídias migrantes que utilizam essa ferramenta para lutar por direitos; conheça algumas delas

Por Géssica Brandino e Rodrigo Borges Delfim
Colaboração de Debora Draghi
Em São Paulo (SP) e Curitiba (PR)

Nove horas da manhã e o boliviano Antonio Andrade já tem três pautas para tocar ao longo do dia. Na noite anterior, não conseguiu pregar os olhos porque, além de responder pela produção dos sites Planeta América Latina e Bolívia Cultural, também desenvolve marcas e campanhas publicitárias para clientes. É dessa atividade que ganha dinheiro para pagar as contas e manter a família no Brasil, enquanto os portais não trazem retorno financeiro.

Assim como o conterrâneo, Jobana Moya também trabalha em casa fazendo mailings e cuidando de páginas na web enquanto divide o tempo com as atividades como ativista da Equipe de Base Warmis, os cuidados com os dois filhos e os afazeres domésticos. A rotina é cansativa, mas Jobana sabe que o esforço é válido.

“Quando você acredita numa causa, nada é mais importante. Para mim, viver aqui no Brasil tem sentido porque sou ativista e estou na Warmis. Com o passar do tempo, aquilo que temos feito nos fortalece mais. Além disso, construímos um grupo que é uma família, que nos protege e fortalece. Elas te acompanham, te querem, choram com você. Você não está sozinha. Warmis é uma família”, reforça.

Antonio e Jobana produzem comunicação ativista. Em seus canais, lutam contra o preconceito, pela valorização da cultura e da identidade migrante e chamam atenção para as questões de gênero. O público alvo são migrantes que vivem no país, especialmente em São Paulo, mas o alcance vai além. A estimativa de Antonio é que a marca Bolívia Cultural alcance cerca de 3 milhões de pessoas ao dia por meio de campanhas, fotos, posts no Facebook, programa de rádios, postagens no site e vídeos no YouTube, chegando a cidades como Miami, La Paz e Buenos Aires. Criado em 2013, o site da Warmis já recebeu mais de 23 mil visitas e a página no Facebook se aproxima das 4 mil curtidas sem a compra de anúncios.

Trajetória

Migrantes em São Paulo, os dois têm trajetórias diferentes. Antonio chegou em 1994 para estudar publicidade e propaganda na Escola Pan-Americana de Artes e ingressou ainda estagiário numa empresa multimídia. Passou a trabalhar com publicitários e jovens empreendedores do Vale do Silício e a carreira ia bem, quando se deu conta de que havia perdido a identidade. “Eu olhava os bolivianos na rua, dizia oi e as pessoas não me cumprimentavam”, lembra.

A reviravolta veio em 1995, quando a barragem de uma represa se rompeu em La Paz e várias pessoas morreram. Antonio leu os jornais para buscar notícias sobre a família e decidiu deixar uma cópia impressa para que outros bolivianos tivessem acesso à informação, mas as pessoas liam e levavam o papel para casa. Ele decidiu imprimir a informação num jornal, mas a tiragem não foi suficiente e foi então que decidiu fazer algo online. Criou o “Planet Bolívia” para disponibilizar informações sobre mortos e desaparecidos, mas sem pensar num projeto maior. Os colegas lhe diziam que Bolívia não era um tema que venderia.

Antonio amadureceu a ideia e no ano seguinte criou o site Planeta América Latina. Naquela época não tinha programador, por isso desenvolveu a página em html a partir do editor de textos Word. Mesmo sem o nome Bolívia, o conteúdo sobre o país era predominante na página.

Decidido a investir no projeto, buscou orientação de publicitários da Agência África e passou a se dedicar ao site e à busca de formadores de opinião que dessem chancela ao projeto. Shakira e Maná foram alguns dos nomes que integraram a lista dos apoiadores do projeto. Com Evo Morales no poder, a Bolívia adquiria novo status e, em 2009, Antonio cria o portal de notícias Bolívia Cultural, que se consolida como fonte de informações para brasileiros e migrantes. Com uma câmara simples para fotos, um telefone celular para filmar e um microfone, ele capta a maior parte do material usado para alimentar o Bolívia Cultural e também o Planeta América Latina.

Telefone celular, câmera e microfone são as ferramentas de Antonio na rua para suas pautas.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Já a web designer boliviana Jobana Moya se mudou para São Paulo em 2007, depois de se casar com um brasileiro. Passou a acompanhar as atividades da comunidade boliviana na cidade e em 2010, após dar a luz, passou a ter muito contato com o tema da violência obstétrica. Soube por uma amiga que as mulheres migrantes sofriam muita discriminação e resolveu formar um grupo para conscientizar sobre o tema e sobre acesso a direitos na praça Kantuta, espaço de encontro da comunidade boliviana na zona norte de São Paulo. Assim foi criado o coletivo Warmis – que significa Mulheres em quéchua – em julho de 2013.

