Em desconfinamento, França vive ‘estranha’ realidade pós-coronavírus

Mesmo tendo a liberdade como regra, não é sem hesitação, tristeza e luto que as pessoas se reencontram na cidade francesa na retomada pós-confinamento

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Família caminha por um dos parques de Estrasburgo (França) nos primeiros dias de desconfinamento. (Foto: Victória Brotto/MigraMundo)

Por Victória Brotto
Estrasburgo (França)

Cara leitora, caro leitor,

no momento em que eu vos escrevo, portas de carros batem, vozes mais ou menos entusiasmadas se erguem sobre a minha janela, caminhonetes de entrega passam apressadas pelas ruas; bicicletas, cachorros, gentes, pássaros — todos formando, novamente, um único som. Tudo isso em uma cidade que durante dois meses fora perpassada por um silêncio quase absoluto.

A cidade francesa de Estrasburgo, assim como metade da Europa e grande parte dos governos no mundo, confinou a sua população para evitar um alastramento ainda maior do novo coronavírus. Entre os meses de março e maio deste ano, um terço do planeta Terra estava confinado, algo acima de 3 bilhões de pessoas. E com a cidade francesa, que abriga uma das sedes da União Europeia, não foi diferente.

Na França, o confinamento começou no dia 17 de março e foi gradualmente desfeito a partir do dia 11 de maio, com abertura de creches e escolas primárias e a suspensão da obrigatoriedade de atestações para sair de casa, além de permissão de aglomerações de até dez pessoas. A França tornava-se assim o quinto país na Europa a desconfinar a sua população, atrás de Portugal, Suíça, Espanha e Alemanha.

Três semanas depois, no dia 29 de maio, o governo francês anunciou a segunda fase do desconfinamento para acontecer a partir do dia 2 de junho até o dia 22 de junho, quando o governo prevê ativar a terceira fase do processo.

Sede do Parlamento Europeu, em Estrasburgo
(Foto: Victória Brotto/MigraMundo)

A 2ª fase significa o fim da barreira de 100 km de deslocamento, a reabertura de parques, restaurantes, bares e lugares de culto sob a condição de se respeitar os chamados “gestes barrières” ( em português, gestos-barreira), ou seja, lavar regularmente as mãos, usar máscaras nas ruas, especialmente no transporte público e em estabelecimentos comerciais e manter ao menos um metro de distância uns dos outros.

Na cidade francesa de Estrasburgo, esta segunda fase calhou com a primavera estalando do lado de fora das janelas. Convites para novos (re)encontros iam assim pipocando no celular, onde antes residiam mensagens de amigos e parentes confinados (próximos ou há milhas oceânicas distantes) desejosos por notícias ou portadores de uma palavra de encorajamento.

Agora, os parques e florestas, antes desertos, acolhem amigos, parentes, pais e/ou figuras solitárias à procura do Sol imenso e quente que se estende pelo gramado devidamente aparado. Durante o confinamento, a grama dos parques crescia sem limites, uma mistura de falta de quem as aparasse com uma política local de tornar as áreas verdes pouco atraentes.

Casal de idosos passeia pelo parque em primeiro dia de reabertura de áreas verdes na França. (Foto: VB/MigraMundo)

Porém agora o clima é outro: as ordens administrativas são pela liberdade, pelo abrir de portas em uma Europa que se desconfina: “a liberdade é a regra, e a interdição, exceção”, afirmara, em tom triunfal, o primeiro ministro Edouard Philippe ( sobre o qual falaremos mais para frente) durante o anúncio da segunda etapa do desconfinamento.

Ou como diz o versículo bíblico do livro de Eclesiastes (capítulo 3, verso cinco): “Há tempo para tudo debaixo do céu, tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar.” Seria assim tempo de abraçar, ou melhor, de reaproximações prudentes, que não ultrapassem um metro de distância.

Nos pontos de ônibus e nas calçadas já se vê propagandas anunciando que sim “agora está na hora de você passear para além das prateleiras de massas”, como é o caso da feita por uma rede de supermercados vendendo saladas e frios para um pique-nique.

Supermercado faz propaganda dizendo que “agora é hora de passear além do setor de massas” na 2a fase do desconfinamento na França. (Foto: VB/MigraMundo)

Durante o confinamento, a disparição dos pacotes de macarrão virou piada (e assombro) nas redes sociais, onde as pessoas mostravam as prateleiras praticamente dizimadas.

