Imagem de haitiano tomando banho ganha Prêmio Vladimir Herzog de direitos humanos; entidades e migrantes repudiam e fotógrafo argumenta

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O Prêmio Vladimir Herzog, considerado um dos mais importantes no reconhecimento dos direitos humanos no jornalismo brasileiro, incluiu entre os trabalhos premiados deste ano a imagem de um haitiano tomando banho de forma improvisada nas dependências da Missão Paz, em São Paulo, em 19 de maio deste ano.

Publicada nos jornais Agora e Folha de S.Paulo no dia seguinte, a imagem foi feita pelo fotógrafo Ronny José dos Santos e causou indignação junto a migrantes e outros envolvidos na temática migratória.

Na época da foto, São Paulo vivia um dos picos de movimentação de migrantes enviados do Acre para outros Estados de forma desordenada. Entidades que atuam na assistência à população migrante em São Paulo e outras localidades ficaram sobrecarregadas e mal tinham como acomodar quem chegava.

Igreja Nossa Senhora da Paz, na região do Glicério, onde fica a Missão Paz. Local é referência para imigrantes na capital paulista. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Igreja Nossa Senhora da Paz, na região do Glicério, onde fica a Missão Paz. Local é referência para imigrantes na capital paulista.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

“Tal premiação está abrindo um perigoso precedente de que mais importa uma foto em si do que os direitos humanos do fotografado. Nesse sentido, é possível destacar diversos outros trabalhos fotográficos que contribuem para a função social da mídia de informar e sensibilizar a população e o governo para a causa das imigrações, sem denegrir e violar direitos humanos”, diz o padre Paolo Parise, que dirige a Missão Paz.

A Missão divulgou uma nota de repúdio à premiação da foto (leia aqui na íntegra). Outra  nota de repúdio aos jornais Agora e Folha de S.Paulo já tinha sido divulgada no dia seguinte à publicação da foto, em maio passado. A instituição também colocou no ar uma petição pública contra a imagem (acesse aqui).

Migrantes se posicionam

A Organização Haitiana de São Paulo chegou a enviar uma carta à comissão do prêmio, pedindo que a escolha da foto fosse reconsiderada. “Comentamos aos jornalistas e fotógrafos ‘se gostariam que alguém entrasse em sua casa e fizesse fotos enquanto tomavam banho’. Conversamos com os haitianos que estavam no salão da igreja quando o fotógrafo bateu as fotos. Ele não pediu autorização. Muito mal educado, ele entrou no banheiro e fez as fotos. O haitiano foi embora de São Paulo com muita vergonha. Estamos triste como organização e como haitianos”, aponta trecho da carta.

Foto da Missão Paz em maio deste ano, quando a entidade teve picos de lotação por conta da chegada de migrantes do Acre. Crédito: Missão Paz
Foto da Missão Paz em maio deste ano, quando a entidade teve picos de lotação por conta da chegada de migrantes do Acre.
Crédito: Missão Paz

No mesmo documento, a organização informa que o fotógrafo não pediu autorização ao haitiano fotografado e que nenhum jornal ou emissora de televisão deu espaço ao repúdio feito pela comunidade.

O comunicador boliviano Antonio Andrade, responsável pelos portais Bolívia Cultural e Planeta América Latina, também criticou a publicação da foto. “Nossas dores não podem ser utilizadas como ferramenta de humilhação ou desvalorização do ser humano! O contexto deve ser mais profundo e menos banal! Como comunicador, acredito que a ética do profissional estará sempre a frente do comunicador que deve ter seus valores focados na humanização da informação e nunca na desmoralização da mesma”.

Apesar dos protestos das entidades, a organização do Prêmio Vladimir Herzog optou por manter a imagem como um dos trabalhos premiados deste ano. Em entrevista ao MigraMundo, a comissão organizadora expôs os motivos que embasaram a decisão (leia aqui).

