Fronteira fechada e confinamento devido ao coronavírus silenciam cidade-sede da União Europeia

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Uma das principais avenidas de Estrasburgo que desembocam na fronteira com a Alemanha tem praticamente zero fluxo de pessoas e de veículos (Foto: Victória Brotto/MigraMundo).

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo (França)

Normalmente me dirijo às leitoras e aos leitores do MigraMundo na terceira pessoa, a fim de não ocupar um espaço que não é meu mas sim dos fatos. Porém os tempos que correm se dão de maneira diferente.

As ruas silenciosas, os pássaros se erguendo em cantos sem interrupções e o silêncio de casas cheias de gentes resguardadas pedem, por vezes, uma outra linguagem jornalística: a do relato atravessado por impressões.

Há dois dias Estrasburgo (cidade francesa onde moro há quase três anos e de onde colaboro para o MigraMundo) entrou em quarentena, assim como o resto da França e boa parte do mundo, por causa da epidemia global do vírus Covid-19 (conhecido como coronavírus).

Tal vírus já matou mais de 9 mil pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Na região francesa do Grande Leste, onde Estrasburgo está localizada, de acordo com o governo local, 1.820 pessoas foram diagnosticadas com o vírus, além das 61 mortes.

Em plena quinta-feira, avenida que liga o centro da cidade ao Parlamento europeu e ao Conselho da Europa (à esquerda na foto) está praticamente vazia (V.Brotto/MigraMundo)

Todos os estabelecimentos da França foram fechados, inclusive escolas e universidades, menos os chamados “essenciais” para a vida do país, como supermercados, bancos e hospitais. A quarentena foi imposta pelo presidente francês, Emmanuel Macron, na última quinta-feira, em anúncio feito em rede nacional, delineando assim as medidas mais duras da Europa de confinamento de população.

“Estamos em guerra”, falou, por seis vezes, o chefe de Estado francês. “Fiquem em casa. Ficar em casa é salvar vidas”, afirmou.  

O país registra até o momento 9.134 contágios e 89 mortos pelo Covid-19, segundo o último balanço oficial. Emmanuel Macron anunciou também o fechamento temporário das fronteiras externas da União Europeia, permitindo apenas que cidadãos europeus voltassem para os seus países.

O governo francês disponibiliza atestação, a qual cada cidadão precisa preencher e levar consigo, junto com um documento de identidade, a cada nova saída. (Créditos: VB/Migramundo)

Para sair em qualquer cidade francesa precisa-se ter uma boa razão: trabalho, atividade fisica, portar assistência a alguém em situação extrema ou sair para compras essenciais. É o que estabeleceu o decreto n° 2020-216 elaborado pela presidência da República e pelos seus 11 ministérios.

O governo disponibilizou um modelo de atestação, a qual cada cidadão precisa preencher e lavar consigo, junto com um documento de identidade, a cada nova saída. “Essas saídas serão toleradas”, afirmou o primeiro-ministro, Edouard Phillipe, na manhã seguinte ao pronunciamento de Macron. “As outras serão sancionadas em até 135 € (aproximadamente R$ 752).”

Um dos poucos estabelecimentos comerciais abertos, supermercado pede para clientes guardarem ao menos 1 metro de distância entre si. (Crédito: VB/MigraMundo)

Com um sistema de saúde em crise há alguns anos, com faltas de leitos nos hospitais e más condições de trabalho, a França fala em “urgência hospitalar”.

“Se dissermos que estamos enfrentando a epidemia nas melhores condições estaremos fingindo”, afirmou ao jornal Le Monde Martin Hirsch, diretor geral dos Hospitais de Paris, principal pólo hospitalar do país.

De acordo com o Ministério da Saúde francês, os hospitais franceses acolhem 3.626 pacientes infectados com o COVID-19, dos quais 931 em reanimação.  “Entre os casos mais graves, a metade são pessoas de menos de 60 anos”, informou o diretor geral da Saúde, Jérôme Salomon, em entrevista à rádio FranceInfo.

“Estamos completamente esgotados (…) Temos filas de ambulâncias na frente do hospital esperando que leitos se liberem (…) Fazemos os atendimentos dentro das ambulâncias mesmo”, testemunhou a enfermeira responsável pela gestão do fluxo de novos pacientes no Novo Hospital Civil, um dos principais hospitais de Estraburgo, em entrevista ao site de notícias francês Pokaa.fr nessa semana.