Em uma releitura do quadro modernista do francês René Magritte “Isto não é um cachimbo”, um outdoor da prefeitura próximo a um dos principais parques de Estrasburgo estampava a imagem de uma bicicleta: “Isto é um gesto-barreira”. A bicicleta foi o meio de locomoção mais incentivado pelo governo para ser usado na ida ao trabalho.

No começo de maio o governo francês criou um pacote de 20 milhões de euros para consertos de bicicletas. Desde o fim de maio, cada cidadã(o) tem o direito de gastar 50 euros até o mês de setembro deste ano.

Para participar, é preciso consultar a lista das lojas locais credenciadas no programa “Coup de pouce vélo” ( em português algo como “Uma empurradinha na bicicleta”), marcar um horário e enfrentar uma fila de pelo menos 20 minutos nos primeiros horários da manhã.

“Vocês estão consertando bicicleta pelo programa do governo?”, perguntou um passante com uma bicicleta de criança quebrada nas mãos enquanto a reportagem esperava na fila da bicicletaria. “Sim, mas olha é preciso vir às 9h, mesmo antes, porque a demanda é grande”, disse o bicicleteiro, que abria, com dificuldade, às 10h a sua loja. Para chegar à porta, ele precisou driblar três ou quatro da fila para poder estacionar a sua própria bicicleta e abrir o estabelecimento.

“Isso é um gesto-barreira; vá ao trabalho de bicicleta”, pede a propaganda da prefeitura de Estrasburgo. (Foto: Victória Brotto/MigraMundo)

Em Estraburgo o uso da bicicleta já era amplamente adotado pela população muito antes do desconfinamento. A cidade francesa disputa com a alemã Freiburg o posto de segunda na Europa com o maior número de bicicleta por habitante — a capital da Holanda, Amsterdã, lidera a lista.

Porém, mesmo tendo a liberdade como regra,  não é sem hesitação, tristeza e luto que as pessoas se reencontram por aqui; hesitação porque o desconfinamento na região do Grande Leste foi feito sob maior rigor afim de poupar os hospitais, que só não colapsaram graças a uma cooperação inédita entre Alemanha e França em uma operação de evacuação de doentes para cidades alemãs próximas.

Até o dia 29 de maio, foram 5167 mortes por Covid-19 na região, segundo a agência francesa de saúde . Isso porque no fim de fevereiro uma aglomeração religiosa de cinco mil pessoas terminou em 400 pessoas contaminadas, alastrando a epidemia pela região antes do confinamento ser decretado.

Assim, devido ao alto número de mortes, não é raro, pois, que um de seus amigos ou parentes – ou até mesmo você – tenha alguém querido que faleceu. Encontrar alguém conhecido na rua pode conduzir a conversas menos alegres do que o previsto.

Nas primeiras semanas de maio, os encontros no centro das cidades da região, incluindo Estrasburgo, deveriam ser feitos sob o uso de máscara, que fora decretado obrigatório pela governadora.

A prefeitura de Estrasburgo, por exemplo, fez um acordo comercial com os correios para distribuição gratuita de máscaras à população; cada habitante receberia em sua caixa de correio uma máscara de tecido lavável.

Estátua na frente da Universidade de Estrasburgo é vista com máscara nos primeiros dias de desconfinamento. (Foto: VB/MigraMundo)

Atualmente, o uso da máscara foi flexibilizado e não é mais obrigátorio nas ruas, apenas nos transportes públicos e comércios. O que por uma lado traz uma certa leveza para a nova vida que se anuncia, ao mesmo tempo traz o risco de que esqueçamos da tragédia humana que o coronavírus causou a nível nacional e mundial.

Até o dia 2 de junho foram ao menos 377.213 mortes desde a sua aparição na China, em novembro de 2019, segundo a agência de notícias francesa France Presse, que se baseou em documentos oficiais.  Mais de 6.320.480 de casos de infecção foram oficialmente diagnosticados em 196 países e territórios desde o começo da pandemia. Das pessoas curadas do vírus, foram 2.662.300.

