Explosão e crise no Líbano afetam também refugiados no país; brasileiros mobilizam redes de apoio

Dos 12 milhões de árabes e descendentes no território brasileiro, 27% são libaneses, fazendo dessa a maior comunidade libanesa fora do Líbano no mundo

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Porto de Beirute em ruínas, devastado após explosão em 4 de agosto. refugiados estão entre as 200 vítimas já confirmadas. (Foto: Houssam Hariri/ACNUR)

Por Juliana Lima

A pior crise econômica e política vivida pelo Líbano desde o final da Guerra Civil (1975-1990) torna ainda mais complicada a vida de refugiados no país. Uma situação que, inclusive, deve se agravar após a explosão que destruiu parte da capital, Beirute, no último dia 4 de agosto.

Segundo o ACNUR, pelo menos 34 das 200 vítimas fatais da explosão são refugiados, além de sete desaparecidos e 124 feridos.

Entre a população do Líbano, se encontram cerca de 1,5 milhão de refugiados sírios, vindos do país vizinho que entra no seu décimo ano de guerra, além de 400 mil refugiados palestinos. O ACNUR mantêm registrados e sob seu mandato 950 mil refugiados da Síria e também do Iraque e do Sudão, e mais 200 mil refugiados palestinos vivem sob mandato da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA).

Ainda de acordo com o ACNUR, o Líbano é a nação com a maior população de refugiados per capita do mundo: 1 em cada 6 habitantes do país é alguém que buscou refúgio. Sobre a explosão no porto de Beirute, a organização disse temer que entre as vítimas e feridos estejam refugiados, já que algumas das áreas afetadas se situam em bairros que acolheram essas pessoas.

“Em tempos difíceis de dificuldades econômicas e da pandemia de COVID-19, o ACNUR enfatiza a necessidade de apoio internacional constante e oportuno para as pessoas de Beirute e do Líbano que são anfitriões generosos de refugiados há muitos anos”, disse a agência, em comunicado à imprensa no último dia 12.

Relação antiga com o Brasil

No Brasil, uma grande e forte comunidade libanesa se estabeleceu desde o fim do século 19, quando uma primeira leva de migrantes saíram do país — que se encontrava então sob o domínio do Império Otomano — e buscou uma nova vida nas Américas. De 1880 ao início da Primeira Guerra Mundial houve um aumento significativo da migração libanesa e estima-se
que um quarto de toda a população tenha deixado o Líbano entre o início do século 20 até o fim da Primeira Grande Guerra.

O principal motivo para os libaneses buscaram outros países então era a crise econômica agrária que o local enfrentava. No anos seguintes, o Brasil continuou sendo um ponto de atração para libaneses insatisfeitos que queriam melhorar suas vidas em outra nação. A comunidade logo começou
a se fortalecer em terras brasileiras e o mix de culturas já era visível: a figura do “sírio” ou do “muçulmano”, que englobava os libaneses, era comum em obras de escritores brasileiros como Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade, por exemplo.

Mas foi a partir da Segunda Guerra Mundial, no entanto, que a migração libanesa começou a ganhar outros contornos. Se antes a maioria que deixava o Líbano era de origem rural, a depressão econômica pós-guerra fez com que a população urbana buscasse cada vez mais a solução para seus problemas na migração. Os conflitos religiosos e políticos também
aumentavam, principalmente após 1958, e houve um aumento significativo de muçulmanos emigrados na época.

E então veio a guerra civil. O conflito entre grupos político-religiosos que ocorreu entre 1975 a 1990 envolvia também atores internacionais, com forte influência da polarização da Guerra Fria e do conflito entre Israel e Palestina. Foram cerca de 120 mil mortos e mais de 1 milhão de pessoas foram deslocadas por causa da guerra de acordo com dados da ONU.

Com tal situação, o Brasil passava a contar com dois perfis diferentes de libaneses: os que realmente buscavam se estabelecer no país e os que eram refugiados da guerra mas pretendiam voltar ao Líbano (alguns conseguiram concretizar tal objetivo, enquanto outros acabaram por permanecer em solo brasileiro).

Hoje, dos 12 milhões de árabes e descendentes no território brasileiro, 27% são libaneses. Eles se concentraram principalmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná, e representam aqui a maior comunidade de libaneses no mundo.

🇱🇧 Fachada do Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo de São Paulo, recebe cores da bandeira do #Líbano.🇱🇧 São…

Posted by Governo do Estado de São Paulo on Thursday, August 6, 2020

Solidariedade

Diante da situação atual vivida no Líbano, brasileiros e a comunidade libanesa do Brasil e iniciaram uma série de homenagens e redes de apoio*. O próprio governo libanês enviou pedidos de ajuda para a embaixada no Brasil e para outros grupos, reconhecendo a crise que os brasileiros enfrentam atualmente mas recorrendo à relação íntima entre as duas nações.

O governo brasileiro preparou uma missão humanitária, chefiada pelo ex-presidente Michel Temer (MDB), que é filho de libaneses. A comitiva, composta por ele e mais 12 integrantes, partiu para o Líbano na quarta-feira (12) com alimentos, medicamentos e insumos básicos de saúde.

