Índice aponta queda na aceitação de migrantes pelo mundo, puxada por latinos e europeus

Sete dos dez países menos receptivos a migrantes estão na Europa, mas índice também teve queda puxada por nações latino-americanas

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Venezuelanos cruzam a Ponte Internacional Simon Bolivar International, uma das que ligam o país à Colômbia. (Foto: Fábio Cuttica/ ACNUR)

A população mundial, em média, está menos propensa a aceitar migrantes de outros países. É o que mostra a atualização do Migrant Acceptance Index (Índice de Aceitação de Migrantes, em tradução livre), publicado pelo instituto de pesquisa de opinião Gallup.

De maneira geral, entre 2016 e 2019 houve diminuição na pontuação global do índice, de 5,34 para 5,21. Ou seja, a população mundial está aceitando menos os migrantes hoje do que há 3 anos.

O índice foi criado em decorrência do grande fluxo de migração na Europa em 2015, para medir a aceitação dos migrantes pelas populações nacionais em países de todo o globo.

Baseado em três perguntas, o índice foi feito pela Gallup pessoalmente e via telefone em 140 países em 2016 e 2017 e depois atualizado em 2019 com 145 países. As perguntas questionam se as pessoas acham que os migrantes viverem em seu país, se tornam seus vizinhos e se casarem com seus familiares são coisas boas ou ruins.

A soma das três questões forma o índice que varia de 0 a 9. Quando as três respostas são negativas a pontuação mínima de zero é atingida e ao responder tudo de maneira positiva, a pontuação alcançada é 9,0. Ou seja, quanto maior a pontuação, mais receptiva é a população daquele país em relação aos migrantes.

Latinos e europeus puxam queda

Os três países com a maior queda no índice são latinos. Segundo a pesquisa, parte disso pode ser explicada pela migração de venezuelanos para esses países. A ONU estima que pelo menos 5 milhões de venezuelanos deixaram o país rumo a outras nações em decorrência da crise generalizada em curso desde 2015.

Peru, Equador e Colômbia inicialmente receberam bem esses migrantes e refugiados. Com o passar do tempo, a opinião pública começou a mudar com o sentimento de que essa migração seria responsável sobre a pressão em seus sistemas públicos de educação, saúde e assistência social, além da própria economia.

Fonte: Gallup World Poll

“No Peru, Equador e Colômbia, as porcentagens caíram vertiginosamente nas três perguntas. Na Colômbia, por exemplo, a porcentagem de residentes que disseram que migrantes vivendo em seu país eram uma coisa boa caiu de 61% em 2016 para 29% em 2019. Sessenta e seis por cento dos colombianos foram favoráveis ​​a um migrante se tornar seu vizinho em 2016, mas apenas 45% foram em 2019. E, enquanto 59% dos colombianos achavam que um imigrante se casar com alguém de sua família era uma coisa boa em 2016, 40% disseram isso em 2019.” aponta o Gallup.

Enquanto a União Europeia (UE) estreia um novo pacto de migração, vários países do bloco encabeçam a lista dos países menos receptivos do mundo. Além disso, onde partidos de direita anti-imigração continuaram a ganhar terreno desde 2016, como a Bélgica e a Suíça, grandes quedas na pontuação são observadas.

A Índia, que em 2019 começou a aplicar novas possibilidades para cidadania de migrantes, exceto muçulmanos, também apresentou uma queda significativa no índice. Entretanto em alguns países a aceitação aumentou.

Ao contrário de outros países que acolheram venezuelanos, o Chile teve um crescimento de mais de 1 ponto. Porém, apesar do país servir atualmente de residência para centenas de milhares de migrantes e refugiados venezuelanos, o Chile não recebeu tantas pessoas como os países vizinhos a Venezuela e, inicialmente, foi procurado  por migrantes com maior nível educacional que tinham recurso para viajar para mais longe, inclusive muitos médicos, o que influencia positivamente a opinião pública.

Fonte: Gallup World Poll

Já na Moldávia, que apresentou o maior aumento, a aceitação pode ser explicada ao influxo de trabalhadores migrantes turcos, azerbaijanos e uzbequistaneses para o país. A maioria desses trabalhadores estava contratada por empresas estrangeiras que trouxeram fundos da União Europeia para diferentes projetos de desenvolvimento.