Segundo os dados oficiais, os países mais impactados pelo Covid-19 em termos de morte foram oss Estados Unidos com 106.180 mortes (para 1.831.435 casos), o Reino Unido com 39.369 mortos (para 277985 casos), a Itália com 33.530 mortos (com 233 515 casos), o Brasil com 31 199 mortos (com 555. 383 casos) e a França com  28.940 morts (para 188 322 casos).

Diante do inédito fluxo de pacientes, os profissionais da Saúde na França, que há anos já vinham exigindo investimentos no setor, se iraram ainda mais contra o governo.  Em 2019, uma médica interpelou o presidente Emmanuel Macron exigindo o aumento de salários e melhorias nos hospitais, Macron a respondeu dizendo que o governo não tinha “dinheiro mágico”.

Com o coronavírus, no entanto, o presidente da República  anunciou um prêmio de 2 mil euros para todos os profissionais da Saúde, além de um aumento real de salários e investimentos nos hospitais. A imprensa não deixou barato: “Tería-se achado o dinheiro mágico?”, escreveu o jornal Le Monde no dia seguinte.

Centro de canoagem no bairro do Parlamento europeu recebe seus primeiros clientes depois do confinamento. (Foto: VB/Migramundo)

Muitas foram as críticas que se seguiram: falta de precisão sobre como deveria se dar, na prática, a abertura de colégios e creches, além do polêmico uso de máscara. No início do confinamento, o governo pediu para a população não usar máscara, afirmando que ela não era eficaz em pessoas saudáveis, deixando assim o seu uso (obrigatório) apenas para os doentes e profissionais de Saúde. O país vivia uma penúria de equipamentos, inclusive de máscara, e a declaração do governo foi vista como uma manobra; O palácio do Eliseu sofria assim a sua primeira retaliação, de muitas outras que viriam.

No dia 27 de março, a renomada revista científica  Science publicou uma entrevista exclusiva com George Gao, diretor- geral do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças. Gao tanto quanto altamente renomado no mundo científico é também uma figura altamente resguardada de jornalistas – especialmente ocidentais. A revista demorou dois meses para conseguir a entrevista, onde o cientista com doutorados e pós-doutorados nas universidades de Oxford (bioquímica) e de Harvard (imunologia e virologia), afirmou que a Europa cometia um grande erro ao não tornar obrigatório o uso de máscaras, uma vez que ela se mostrava cientificamente eficaz no combate à propagação do novo coronavírus.

A partir daí, o governo francês mudou de tom, tentou se explicar sobre a declaração e prometeu sua produção em larga escala. Emmanuel Macron chegou a visitar uma fábrica em sinal de compremetimento do Estado em fornecer máscaras aos hospitais, aos doentes e à sociedade no geral (nesta sequência).

A imprensa francesa, porém, não perdoou e bateu duro no governo ( nada que fugisse ao comum em um país onde a crítica às autoridades é a regra, e os elogios, exceção).

“Os jornalistas políticos deveriam saber a complexidade da tomada de decisões que se desenha nesse momento”, alfinetou o primeiro-ministro, ao final de uma árdua coletiva de imprensa no dia 11 de maio quando anunciou o desconfinamento, objeto de apreensões no mundo político, científico, social e econômico, pois o vírus poderia muito bem voltar a circular. “E assim eu serei bem francês”, finalizou ele, na última alfinetada à imprensa.

Durante o confinamento, a comunicação do governo pareceu atabalhoada, as mensagens, como se diz em francês, “iam e vinham de todos os lados”: um dia, era o ministro da Agricultura, Didider Guilherme, que virava alvo de piadas por ter chamado “o exército das sombras” para trabalhar na colheita de morangos e aspargos, em outro dia era a vez da ministra dos Esportes, Roxana Maracineanu falar em realizar o Torneio Francês de Ciclismo “de maneira fechada”.

Depois viriam Jean-Michel Blanquer, ministro da Educação, anunciando uma possível reabertura de escolas no dia 5 de maio ( uma semana antes da primeira fase do desconfinamento), e Sibeth Ndiaye, porta-voz do governo, que cometeu uma gafe ao falar que os professores em teletrabalho “não trabalhavam”, quando a classe aumentava os decibeis contra o governo por não ter preparado o cenário para o ensino à distância, o qual se mostrava um grande desafio de adaptação.

