Especial Infância e Refúgio – Marina e Layla: guerra é uma coisa que vem de cima até embaixo e derruba tudo

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Marina (nome fictício), da Síria. Crédito: Júlia Dolce Ribeiro

Por Júlia Dolce Ribeiro (texto e foto)
Desenho de Marina* e Layla* (nomes fictícios)

É surpreendente perceber como algumas crianças em situação de refúgio lidam naturalmente com a morte. Principalmente, é desconcertante perceber como essas mesmas crianças incorporam a guerra, como conceito abstrato, em seu discurso. Elas não conhecem ainda as origens e significados geopolíticos da guerra, ou mesmo entendem quem são as pessoas que fazem ‘sua respectiva’ guerra e de que lado do conflito se encontram. Para elas, a guerra é cheiro, ruído e o medo que absorvem dos parentes ao redor: Uma experiência sensorial que acompanhou boa parte das suas curtas vidas.

No entanto, é interessante notar como essa própria naturalização do Estado de exceção em seu desenvolvimento básico as tornam mais resistentes. Há trauma, mas também existe uma capacidade brilhante de simplificar a vida ao seu estado primitivo de sobrevivência, que elas escancaram sem delicadeza aos adultos decididos a serem cautelosos ao falar sobre temas difíceis ao seu redor.

Em uma entrevista com outra família síria que não faz parte desse perfil, irmã e irmão, já adolescentes, ao conversarem comigo separadamente, destacaram que não sentem falta dos amigos que ficaram no país de origem, porque nem sabem se eles estão vivos. É assim, mesmo que as perguntas se refiram a temas simples, como o que gostavam de comer e que tipo de brincadeira havia em seu país, as respostas, descontraidamente, contornam a morte, como parte presente da vida. Ambos também responderam que a ONU é um jogo de cartas coloridas, o que, apesar de engraçado, mostra como a organização internacional tem pouco impacto real na vida das crianças sírias refugiadas.

As irmãs Marina e Layla tampouco entendem os motivos políticos, geográficos ou religiosos que as levaram a deixar Damasco, capital da Síria, há três anos, junto aos seus pais. Mas Marina, de 8 anos, camiseta das irmãs Elza e Ana do filme Frozen coincidentemente combinando com a da sua irmã um ano mais nova e um sorriso banguela com os últimos dentes de leite, explicou direitinho como era sua infância durante o conflito na Síria, que já dura 5 anos e deixou 300 mil mortos até agora: “Tinha muita guerra lá, e foi assim, eu tava dormindo e escutei ‘TUM, TUM, TUM’, tudinho da guerra. Daí foi uma bomba no meio da cama da minha mãe!

“Sim… Foi mesmo. Na nossa casa da Síria, tudo bomba, POFT, POFT”, completou a mãe, Sahar, gesticulando com seu português ainda básico. Ela vestia um hijab branco por baixo da camiseta de mangas compridas quando foi me receber na entrada da pequena vila em que vivem, em uma rua estreita e tranquila no bairro do Pari. A casa que a família aluga, com dois quartos e uma sala/cozinha, estava toda mobiliada e cheia de brinquedos espalhados pelo chão.

Assim que fechou a porta da casa, entretanto, a jovem mulher, extremamente sorridente e solícita, me serviu com café e bolo caseiro, retirou o véu e começou a amamentar sua pequena bebê de três meses, Juri, que, como a mãe orgulhosamente destacou mostrando a certidão de nascimento e o cartão do SUS, é uma brasileirinha. Juri, um pacotinho embrulhado, parou de chorar rapidamente com o leite e a mãe continuou a entrevista.

Com bastante dificuldade em entender as perguntas e pedindo a ajuda das filhas (que assim como todas as outras crianças entrevistadas, estavam acostumadas com a tradução simultânea devido ao português fluente), Sahar me explicou que a família saiu da Síria após o episódio da bomba que destruiu sua casa e morou por dois anos na Jordânia, vivendo na casa da sua irmã que já morava lá, antes de decidirem vir para o Brasil, à procura de uma melhor situação financeira. Seu marido, que na Síria trabalhava em uma fábrica de meias, veio para o país um ano antes da família, após não conseguir encontrar emprego fixo na Jordânia.