Além de ser uma das principais cidades da região Leste do país, Estrasburgo  faz fronteira com a Alemanha, é conhecida por ser um importante centro estudantil e por abrigar cerca de vinte agências da União Europeia, dentre elas o Parlamento Europeu, o Conselho da Europa e a Corte Europeia de Direitos Humanos.

Ou seja, pessoas de diversas partes da Europa e do mundo passam pela cidade cotidianamente, o que, em tempos de epidemia, pode se tornar extremamente problemático.

Na manhã desta quinta-feira (19), de acordo com a agência de notícias francesa France Presse, um projeto de lei será votado para autorizar a declaração de um estado de urgência sanitária. Assim, os Estados membros poderão restringir ainda mais a circulação da população em seus territórios.

Nada se move, assim, nos tempos atuais.

Em Estrasburgo, os barulhos das crianças vem de dentro das casas, mensagens coladas nas janelas vizinhas.

“Está tudo bem? Se precisar de ajuda, avise” é uma das mensagens que podem ser vistas ao longo de uma rua residencial. Todos os dias, às 20h, essa mesma vizinhança, assim como todas as outras vizinhanças da cidade, vai às janelas para aplaudir as equipes de saúde.

Moradores colocam mensagem solidárias nas janelas: “Olá! Tudo vai bem ? Precisa de ajuda?”. (Créditos: VB/MigraMundo)

Uma, duas, três pessoas aplaudiam às 19h57 de quarta-feira (18); aos poucos, outras vozes, outras palmas se juntavam em outras janelas que iam se abrindo. Às 20h, as badaladas de uma catedral próxima se juntava aos sons das palmas como uma sinfonia erguida no meio do silêncio – um silêncio imposto a uma geração formada no barulho e no movimento.

Os supermercados pedem, em avisos colados na entrada: “Por favor, mantenham um metro de distância entre si. Uma pessoa por vez no interior da loja. A equipe agradece!”.

Um funcionário de máscara e luva faz a triagem das pessoas anunciando quem pode entrar e quando. No interior, prateleiras com menos produtos e um staff reduzido de funcionários – os que trabalham usam máscaras e luvas. “Tenha um bom dia, madame”, deseja a senhora no caixa, como se a vida seguisse o seu curso normal. Na esquálida fila para pagar, um jovem rapaz lembra-se que esqueceu de comprar algo e avisa a namorada ao lado. Ela ri de seu esquecimento. A funcionária no caixa sorri dizendo que ele pode ir buscar o que esqueceu; ninguém mais está com pressa.

Clientes fazem fila do lado de fora do supermercado, que pede para entrar uma pessoa por vez. (Créditos: Victoria Brotto/MigraMundo)

A avenida Allée de la Robertsau que liga o centro de Estrasburgo às instituições europeias está vazia; um ou dois carros passam por farois que ainda insistem em acender verde, amarelo e vermelho. Às 11h43 de uma terça-feira, as bandeiras dos 27 membros do bloco flamejam sozinhas no ar esticadas na frente do prédio do Conselho da Europa.

No farol ao lado, um carro para diante do sinal vermelho e de uma avenida completamente estendida no vazio. Um pedestre aparece, atravessa diante do carro, que ficaria ainda ali parado esperando o farol anunciar que ele poderia avancar. Depois dele, a reportagem não contou mais nenhum carro pelos próximos sete minutos.

O parque, ao lado do Conselho da Europa, talvez seja o lugar de mais movimento na cidade, com uma dezena de corredoras e corredores sozinhos. A atividade física agora só pode ser feita individualmente, de acordo com o decreto presidencial. O Estado se fez presente no íntimo das casas, das práticas individuais, que agora são perspassadas pelo eco das vozes dos chefes de Estado dizendo que sim, “estamos em guerra”.

O rádio anuncia o fechamento das fronteiras entre Alemanha e França, Angela Merkel, prêmie alemã há 14 anos no poder, anunciara para a nação a pior crise da Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial. “Levem isso a sério, porque essa situação é muito séria”, anunciou.