Assim, o primeiro-ministro, Edouard Phillipe, em vídeo-conferência passou um cerão em seus 27 ministros e ministras, dizendo, segundo o jornal Libération , que “era preciso acabar com a palhaçada” de ter “ministros demais falando de maneira calma mas devastadora.”

Resultado? Pesquisas feitas pelos órgãos nacionais do país mostraram que entre 60% e 62% dos franceses se diziam insatisfeitos com a gestão do governo da crise e que não confiavam nele para gerenciar o desconfinamento.

A revista Le Point noticiou que a pandemia chegou até os bastidores do poder “separando o dueto Macron-Philippe”. Segundo a publicação, o presidente Emmanuel Macron, em seu hábito de enviar mensagens de texto na madrugada disparando críticas, não teria poupado o primeiro-ministro. A tensão, segundo a revista, aumentava exponencialmente entre os dois e os rumores era de que Philippe pediria demissão depois do verão.

Em uma coluna no Le Monde, Gérard Courtois, ex-diretor editorial do jornal, escreveria, com um humor implácavel, que a panela de pressão fora inventada pelos franceses, e que não lhe surprendia que Emmanuel Macron estivesse acumulando uma “tenaz rejeição”.

O texto começa: “A França é a pátria dos cozimentos à vapor (…) Regularmente, sob o efeito de temperaturas excessivas ou de experimentações duras, a marmita nacional produz bruscas ebulições políticas ou sociais – e se a tampa estiver mal fechada, pode-se assistir a brutais revoluções.”

Courtois, entre metáforas com o mundo da cozinha e o mundo político, disse que o desconfinamento era algo delicado – que deveria ser tratado “minuciosamente e cuidadosamente” porque apesar do que ministros (as) e presidente falem ou pensem – ou por causa mesmo do que eles falem ou pensem – os franceses não acreditariam em suas palavras.

“É a primeira singularidade nacional”, afirmou para depois tecer as outras singularidades acentuadas durante a pandemia: “desconfiança, ressentimento e cólera” diante do que ele chamou de “mentiras, manobras e descuidos” do governo durante a epidemia, mas também de outros governos precedentes, como o de Sarkozy e Hollande.

O clima na França, segundo Courtois, seria o de “um cemitério de ilusões perdidas”. Porém, Emmanuel Macron falará à nação em julho prometendo “se reinventar”. Macron virá a público também para propor certos pactos à população depois que um vírus supostamente originário de animais selvagens devastou economias (estrangulando inclusive as mais fortes, como a alemã, a norte-americana e a francesa), além de chocar as mais ou menos fragéis estruturas sociais dos países (principalmente os na América Latina, celeiro de uma desigualdade social sufocante).

Entre vizinhos, amigos e parentes, fala-se da invenção de um novo mundo; bandeiras são novamente erguidas, como as da preservação do Meio Ambiente, da luta por uma sociedade mais solidária e justa e da luta contra um capitalismo que se mostra mais selvagem do que os animais vendidos no mercado da cidade chinesa de Wuhan, primeiro epicentro da epidemia.

Um plano de recuperação econômica de 750 bilhões de euros foi anunciado pela Comissão Europeia na última semana afim de recuperar as economias do bloco no cenário pós-Covid-19. Tal ajuda poderá dar um “novo rumo ao bloco”, noticiou a Rádio França Internacional.

É assim, pois, cheia de promessas, pactos, ideais e pacotes bilionários que a Europa vai se desconfinando.  

Ontem pela manhã, uma máscara descartável se estendida pela calçada no centro de Estrasburgo. O vento fresco da primavera a erguia para cima e para baixo, ameaçando levá-la dali, para longe do olhar de todos, para longe da memória.  

“Eu, como um rio, uma época de ferro me desviou // Mudaram-me a vida. // Ela segue outro curso, visto de outras paisagens // E as minhas margens me são desconhecidas”, escreveu a grande poeta russa Anna Akhmatova em 1913 em seu poema Chrysalide, anunciando tempos difíceis em seu país, que afetariam também a Europa daquela época.

Feita de outras águas do que as do início do século XX, a Europa de hoje, assim como Akhmatova, parece ter sido afetada por uma época de ferro.  A questão é saber se as suas margens lhe são também desconhecidas.


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