Inteligência cultural: como perceber e aproveitar o potencial da diversidade

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Roda de conversa na av. Paulista foi contraponto às manifestações xenófobas que ocorreram no local dias antes (mai/2017). Também serve como exemplo de inteligência cultural. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Para a inteligência cultural ser colocada em prática, não é preciso nem atravessar fronteiras, pois o diferente está logo ao lado

Por Debora Draghi
Em Curitiba (PR)

Em um mundo cada vez mais global, onde problemas cruzam as fronteiras, são necessárias pessoas que saibam lidar com a diversidade e tirem o máximo potencial disso, pois o diferente sempre agrega. Com isso, entra a inteligência cultural, que pode ser explicada como a capacidade individual de saber navegar em situações culturais diversas.

A cultura pode ser definida como qualquer grupo de pessoas que tem uma maneira comum de ver e entender o mundo; o modo como uma pessoa fala, gesticula, se locomove e percebe o ambiente é altamente influenciado por sua cultura, que também molda a maneira como as pessoas pensam e agem. Por conta disso, um tipo de comportamento pode ser interpretado ou mal entendido de acordo com a cultura daquele que o percebe.

Mas por que usar a inteligência cultural (ou simplesmente IC)? Estudos mostram que 70% dos empreendimentos internacionais continuam a dar errado por causa de diferenças culturais, sendo que as maiores necessidades são entender pessoas diferentes e desenvolver um profundo respeito pelo ser humano, não importa de onde venha. O conhecimento de IC começa pelo reconhecimento do papel da cultura nos pensamentos, nas atitudes e nos comportamentos dos indivíduos. Pessoas com inteligência cultural mais desenvolvida se misturam melhor em um ambiente e atingem os objetivos desejados com mais facilidade.

Oficina sobre não discriminação, da Warmis, durante o Migrantes nas Periferias (set.2017).
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Cada vez mais, a necessidade de desenvolver a inteligência cultural se faz presente. Para as pessoas com I.C mais avançada, a heterogeneidade, ao invés de ser apontada como ameaçadora, é vista como enriquecedora, criativa e que engrandece todos os que estão ao redor. Em tempos de intolerância, xenofobia e racismo, cultivar a inteligência cultural dá a possibilidade de se abrir ao desconhecido, livrando-se de estereótipos e preconceitos tão arraigados, e ao mesmo tempo tão equivocados na sociedade atual.

Para a inteligência cultural ser colocada em prática, não é preciso nem atravessar fronteiras, pois o diferente está logo ao lado, vindo de um país diferente, seja por relacionamento, enviado a trabalho, estudos, em busca de uma vida melhor, fugido de guerra, falta de oportunidades, fome ou segurança. Em situações assim, cabe aos nacionais do país receptor acolherem e estarem abertos para quem abandonou tudo em busca de uma vida melhor, ou simplesmente, em busca de sobrevivência.

Ter inteligência cultural se faz necessário, por exemplo, ao se deparar com refugiados, vindos de uma realidade completamente diferente, contando histórias inimagináveis e tendo passado por situações atrozes. Em momentos assim, navegar em meio ao desconhecido e tratá-los da maneira mais acolhedora e flexível é essencial, de modo que esses migrantes sintam-se integrados na sociedade, pois a inteligência cultural não pode existir sem um pouco de amor pelo mundo e pelas pessoas. Mas cuidado para não ver a I.C como um belo ideal e perder a relação que ela tem com demonstração de resultados!

Roda de conversa na av. Paulista foi contraponto às manifestações xenófobas que ocorreram no local dias antes (mai/2017). Eventos como esses são exemplos de práticas de inteligência cultural
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Já que não há como mensurar níveis de inteligência cultural, pode-se dizer que esse tipo de qualificação é algo que deverá ser desenvolvido por toda a vida, afinal, são novas experiências que aprofundarão seu conhecimento a respeito do assunto, e não há como prever imprevistos ao longo da jornada. Pessoas culturalmente inteligentes tem uma grande capacidade de observação, e de certa forma, pode-se dizer que são mais desapegadas de suas culturas. Isso não significa que os costumes de seus países de origem não sejam importantes, mas é mais fácil para se adaptarem a um novo contexto ou pessoas provenientes de um país diferente do seu. A inteligência cultural fomenta a tolerância e uma disponibilidade maior para interações. No entanto, a I.C deve ir muito além da tolerância: esse termo pode simplesmente significar “suportar” outra pessoa, ao invés de ir além e fazer alguém compreender e saber das necessidades alheias.

Dentre as maiores utilidades de I.C, pode-se mencionar adaptar o estilo de liderança, mostrar um profundo respeito pelo ser humano e recrutar e desenvolver talentos de várias culturas, pois não existe uma cultura uniforme global. Identificar trabalhadores globais é algo essencial para os recrutadores, que procuram pessoas que saibam navegar por diferentes culturas, sejam elas organizacionais, étnicas ou nacionais, pois o nível de interesse em se conectar com a cultura e as pessoas locais como um todo afetará diretamente os resultados de um relacionamento ou trabalho, de maneira sutil, porém profunda, sendo que a habilidade de se engajar pessoalmente e de seguir em frente diante dos desafios interculturais é um dos mais novos e importantes aspectos da I.C. Ignorar as diferenças culturais nos torna pessoas irrelevantes.

No entanto, deve-se ter cuidado antes de entrar em outros contextos culturais para não impor sua visão. É importante reconhecer as características humanas compartilhadas entre nós. A flexibilidade e o poder de adaptação são dois fatores chaves para um relacionamento intercultural mais eficaz. Criar consciência é a simples norma de ver aquilo que, de outra maneira, poderíamos ignorar. A Inteligência cultural é mutuamente benéfica!

 

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