Com a ajuda da comunidade árabe da mesquita que hoje frequentam e da ONG brasileira para crianças refugiadas I Know My Rights (IKMR), ele conseguiu pagar a outra metade das passagens da família para o Brasil – cerca de 7 mil reais. A primeira metade foi paga através do salário que recebia trabalhando em um restaurante. Assim que chegaram, o pai levou o resto da família na Cáritas e na Polícia Federal para encaminharem sua solicitação de refúgio. Para Sahar, foi “muito difícil ficar na Jordânia” por tanto tempo sem o marido. “A Vivianne Reis (coordenadora da IKMR) me ajuda muito no Brasil. Ela a única brasileira que nós conhecíamos. Ela ajudou meu marido com dinheiro, porque a Jordânia não muito bom, não tem trabalho, não tem…”

“Não tem nada pra fazer lá”, completou Layla, bem mais extrovertida que a irmã mais velha, entrando na conversa. “Eu não lembro bem da Síria não, era muito pequenina, mas a Jordânia era legal. Mas meu pai não queria ficar na Jordânia porque as pessoas não queriam deixar ele trabalhar”. A menina tem cabelos cacheados e usava um óculos de aro cor-de-rosa que deixava seus olhos, estrábicos, bastante aumentados, o que lhe dava um ar divertido, complementado pelas suas respostas diretas e bem-humoradas.

O estrabismo de Layla, como tentaram me contar, foi fruto da mesma bomba que destruiu a casa onde a família morava, provavelmente uma sequela psicológica ou causada pela onda de choque produzida pela explosão – algo que a mãe não soube explicar em português. “Eu lembro que quando eu tava dormindo eu escuto o som de guerra, e eu acordei e meu pai veio até mim e viu meus olhos assim, desse jeito”, disse a menina, retirando os óculos e apontando para os olhos, levemente virados para dentro. “É da guerra, ela era pequenina e ficou com medo. Muita guerra deixou assim…”, completou a irmã mais velha com uma vozinha fraca.

O pai das meninas fala melhor o português e respondeu algumas perguntas por telefone porque estava fora de casa procurando emprego durante a visita.  Segundo a família , Layla não tem nenhum outro problema psicológico causado pelo episódio, uma de suas únicas memórias do país de origem que deixou quando tinha apenas três anos de idade. Já Marina, segundo a mãe, tinha bastante medo do conflito.

Por conta do estrabismo, Layla sofre provocações na escola, o que faz com que a menina constantemente aponte em sua fala o quanto seus colegas são “chatos”. O bullying sofrido pela irmã incomoda bastante Marina, que afirmou, timidamente, que “não gosta quando as pessoas falam da Layla”.

A guerra civil na Síria, iniciada após as mobilizações de 2011 que fizeram parte da “Primavera Árabe” em países do Oriente Médio, é uma série de conflitos que envolvem o governo sírio representado pelo presidente Bashar Al-Assad, no poder há 16 anos, e os movimentos oposicionistas armados, além das forças por independência curda e do Estado Islâmico (EI), que a partir de 2013 começou a reivindicar territórios na região.

O conflito se intensificou com o envolvimento internacional de países como os Estados Unidos e os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que organizam ofensivas militares contra o EI, além da intervenção russa e iraniana ao lado do regime de Assad. Mais da metade dos sírios já foram obrigados a deixar suas casas, sendo que pelo menos cinco milhões de pessoas estão refugiadas nos países vizinhos, como Líbano, Turquia e a própria Jordânia, segundo dados atualizados em setembro de 2016 pelo Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH).

Outros dados divulgados recentemente mostram que a expectativa de vida no país já caiu de cinco a seis anos entre 2010 e 2013 na Síria e a mortalidade infantil já aumentou de 6% a 9% deste 2010. Mais de 13 milhões de pessoas, das quais, seis milhões são crianças, precisam de ajuda humanitária no país. Como analisado anteriormente, as crianças sírias se tornaram marcas da crise humanitária e do aumento expressivo no fluxo migratório nos últimos anos, a partir da imagem do garoto sírio curdo Aylan Kurdi, afogado em uma praia turca após o barco que levava sua família para a Europa naufragar.

Em agosto de 2016, praticamente um ano após a morte de Aylan, o vídeo de um menino sírio em choque após ter sua casa bombardeada viralizou nas redes sociais e veículos de notícias ocidentais. O menino, coberto de sangue e poeira, estava sentado na cadeira da parte de trás de uma ambulância após um ataque aéreo na cidade de Aleppo. Como também foi discutido nos capítulos prévios, a comoção seletiva dos ocidentais com as crianças sírias, somada à influência e estabilidade da Comunidade Árabe em São Paulo, possibilita uma situação menos vulnerável para os sírios refugiados no Brasil.