Assim como outros europeus, a Polônia voltou contra o pacto de migração das Nações Unidas em 2018 e apresentou um baixo índice em 2016. Entretanto, apesar de continuar com uma baixa pontuação, o país viu sua média aumentar 0,90 nesses 3 anos. Nesse período o percentual de poloneses que passaram a ver os migrantes que viviam em seu país como uma coisa boa aumentou de 28% para 42%; como seus vizinhos de 26% para 38%; e como membros de suas famílias de 23% para 27%.

Os países mais e menos receptivos

A lista dos países menos receptivos de 2019 é encabeçada por sete países europeus, incluindo estados-membros da UE, como Hungria, Croácia, Letônia e Eslováquia, estados que também estavam nesta lista em 2016.

Fonte: Gallup World Poll

A Turquia, que não compôs a lista 3 anos atrás, abriga atualmente cerca de 4 milhões de refugiados e migrantes. Segundo a pesquisa, é provável que essa queda na aceitação dos turcos se deva ao  ônus que o país assumiu com o acordo de 2016 – o qual fracassou desde então – com a UE para manter refugiados em seu território. 

Assim como a lista dos menos receptivos, a lista dos mais acolhedores não apresentou grandes mudanças em sua composição, com exceção de Burkina Faso, Chade e Irlanda que entraram para o grupo. Quanto às posições,  o Canadá, ultrapassou a Islândia e a Nova Zelândia em 2019 e agora está no topo da lista como o país com maior aceitação do mundo, com uma pontuação de 8,46. Com 7,95 pontos, os Estados Unidos garantiram a sexta colocação.

Canadá e EUA

Canadá e Estados Unidos permaneceram entre os países do mundo que mais aceitaram migrantes em 2019.

Ambos os países têm uma longa história como países receptores, mas nos últimos anos, as políticas de cada um seguiram direções opostas. Enquanto o Canadá estava prestes a admitir mais de 1 milhão de residentes permanentes entre 2019 e 2021, com metas aumentando a cada ano – plano que foi desacelerado por conta da pandemia -, estima-se que o governo Trump tenha cortado a imigração legal pela metade desde o início do mandato.

Mais de 90% de canadenses deram respostas positivas às três perguntas. Sobre migrantes vivendo em seu país, o percentual foi de 94%, muito parecido com os 95% que viram como positivo terem vizinhos de outros países; por fim, 91% disseram que um migrante se casando com um familiar seria uma boa coisa. 

Os estadunidenses apresentaram respostas semelhantes, mas em menor escala. Nove em cada 10 disseram que um migrante morando em sua vizinhança seria uma coisa boa, 87% demonstraram gostar da ideia de migrantes morando em seu país e 85% disseram ser positivo o casamento de alguém de outro país com alguém de sua família.

Além disso, o estudo constatou que a aceitação é maior entre aqueles com maior escolaridade e entre aqueles que vivem em áreas urbanas nesses dois países.

Por outro lado, enquanto no Canadá não houve diferenças estatísticas reais por faixa etária, nos Estados Unidos, a aceitação foi maior entre os americanos mais jovens e diminuiu com a idade. Entre os estadunidenses com idades entre 15 e 29 anos, a pontuação do índice foi de 8,34 – ou seja, pontuação que garantiria a terceira posição no índice. Entretanto, entre aqueles com 65 anos o índice foi de 7,37.

Por fim, o estudo analisou a relação da aceitação da população com suas vertentes políticas.

“Como em 2017, a aceitação de migrantes em ambos os países continua polarizada. Nos EUA, aqueles que aprovaram o desempenho de Trump no trabalho pontuaram 7,10 de 9,0 pontos possíveis no Índice de Aceitação de Migrantes, enquanto aqueles que desaprovaram obtiveram pontuação de 8,59 no índice. No Canadá, aqueles que aprovaram o desempenho de Trudeau no trabalho pontuaram 8,73, enquanto a pontuação foi de 8,21 entre os que desaprovaram” constatou a publicação.

No entanto, parece que essas mudanças nas políticas não mudaram drasticamente a aceitação dos migrantes pela maioria das pessoas fazendo com que os países tivessem uma melhora em seus índices e, consequentemente, em suas posições.


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