Especial DF: Apesar de inícios complicados, imigrantes começam a se integrar ao Brasil

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Esta é a quarta e última parte do Especial DF, uma série de reportagens publicadas semanalmente no MigraMundo, escritas pelo jornalista Rodrigo Farhat, sobre os imigrantes e refugiados que estão se fixando na região do Distrito Federal.

Por Rodrigo Farhat – texto e fotos

Na quadra 431 de Samambaia Norte, Salomon Khan, 24, e Uim Kalsoom, 25, vivem situação um pouco melhor do que a de seus compatriotas paquistaneses Nam daud Rana, Muzafar Ashrf e Zeeshan Ahmed.

Leia aqui a primeira reportagem da série Especial DF

O casal Salomon e Uim, que também teve dificuldades para se fixar no Brasil

Apesar disso, o início da migração para o Brasil foi penoso. Estão há quatro anos no país e no primeiro dia em São Paulo tiveram passaportes, dinheiro e malas furtados na rodoviária do Brás.

Uim estava grávida de sete meses e se lembra da dificuldade vivida no novo mundo somente com a roupa do corpo. “Lavávamos de noite para usá-las no dia seguinte.” O casal encontrou abrigo em uma mesquita e, antes de chegar em Samambaia (DF), passou pelo Paraná e Santa Catarina. As duas filhas, Khulud Ashbala, de 2 anos, e Khulud Zarbala, de 11 meses, nasceram no Brasil. Ashbala está matriculada em uma creche da cidade e, neste ano, começou a ampliar sua rede de relações.

A dificuldade maior do casal, assim como a de todos os imigrantes, sejam do Ocidente como do Oriente, foi mesmo o português, já que era – e ainda é – difícil encontrar nas ruas um brasileiro fluente no inglês. Uim fala sete línguas – urdu, pashtu, hindi, punjabi, bengali, inglês e português, e era professora no Paquistão. Ela também entende árabe. Aqui, já entregou o currículo em uma dezenas de lugares, mas ainda nada conseguiu.

No Paraná, o casal foi ajudado por muçulmanos e Salomon conseguiu trabalho como pedreiro, Atuou, ainda, em uma sacaria e foi sangrador aviário, no abate halal. A jurisprudência islâmica permite o consumo de aves e bovinos (a carne suína é proibida), somente se o abate seguir algumas regras: o sangrador muçulmano precisa mencionar o nome de Allah; o animal deve estar voltado para Meca; e um pouco de sangue deve sair naturalmente após a degola.

Hoje, depois de tantos percalços, Salomon Khan mantém a família com a venda de cds em uma banca do comércio de rua de Samambaia.

Saudade e esperança – Na quadra 433, seis bengalis dividem uma casa de dois quartos. Md.Masud Rana, de 22 anos, é um deles.

Masud Rana, 22, de Bangladesh
Masud Rana, 22, de Bangladesh

Está há dois no Brasil. No início, foi auxiliar de cozinha e hoje trabalha em um frigorífico, como sangrador aviário. Assim como ele, Amir Muhammad, de 45 anos, também atuou no abate halal. Chegava a sacrificar 9 mil frangos em quatro horas de trabalho. Depois de dois anos e meio no país, diz que está na hora de retornar, pois está com dores na região lombar e nas pernas em razão do trabalho. Parte do pouco dinheiro que ganhou aqui, Amir mandou para a família, no Paquistão. A mulher e os cinco filhos que Amir deixou por lá estão esperando-o.

A.J., 49 anos, e J.J., 35, chegaram em Brasília há quase dois anos, em 17 de outubro de 2013, em procura de vida mais tranquila. Viviam em Damasco, Síria.

Assim como para os asiáticos e africanos que escolheram o Brasil como o novo mundo, o idioma é um problema. Pelo menos para os pais. As crianças, N., 13, H., 12, e R., 3, já falam português. As duas maiores estão no ensino fundamental em Brasília e a convivência na escola ajuda na socialização.

A decisão de sair da Síria foi tomada em razão dos conflitos étnicos-religiosos no país de origem. J.J. explica que os muçulmanos querem eliminar todos os cristãos como eles. Aqui, frequentam a Igreja São Jorge, no Lago Sul, assistem novelas turcas pela internet e telejornais brasileiros, pela TV. O tempo livre da família também inclui churrascos na varanda do apartamento na Asa Norte do Plano Piloto e passeios no parque da cidade.

A família JB, refugiada no Brasil, gastou R$ 30 mil na viagem de Damasco para Brasília. O trajeto incluiu trechos de carro, entre Damasco e Beirute, e avião, entre Doha (Catar), São Paulo e Brasília. A facilidade para a obtenção do visto e a presença de familiares no Distrito Federal foram os principais motivos que os levaram a escolher o Brasil para tentar refazer a vida. A família trouxe recursos para passar seis meses na cidade.

Sem conseguir trabalho, apesar dos 25 anos de experiência profissional como professora de língua árabe, J.J. teve a ideia, em setembro de 2014, de produzir doces para vender.

O trabalho é dividido entre o casal. O engenheiro civil A.J. compra as matérias-primas nas Centrais de Abastecimento (Ceasa) do Distrito Federal e vende os doces em feiras culinárias na cidade.

Engenheiro civil, AJ vende doces no Ceasa do DF
AJ compra matéria-prima na Ceasa e vende os doces em feiras culinárias na cidade

J.J. prepara as receitas. Na Síria, cozinhava para a família. Hoje faz, por dia, 75 unidades de cada um dos 15 doces que tem no cardápio. São beklawa (massa folhada com nozes), knafe (ninho de nozes), maamul (semolina com tâmaras) e outras iguarias da culinária árabe. Cada unidade custa R$ 5.

A parceria deu tão certo que o próximo passo é se formalizar e fortalecer a marca, já criada, dos doces. J.J. e A.J. querem ter, ainda, uma máquina de cartão para receber os pagamentos dos doces por meio de débito e crédito. Eles ainda estão tentando se adaptar às oscilações do mercado brasileiro. “No fim do ano, ficamos dois meses sem vender nada, em razão do período entre as festas de Natal, Ano Novo e Carnaval”. Apesar de todos os contratempos, ou devido a eles, J.J. hoje se considera uma mulher mais forte. “Eu não sabia que tinha tanta força.”

Esta é a quarta e última parte da reportagem sobre migrantes no Distrito Federal, todas produzidas durante trabalho de campo vinculado à pesquisa Migração e Comunicação Intercultural: fluxos transnacionais, interferências locais e usos das TICs (migracult.com).

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