Esse contexto é refletido nas opiniões da família sobre o país. Sahar diz gostar muito mais do Brasil do que da Jordânia, principalmente porque o país concedeu o visto humanitário para a família. “O Brasil ajudou a gente a pegar o visa. Aqui tinha trabalho, tem minhas amigas da mesquita, os brasileiros são legais e não tem guerra. Eu não gosto nada de guerra”, afirmou. Já Marina diz gostar do Brasil porque “as pessoas são muito inteligentes e a gente entrou na escola por causa do Brasil”. Layla, por sua vez ocupada mexendo no celular da mãe, respondeu apenas “é, é por isso aí que a gente gosta. Menos uma amiga minha da escola aqui, que não é muito legal não”.

Quando perguntei o que há de diferente entre os países em que viveu, Marina respondeu rapidamente que algumas coisas, na verdade, são iguais. “Batata lá é batata aqui também”.

– Batata, Marina? – perguntei.
– É, albtatis/batata – explicou, falando a mesma palavra em árabe e em seguida em português, mostrando a semelhança entre os sons.
– Lá não pode ficar com shorts não – completou Layla, distraída.
– É, ficar com shorts não pode – continuou a irmã mais velha.
– É que eu muçulmana – explicou a mãe, dando risada.
– Não pode ficar sem esse negócio assim – disse Layla, apontando para o véu da mãe em cima do sofá – Lá é chique. Aqui não tem isso não, não tem nada a ver – completou, arrancando mais risos da mãe.

Marina (nome fictício), da Síria.
Crédito: Júlia Dolce Ribeiro

Sahar lembra que a única coisa que não gosta do Brasil é que não tem muitos muçulmanos, embora tenha dito isso com um sorriso. “É muito diferente, as pessoas acham estranho que não pode nada. Eu falo que não pode mesmo. As meninas não podem sair sem as mangas. Mas não tem preconceito”. Notei que as meninas vestiam calças e camisetas de manga comprida, o que havia passado despercebido devido ao frio que fazia durante o encontro. Pergunto se elas vão usar o hijab quando crescerem – o uso começa após a menarca, primeira menstruação – e a mãe respondeu, com expressão preocupada, que não havia como saber ainda, “talvez elas não irão querer”. “Mas tá gelado aqui, é bom!”, disse Layla, levantando os olhos grandes em minha direção e provocando mais risos.

Quanto ao que mais sente falta do país de origem, Sahar destaca sua família que ficou na Síria. “Agora eu tenho um irmão na Alemanha. Muita saudade do meu irmão, da minha irmã e da minha mãe. Também das minhas amigas na Síria. Aqui tem pouco de amiga. Não tem dinheiro para a minha família vir pra cá, é muito difícil vir pro Brasil”, confessa. Mesmo com a saudade, a família não pensa em sair do país.

Em relação às dificuldades de viver no Brasil, a mãe apontou as tentativas falhas do marido de conseguir emprego, devido à crise econômica, assim como o alto custo do aluguel e contas da casa, além do próprio português. “É difícil fazer o curso porque agora tenho a neném”, respondeu, apontando para Juri que mamava em seu peito. “Tem que levar elas na escola todos dias também. Eu gosto de falar português, mas é língua muito difícil”.

Marina e Layla são bolsistas no Colégio Cruz Azul da Polícia Militar, onde cursam o segundo e o primeiro ano do primário, respectivamente. Ambas ignoraram minha pergunta sobre o que acham da escola, ao que a mãe respondeu, com uma risada envergonhada, que gostam muito. As meninas não chegaram a estudar na Síria e Sahar contou que a escola da Jordânia tinha um nível muito baixo. “A gente era muito pequeninas para lembrar da escola”, disse Layla, contando com alegria que iria faltar à aula naquele dia porque estava gripada e ia ao médico. “Tá todo mundo gripado porque tá gelado!”. “Ei, eu lembro da Síria porque eu nasci primeiro”, provocou Marina.

Segundo Layla, sua aula preferida é a de informática. “A professora ensina a gente a mexer no computador e se alguém precisa de ajuda, é só levantar a mão e ela vem ajudar”. Quando perguntei o que querem ser quando crescer, ambas as irmãs responderam ao mesmo tempo que querem ser médicas, para “ajudar as pessoas”. Quando não estão na escola, as meninas ficam em casa com a mãe e a irmã bebê, ou frequentam as atividades e passeios pela cidade da ONG IKMR.

Elas contaram que gostam de brincar com as amigas no Brasil e gostam de comer. “Aqui no Brasil tem muito doce bom, mas eu não gosto de arroz nem feijão”, disse Layla. “Eu amo arroz e feijão!”, opinou Marina. Embora tenham personalidades muito diferentes, as duas se dão muito bem. Sentadas uma do lado da outra no sofá, elas pensaram em uma solução perfeita para desenharem para mim o que se lembram do país de origem: já que Layla era “muito pequenina” para se lembrar da Síria e, segundo ela, gostava muito mais de pintar do que de desenhar, ficou colorindo o desenho que a irmã fazia em lápis.