Em São Pulo, diversas instituições se disponibilizaram para recolher doações a serem dirigidas ao Líbano. O prazo vai até o próximo domingo (16). Veja quais:

Associação Al-Albait Annabawi no Brasil
Avenida Rio Branco,125
Centro – São Paulo – SP
CEP: 01205-000

Associação Beneficente Islâmica do Brasil – Shia
Rua Elisa Witaker, 17
Brás – São Paulo – SP
CEP: 03009-030

Associação Cultural Comunidade Islâmica Da República – Al-masjid Al-munawar
Rua Barão de Itapetininga , 220
República – São Paulo – SP
CEP: 01042-001

Associação Islâmica de São Paulo – Mesquita Hamza-Cachoeirinha
Rua Henry Charles Potel, 789
Vila Penteado – Vila Nova Cachoeirinha – SP
CEP: 02846-000

Catedral Metropolitana Ortodoxa
Rua Vergueiro, 1515
Paraíso – São Paulo – SP
CEP: 04101-000

Clube Monte Líbano
Avenida República do Líbano, 2267
Jardim Luzitânia – São Paulo – SP
CEP: 04501-003.

Comunidade religiosa cultural e beneficente islâmica de São Miguel Paulista
Avenida Paranaguá, 1915 Casa 2
Vila Rosária – São Miguel paulista – SP
CEP: 08021-290

Conselho Superior dos Teólogos e Assuntos Islâmicos do Brasil
Rua Barão de Jaguara,632
Cambuci – São Paulo – SP
CEP: 01520-010

Paróquia Greco-Melquita Católica do Brasil
Catedral Nossa Senhora do Paraíso
Rua do Paraíso, 21
Paraíso – São Paulo – SP
CEP 04103-000

Escola Islâmica Brasileira
Rua Pedro Malaquias, 34
Vila Carrão – São Paulo – SP
CEP: 03447-060

Lar Druzo
Rua Conselheiro Moreira de Barros, 569
Santana – São Paulo – SP
CEP: 02018-012.

Liga da Juventude Islâmica Beneficente do Brasil
Rua Barão de Ladário, 922
Brás – São Paulo – SP
CEP: 03010-000

Masjid Bilal Al-Ghabashi
Rua Doutor falcão,151 – loja nº171
Centro – São Paulo – SP
CEP: 01007-010

Mesquita da Misericórdia Sobem
Avenida Yervant Kissajikian, 1130
Santo Amaro, São Paulo – SP
CEP: 04657-001

Mesquita Brasil
Rua Barão de Jaguará, 632
Cambuci – São Paulo – SP
CEP: 01520-010

Mesquita do Pari
Rua Barão de Ladário, 922
Brás, São Paulo – SP
CEP: 03010-000

Mesquita do Brás
Rua Elisa Witacker, 17
Brás – São Paulo – SP
CEP: 03009-030

Mesquita Omar Ibn Khattab – Vila Rica
Rua Alger 74
Vila Rica – São Paulo – SP
CEP: 03911-050

Mesquita Tatuapé
Rua Guaxupé ,114
Vila Formosa – São Paulo – SP
CEP: 03416-050

Mussala Interlagos
Rua Hilário Pinto de Almeida , 36
Socorro – São Paulo – SP
CEP: 04784-140

Sociedade Beneficente Muçulmana Ali Ibn Abi Talib
Rua Gonçalo Soares de França, 55
Vila são José – São Paulo – SP
CEP: 04836-030

Sociedade Beneficente Muçulmana dos Membros da Confraria Chaizulia Yachrutia
Avenida Nossa Senhora das Merces, 919
Vila das Mercês – São Paulo – SP
CEP: 04165-001

Sociedade Beneficiente Muçulmana de Santo Amaro
Avenida Yervant Kissajikian 1106
Santo Amaro – São Paulo – SP
CEP: 04657-001

Sociedade Beneficiente Muçulmana de São Paulo
Rua Barão de Jaguará, 632
Cambuci – São Paulo – SP
CEP: 01520-010

Sociedade Maronita de Beneficência
Rua Tamandaré, 355- São Paulo – SP
CEP: 01525-001

União Nacional das Entidades Islâmicas – UNI
Rua Barão de Ladário, 922 3° andar
Brás – São Paulo – SP
CEP: 03010-000

Situação de calamidade econômica

O Líbano possui, atualmente, uma das maiores dívidas públicas do mundo (cerca de 170% do PIB) e as negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) estavam paradas desde maio passado. Enquanto a moeda (libra libanesa) continua caindo em relação ao dólar, os preços de produtos básicos continuam aumentando: foi registrado um aumento de 60% nos últimos meses. Além disso, as taxas de desemprego também são cada vez mais altas, estando em mais de 35%, e a maioria dos funcionários públicos teve seu salário reduzido pela metade.

A crise econômica fez com que metade da população, hoje em cerca 4,5 milhões de habitantes, ficasse abaixo da linha da pobreza, de acordo com dados do Banco Mundial. Segundo economistas, a desigualdade econômica do Líbano também é uma das maiores do mundo (cerca de 10% da população adulta acumula 55% da renda nacional) e o país se encontra no 137º lugar de 180 países em um índice de corrupção realizado pela organização Transparência Internacional (na lista, quanto mais baixa a posição, mais considerado corrupto o país é).

A essa situação econômica soma-se a instabilidade política que permeia o país, que viu dois premiês — Saad Hariri e Hassan Diab — renunciarem em um espaço de 10 meses. Mesmo com as medidas de isolamento social instituídas para frear o avanço do coronavírus, a população libanesa tem ido às ruas protestar, e não são raros os choques violentos com forças de segurança.

Colaboração de Rodrigo Borges Delfim


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