Fotógrafo fala

Também procurado pelo MigraMundo, o fotógrafo Ronny Santos respondeu às questões abaixo sobre a imagem e as críticas que o trabalho recebeu. O texto está na íntegra, conforme respondido pelo profissional:

MigraMundo: Como você chegou à situação retratada na foto?
Ronny Santos:
Fui pautado pelo jornal Agora São Paulo, no início da noite do dia 19 de maio, para ir à igreja Nossa Senhora da Paz, no Glicério (região central), para reportagem sobre refugiados haitianos em São Paulo. O objetivo era mostrar a situação dos haitianos no local (já havia informações de que eles estavam dormindo de forma improvisada no salão da igreja). Cheguei ao local por volta das 20h. Havia um homem, brasileiro, voluntário da igreja, no portão controlando a entrada das pessoas. Passei com a máquina fotográfica por ele, que olhou e não falou nada. Já havia uma equipe de televisão no local, ou seja, o salão estava aberto à imprensa. Fiquei no local por mais de meia hora. Circulei por vários cômodos, fui visto trabalhando por voluntários e haitianos. Ninguém me abordou enquanto fazia as fotografias. Entrei em um dos banheiros e vi o haitiano se ensaboando com água do mictório. Nesse momento, não fiz fotos. O haitiano se escondeu atrás de uma porta expressa, clara, de que eu poderia fazer as fotos naquele momento. Ele olhou para mim e falou alguma coisa que não entendi, e logo depois fez um sinal com as mãos facilmente compreensível: “sem problema” ou “tudo bem”. E voltou a tomar banho comigo ali. Foi quando comecei a fazer as fotos. A sequência de fotografias é muito clara: ele me vê fazendo as fotos e sorri para a câmera ( imagem não divulgada) Em nenhum momento o personagem faz menção de proibir as fotografias ou usa as mãos ou os braços para indicar que não quer ser fotografado. Simplesmente continua tomando seu banho sabendo que as fotografias estavam sendo tiradas. Depois disso, saí e o haitiano continuou se lavando.

Diante da pessoa, da situação que você fotografou e do contexto no qual o momento estava inserido, qual foi seu sentimento?
Basicamente foi um misto de tristeza e revolta. Nunca na minha vida achei que presenciaria uma cena dessa

De onde veio a ideia de inscrever a foto no prêmio Vladimir Herzog?
O Prêmio Vladimir Herzog é o mais respeitado nacionalmente quando se trata direitos humanos e a foto retrata uma violação a esses direitos. Então achei que a imagem poderia concorrer à premiação.

Quando foi publicada, a foto recebeu críticas de entidades e pessoas ligadas à temática migratória. O mesmo aconteceu pouco antes da entrega do prêmio. Como você recebeu essas críticas e o que pensa a respeito delas?
A Missão Paz (ONG que cuida dos imigrantes haitianos) faz um trabalho belíssimo com eles aqui no Brasil, mas houve falhas, não por culpa deles e sim da falta de comunicação entre o estado do Acre e o município de São Paulo, que enviou 968 haitianos sem aviso. Entendo a posição das entidades e entendo as críticas, mas o desrespeito estava acontecendo e eu, profissionalmente, tive que fotografar. É importante lembrar, também, que o jornal fez questão de não publicar fotos com o rosto do personagem nem dar qualquer identificação dele, com o objetivo de preservar sua identidade.

Na sua opinião, que tipo de mensagem a foto que você tirou deixa à sociedade?
Na foto não existe um personagem, existe um povo. O Haitiano. Apesar da boa vontade, ainda existe um despreparo para a recepção dos imigrantes aqui no Brasil.

Você acredita que trabalhos como esse podem ajudar a despertar a sociedade e os governos para o drama vivido por migrantes, e também por quem tenta fazer o trabalho que ainda não é feito de forma suficiente pelo poder público?
Acredito sim. Por isso que foi importante a divulgação da imagem. Para todos terem ciência que não está sendo fácil e que toda ajuda será bem vinda.

 

 

 

2 COMENTÁRIOS

  1. É lamentável. Ele concluiu que os direitos humanos não estavam sendo respeitados(não por negligência da Entidade)e sem, sensibilidade nenhuma, desrespeitou ainda mais ferindo o imigrante na sua dignidade, por entrar no ambiente invadindo a sua privacidade e ainda ousou fotografá-lo num momento singular e sagrado de sua intimidade, a sua higiene, completando o desrespeito que julgou ter visto, mesmo sabendo de toda a situação e da casa lotada, incapaz de atendê-los. Estar expostos a olhares curiosos na sua intimidade é o que lamentavelmente já vivem sofridamente os moradores de rua, imagine-se ver-se fotografado. Imperdoável falta de sensibilidade. Ali, falou mais alto o “eu fotógrafo” ao desejar registrar a cena, ainda que com o visível constrangimento do imigrante. Ninguém permitiria isso, diga-se lá o que ele quiser. E a culpa parece ser do voluntário que o viu passar com máquina. “Não era só eu, havia outros lá.” Há “sins” e “nãos” que não precisam ser ouvidos, quando além do profissionalismo se tem a sensibilidade humana de colocar-se no lugar do outro e sentir o seu drama.

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