Imigrantes e países de acolhida: integração não é assimilação

Se integrar como imigrante numa nova sociedade não é anular a sua identidade

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atividade do Abraço Cultural, em São Paulo
"Não se pode considerar pessoas bem integradas se elas não se sentem à vontade no país". (Foto: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo)

Por Manuela Marques Tchoe

A tarefa de se integrar no país que nos acolhe não é tarefa fácil. Imigrar significa começar de novo – nova língua, novas regras, novos comportamentos sociais, novo clima. Novo tudo.

Na Alemanha, assim como países que enfrentam uma onda de imigração, a integração é um assunto necessário – e um tanto espinhoso. Não é só pela dificuldade de integrar tantas pessoas, mas em definir o que é integração. No meu caso, eu sempre me pergunto: estou mesmo integrada à sociedade alemã?

Pode parecer que, após quinze anos de Alemanha, a resposta seja sim. Mas não é assim tão simples. Como definir quando o imigrante está integrado ou não?

Intervenção para conscientizar sobre a migração na cidade de Halle (Alemanha), promovida pelo We Are Here Zürich. Crédito: Divulgação

Integração

Várias pessoas que conheço – brasileiras e de outras nacionalidades – não falam bem o alemão. Convivem o mínimo possível com os alemães, preferem a companhia de pessoas que vêm do mesmo país. Não são necessariamente guetos, mas é comum que pessoas da mesma nacionalidade fiquem nesses grupos.

Meus sogros, que são coreanos, são um exemplo. Em cinquenta anos de Alemanha, falam alemão e trabalharam a vida inteira aqui, mas convivem apenas com a comunidade coreana, só comem comida coreana, etc. Pode-se considerar essas pessoas integradas?

Integração não é necessariamente deixar a sua cultura para trás em favor de uma nova cultura. Quem é imigrante sabe que é preciso se adaptar a certos comportamentos sociais que são esperados, como a pontualidade no caso da Alemanha.

Se no começo a maioria dos brasileiros são impontuais, logo as pessoas entram na onda da pontualidade, porque precisam se adaptar para sobreviver por aqui.

Muitas outras coisas e comportamentos são absorvidos pelos imigrantes como forma de sobrevivência. Aqui na Alemanha, isso significaria se acostumar com planejamento de antecedência, ter certa organização, com o seguir de regras, com o respeito à mulher (ninguém vai ficar assobiando para mulher bonita na rua, por exemplo. Quem o faz é muito malvisto).

“Muitos comportamentos são absorvidos pelos imigrantes como forma de sobrevivência”
Crédito: Gordon Welters/ACNUR

Então por mais que certos comportamentos sejam considerados normais no país de origem, eles se transformam e podem até ser eliminados completamente com o tempo, principalmente quando interagimos com pessoas no âmbito público.

Mas isso não quer dizer que, ao modificar certos hábitos, que a cultura de origem seja anulada. Muito pelo contrário. Enquanto fora de casa muitos imigrantes se esforçam para se encaixar nos comportamentos esperados da sociedade, dentro de casa a história é bem diferente.

Entre quatro paredes, muitos imigrantes retornam à sua terra natal através da língua nativa, das comidas tradicionais e dos relacionamentos com pessoas da mesma cultura. Encontra-se conforto em estar com gente que tem os mesmos valores, gosta dos mesmos sabores e conhece a mesma música.

Ainda assim, é necessário para a grande maioria dos imigrantes tornarem suas crenças e hábitos mais visíveis para a sociedade. Muitas muçulmanas usam o véu, muita gente de origem indiana usa as vestimentas tradicionais, muitos templos, mesquitas, etc., são erguidos para auxiliar pessoas de diferentes crenças a ter um lugar onde possam orar.

Integração: um esforço de todos

Integração não é só um esforço dos imigrantes, mas também do país que os recebe. Não se pode considerar pessoas bem integradas se elas não se sentem à vontade no país, com vergonha de serem quem são em público. Integração é um esforço de todas as partes envolvidas: o país e a população que recebe precisa dar as condições necessárias para que imigrantes se adaptem; imigrantes precisam se esforçar para aprender a língua, trabalhar e pagar seus impostos, ter relacionamentos (nem que superficiais) com os nativos. Não dá para grupos imigrantes ficarem à parte de uma sociedade.

Como considerar quem está integrado e quem não? Acredito ser algo subjetivo demais para dar um parecer. Existem pessoas que trabalharão a vida inteira num país, falarão a língua perfeitamente, e ainda assim se sentirão insatisfeitas e mal integradas. Tem gente que mal chegou e já tem amigos nativos, aprendeu novos hábitos e está encaminhado para um curso na universidade ou emprego. É complicado definir quem está integrado e quem não está. A língua, no entanto, permanece essencial.

Tudo começa com o idioma. Sem ela, não dá para se integrar numa sociedade. E aí está a chave para a integração da maioria das pessoas, mesmo que seja um aprendizado que será cheio de percalços. Além do idioma, existem outras coisas que podem ser feitas, desde discussão sobre comportamentos sociais esperados até o papel da mulher na sociedade.

Os imigrantes que chegam na Alemanha – ou em qualquer outro lugar – se alemanizam um pouco e também deixam sua marca na sociedade.

Integração não é assimilação; integração é uma troca.


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