Ponto da Universidade de Estrasburgo do bonde elétrico, normalmente cheio de estudantes, está vazio por causa do confinamento para combater o COVID-19. (Créditos: VB/MigraMundo)

O pronunciamento de Merkel foi atípico, fora do habitual para a chanceler que só discursa em rede nacional uma vez ao ano, no dia 31 de dezembro – ela não é muito chegada a discursos.  Porém ontem, a chefe de Estado alemã quebrou os hábitos – algo recorrente em tempos de crise (as crises, como nos mostra a História, são grandes violadoras de hábitos).

Merkel aparecia, assim, vestida em terno azul claro, de frente para o Bundestag, o Parlamento alemão; ao seu lado, fincadas no chão, as bandeiras, primeiro da Alemanha , e ao lado a da União Europeia.  A Alemanha registra atualmente 6012 casos confirmados de coronavírus, dentre os quais 13 mortes, de acordo com o governo do país.

Na última segunda de manhã, 16, a Alemanha fechou parcialmente as suas fronteiras com a Dinamarca, Suiça, Luxemburgo e França. Na fronteira entre Estrasburgo et Kehl, cidade alemã de cerca de 34 mil habitantes, policiais bloqueavam a passagem de veículos, pedestres e ciclistas.

Só podia passar quem tinha uma justificativa de trabalho, se não, devia-se dar meia volta. O documento de identidade da pessoa fica em posse da polícia até ela dar meia volta.

Kehl é normalmente uma cidade com grande fluxo de franceses, não só por causa das oportunidades de trabalho no setor de Engenharia, mas também devido aos preços mais baixos.  Antes do fechamento parcial da fronteira, alguns supermercados alemães em Kehl tiveram que repor seus estoques depois que as prateleiras foram esvaziadas pelos clientes temerosos frente à primeira onda de casos de coronavírus.

Uma das mais movimentadas avenidas de Estrasburgo, Allée de la Robertsau, que liga o Parlamento ao centro da cidade, nesta quinta-feira. (Créditos: Victoria Brotto/MigraMundo)

Segundo relatos de franceses, algumas escolas e universidades alemãs mandaram de volta os estudantes franceses. Uma família francesa que mora em Estrasburgo relatou que seus dois filhos, estudantes na Alemanha, tiveram que voltar. “Eles não querem mais nenhum francês lá”, relatou um membro da família.

A França, depois da Itália, é o principal país foco da epidemia no bloco europeu, onde o vírus está em mais alta proliferação, fato esse que levou a Alemanha a fechar suas fronteiras com a França pela primeira vez desde a criaçao do espaco Schengen, em outubro de 1997.

Ao cair do dia, um livro repousa, sozinho, sobre um banco na entrada de um dos principais parques de Estrasburgo. Poucas são as pessoas que passam ao redor ; um ou outro carro. O livro, esquecido ou como presente, ou como aviso ou simples ânsia de informar os compatriotas, anuncia o título: “Sobreviver às crises”, escrito pelo economista francês Jacques Attalli.

“A crise atual terminará um dia, deixando para trás inúmeras vítimas e alguns raros sobreviventes. No entanto, é possível vencê-la acumulando conhecimento e audaciosas estratégias para sobreviver”, diz a contra-capa.

Livro sobre como sobreviver a crises é deixado em banco de parque.
(Foto: Victoria Brotto/MigraMundo)

Porém não há ninguém para lê-lo, a rua, vazia, anuncia tempos de ausências de toda a ordem. Porém, as estações não se esqueceram de marchar; a Primavera nasce nas árvores trazendo robustas flores brancas, amarelas, azuis. Os pássaros, sem pausa, cantam acima das gentes todas, enclausuradas e silenciosas:

“ A confiança na realidade da vida, pelo contrário, depende quase exclusivamente da intensidade com que a vida é experimentada, do impacto com que ela se faz sentir”, escreveu Hannah Arendt, filósofa alemã, considerada uma das mais importantes pensadoras da História do Ocidente moderno, em seu livro “A Condição Humana” (1958).

Mais de meio século depois, este impacto da vida falado por Arendt atravessa a humanidade. E anuncia, assim, uma nova existência ainda não de todo revelada.


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1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns pelo texto, Victória. Para quem conhece Strasbourg, sua população e toda vida que nela pulsa, é impossível não conter as lágrimas, afinal, toda essa situação já tem nos deixado bastante sensibilizados. Que belo seria se, em várias cidades de todo o mundo, pessoas escrevessem sobre como a quarentena se refletindo em suas realidades.

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