– Quem são essas pessoas que você tá desenhando, Marina? – questionei, vendo que a menina havia desenhado o que pareciam ser aviões jogando bombas em três pessoas e em uma casa.

Desenho de Marina e Layla mostra a recordação das meninas sobre a guerra na Síria.
Crédito: Reprodução

– É alguém…
– Alguém? Não é você?
– Não… Graças a deus não morri, não morri! – respondeu, com naturalidade – Esse é o pai, esses dois é os filhos, ele morreu da guerra e queriam matar a casa dele e os filhos tão chorando.
– Você ainda não terminou Marina, vai logo! – disse Layla, perguntando, em seguida, de que cores eu queria que ela pintasse a janela da casa.
– Pode pintar do jeito que você gosta.
– Não, do jeito que VOCÊ gosta. Agora eu to pintando muito bem, no outro dia eu pintei muito feio… – murmurou para si mesma.

No final da entrevista, perguntei a Sahar se eu poderia tirar algumas fotos de suas filhas. Com um pulo, ela se levantou dizendo ‘péra, péra, péra’, e foi buscar uma escova de cabelo e uma tiara para enfeitar as meninas. Marina e Layla, animadas, correram pela casa toda posando com seus bichinhos de pelúcia e com Juri no colo. Encantada com a câmera, que aprendeu a usar rapidamente, Layla passou um bom tempo tirando selfies e fotografando cenários que montava com os brinquedos.

Era difícil admitir, mas eu sabia que entre as tantas crianças entrevistadas, elas ficariam bem. Mesmo tendo convivido com a morte, luto e destruição quando eram ainda tão novas, era preciso lembrar que estavam seguras em comparação aos milhões de crianças que nunca teriam condições financeiras de deixar a Síria, que morreriam no trajeto para um outro país ou que sofreriam com a xenofobia anti-islâmica, extremamente presente na Europa e nos Estados Unidos. Deixei Marina e Layla, uma meiga e delicada, outra comicamente realista e agitada, com um humor um pouco mais alegre do que o usual após os encontros e entrevistas.

Elas não são traumatizadas e invalidadas por essência, como tantos discursos ressaltam; ao mesmo tempo, carregam no corpo e na memória os rastros de uma guerra, que mesmo intangível para crianças tão pequenas, as leva a agradecer à Allah pela sua sobrevivência. São, sim, a face de uma crise migratória: rostos mais palatáveis e identificáveis com os das “nossas” crianças ocidentais. Mas ainda assim carregam sua transgressão. Como Marina inocentemente lembrou, estão vivas. Não são mártires fotografáveis, não vão servir como argumento para interesses políticos opostos e imperialistas. Crescerão, e como mulheres muçulmanas, se lembrarão da guerra e possivelmente entenderão quem são todos aqueles que a construíram.

 

Dicionário das Crianças Refugiadas (Marina):

  

Refugiado: é uma chave.. é uma coisa da porta que fecha bem.

País: é uma coisa pra gente morar.

Guerra: É uma coisa que vem de cima até embaixo e derruba tudo.

Criança: Meninas… e meninos também.

Nação: Não sei…

Direitos: é uma coisa assim, tipo esquerda, direita, reto…

Direitos Humanos: Não sei…

Religião: Tem algumas que eu não sei, desculpa…

Muçulmano: uma pessoa muçulmana…

Brasil: é um país

Brasileiro: Brasileiro é a Juri! Tem que falar português…

Você é brasileira? Não…

Mas você fala português… Mas eu não sou brasileira não haha, eu sou da Síria

Sahar: Ela gosta da Síria…

São Paulo: São Paulo é uma coisa dentro do Brasil e é muito bom… Linda. Lá as flores são linda, não tem guerra nem nada, graças a Deus, lá legal…

*Esta é a quarta parte do especial Infância e Refúgio, sobre crianças refugiadas na cidade de São Paulo. Nele, as crianças entrevistadas usam desenhos e outros elementos lúdicos para falar sobre o que já viveram em tão pouco tempo de vida. Os perfis são do livro Por um Pedaço de Terra ou de Paz, trabalho de conclusão de curso (TCC) na PUC-SP da jornalista Júlia Dolce Ribeiro, e serão publicados um a cada semana no MigraMundo (veja aqui a lista completa). Os nomes das crianças nos textos são fictícios para preservar a identidade de cada uma.

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