Ao ser entrevistada pela pesquisadora e professora Denise Cogo, Jobana se deu conta de que não tinha criado um canal para registrar as atividades do coletivo. Assim, criou um blog na plataforma wordpress para documentar as atividades. No final daquele ano, com a chegada de uma nova integrante, a chilena Andrea Carabante, as integrantes decidem adotar os princípios do movimento humanista, nascido na Argentina, lutando contra a discriminação com a metodologia da não-violência ativa. O coletivo passa a se chamar Equipe de Base Warmis Convergência das Culturas e passou a ser aberto a mulheres de todas as nacionalidades e ter um site oficial. Hoje conta com integrantes de países como Chile, Bolívia, Peru, Colômbia e Estados Unidos, além de brasileiras filhas de imigrantes.

Atualmente, 24 mulheres integram o coletivo, que realiza palestras de conscientização e também desenvolve o projeto Lakitas Sinchi Warmis, grupo de música andina que busca resgatar a cultura por meio de canções tradicionais, contemplado duas vezes pelo edital VAI, da Prefeitura de São Paulo, que cobre despesas com transporte para as apresentações. Para realizar reuniões, elas pagam um aluguel simbólico de uma sala do escritório do movimento humanista na cidade.

Para Jobana, pensar na comunicação é essencial para que a luta dos migrantes não fique invisibilizada, além de permitir o debate e a desconstrução de estereótipos sobre os migrantes. “Acreditamos que os imigrantes e ativistas devem colocar na mídia suas pautas porque é importante ter outras vozes, olhares sobre os mesmos temas, para assim ter uma diversidade que permita ter senso critico”.

Lakitas Sinchi Warmis durante a 11ª Marcha dos Imigrantes, em São Paulo.
Crédito: Géssica Brandino

Desafios

A ativista vê a profissionalização como o principal desafio para conseguir realizar uma comunicação eficaz, por meio da criação de conteúdos multimídia que cheguem ao público migrante. Para Antonio, o principal desafio é financeiro, uma vez que a falta de recursos impede a contratação de mais profissionais para a equipe e o investimento na estrutura de trabalho. Hoje, muito do trabalho conta com uma dose de improviso e quando precisa atender os clientes, Antônio não consegue produzir conteúdo para o canal.

Em 2013, criou a ONG Instituto Planeta América Latina para conseguir captar recursos. Já foi contemplado em editais do governo e empresas, mas evita patrocinadores da própria comunidade para não perder a autonomia editorial. Outra fonte de renda são as palestras que realiza para diversos públicos: crianças, professores e autoridades. Neste mês chegou à marca de cem apresentações. A primeira foi há 18 anos, na escola das filhas.

Além de comunicar, Antonio também está envolvido na busca de soluções para os problemas vivenciados na comunidade. Ali, desliga o microfone e ajuda a construir propostas em busca da efetivação de direitos. Foi assim que sugeriu a realização da primeira Assembleia da comunidade boliviana, realizada em outubro, que chegou a conclusão sobre a necessidade de criar uma Federação Boliviana na cidade, colocando as pautas e reivindicações dos migrantes diretamente. Como comunicador, Antonio sabe que falta identificação com as instituições que realizam o atendimento.

“O imigrante não se sente identificado com as ONGs e muito menos com o governo. O imigrante tem um único espaço interlocutor, que são nossos meios de comunicação”, reforça, chamando atenção para a necessidade de preparar melhor os meios para dar conta de uma tarefa que vai muito além de informar.

O comunicador boliviano Antonio Andrade durante pauta para o portal Bolívia Cultural.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Comunicação, cidadania e história

As vivências de Antonio e Jobana, semelhantes a de migrantes de outras nacionalidades que atuam com comunicação, são reforçadas pela professora Denise Cogo, titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). Ela também ressalta que iniciativas como a Warmis e o Bolívia Cultural/Planeta América Latina ajudam a romper com uma construção estereotipada que o migrante costuma receber nos grandes meios de comunicação.

“Há a possibilidade dos migrantes também terem nas mãos as mídias para poderem falar sobre suas experiências migratórias, para produzir representações sobre si e os coletivos migratórios, reivindicar por cidadania e até fazer uso dessa mídia para seus processos culturais e de entretenimento”.

Denise é também organizadora do projeto Mídias Imigrantes de São Paulo, uma plataforma lançada em 2016 fruto de uma parceria entre a ESPM, o Museu da Imigração e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Ela conta com pelo menos 119 mídias criadas por migrantes ou dedicadas à temática das migrações, entre sites, blogs, documentários e até mesmo páginas no Facebook – uma variedade que, muitas vezes, acaba invisibilizada, assim como parte da história cotidiana dessas comunidades.

“Essas mídias também nos mostram a grande capacidade de criação e produção em termos de comunicação digital, de estéticas de linguagem, relacionadas a realidade migratória. O quanto esses migrantes tem capacidades de produzir muito bem algumas mídias, se mobilizarem para a produção mesmo sem recursos, de modo até artesanal e também de manter e qualificar o projeto, pois eles começam pequenos e vão buscando recursos e alternativas para aprimorar os projetos de mídias e também mantê-los e atualizá-los o tempo inteiro, pensando que eles precisam falar com muitos públicos sobre sua condição migratória”, aponta a pesquisadora.

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