Já me perguntaram se eu era haitiano: angolano conta como lidou com racismo no Brasil

Durante o período em que residiu no Brasil, o então estudante de Enfermagem Miranda João Bambi viveu diferentes situações de racismo. Ele conta como fez para lidar com tais obstáculos

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O angolano Miranda João Bambi, que se formou em Enfermagem no Brasil e enfrentou questões ligadas ao racismo, assim como outros negros no Brasil. (Foto: Vitor Lelis Gallo Pedrosa)

Por Vitor Lelis Gallo Pedrosa*

Além de estudar Enfermagem, o agora enfermeiro Miranda João Bambi, 25, também teve o triste aprendizado sobre o que é racismo no Brasil.

Nascido em Angola, viveu por cinco anos em terras brasileiras e voltou ao país natal antes da explosão da pandemia de coronavírus. Mas esteve por aqui tempo o suficiente para elencar uma série de situações que exemplificam o preconceito e discriminação que permeiam a sociedade brasileira.

Já prestes a se formar, Miranda concedeu entrevista da casa em que viveu em Lins, no interior de São Paulo, com outros 14 angolanos estudantes no país — ele se formou pelo Unilins (Centro Universitário de Lins). Embora tenha se adaptado bem ao país, a questão racial o faz pensar duas vezes em se estabelecer por aqui com a família. Por outro lado, deixa seu recado a outras pessoas sobre como lidar com as situações de racismo que vivenciou.


A cultura brasileira tem muitas raízes na cultura africana. Como você se sentiu quando chegou ao Brasil? Sentiu uma identificação com a cultura daqui?

É verdade que grande parte da cultura brasileira é oriunda das culturas africanas, é uma miscigenação das culturas africanas e europeias. Elas têm algumas coisas em comum e isso me ajudou a me adaptar ao país, pois eu me senti a vontade em vários aspectos. As culturas não são distantes, existem muitas particularidades que tornaram a fase de adaptação mais fácil, como o clima e a comida, que foram fatores muito importantes.  

A taxa de pessoas negras em cargos de importância no Brasil é baixa, assim como a representação na mídia, na política e na sociedade de um modo geral, como você analisa tais fatos?

A minha percepção é que está diretamente ligado a questões da escravidão, pois nos deparar com situações desse gênero em um país de maioria negra me leva a acreditar que o negro ainda é visto como alguém inferior e não está livre da escravidão pois ainda é submisso.

No Brasil ainda não aceitaram que uma pessoa negra é igual á uma branca, a ausência de negros em cargos políticos e a baixa presença na mídia consistem na visão de superioridade do povo branco, porque não há justificação para tais fatos. Acompanhamos o caso da Maju (jornalista da TV Globo) que incomodou muita gente pelo fato de uma negra apresentar o jornal de maior relevância no país que evidencia isso.

A minha língua é da mesma cor que a de outras pessoas, o meu cérebro é da mesma cor, mas ainda assim em uma disputa por vaga de emprego entre um negro e um branco os brancos levam vantagem, não é justa a diferença de tratamento vista no Brasil, o racismo ainda está enraizado na mente das pessoas, a visão que eles tem do negro é como um escravo e isso precisa ser mudado. 

De quais maneiras o racismo se apresenta a você? Você pode dar um exemplo de uma situação desagradável que passou por ser negro?

O racismo se apresenta de várias formas no Brasil, por meio de expressão facial ou de falas que para quem diz pode não ser algo significativo, mas você sente que há um pensamento racista, se apresentando de maneira velada, invisível, como se fosse um vírus incubado em alguém que se manifesta em determinados momentos. É percebido quando você frequenta algum ambiente normalmente frequentado por brancos, como por exemplo um bar, restaurante ou algo do gênero, as pessoas te olham de uma maneira que é como se pensassem: ”o que esse cara veio fazer aqui? Será que veio pedir alguma coisa? Esmola ou alguma coisa assim?”. São algumas particularidades vividas pelos negros e que eles enfrentam diariamente nos mercados, nos shoppings, lojas…

Eu já passei por várias situações, uma coisa que aconteceu recentemente foi quando eu estava indo para a faculdade com livros nas mãos, era por volta das 19h e uma senhora, ao me ver, atravessou a rua e foi para o outro lado da calçada. Após alguns metros ela retornou ao lado da calçada em que eu estava porque o carro dela estava estacionado lá, ela pensou que eu ia fazer algum mal pra ela. Eu pensei ”meu Deus do céu, isso é possível?” . O tom de pele negra é um problema pra sociedade brasileira e está associado a coisas ruins. 

O angolano Miranda João Bambi: “O racismo ainda está enraizado na mente das pessoas”.
(Foto: Vitor Lelis Gallo Pedrosa)

O Brasil é um país no qual 54% da população é negra, mas o racismo está enraizado na sociedade por questões históricas. Quais são as diferenças entre a vida de um negro na Angola e no Brasil?

Você nem tem noção da diferença, em Angola nós temos os nossos problemas, mas nós somos muito felizes, somos muito patriotas. Em um contexto mais amplo, o negro no Brasil vive oprimido, porque a cor da sua pele é mal interpretada perante a sociedade, as condições de vida são muito precárias por falta de oportunidades. O negro em Angola é tratado normalmente, pois lá quase todos os habitantes são negros, existem alguns tipos de discriminação mas não da maneira como é aqui no Brasil. Os estudantes africanos que se encontram no Brasil não se tratam com diferença, eles se abraçam e se unem, para o negro brasileiro sentir tudo isso ele precisa de menos preconceitos e mais oportunidades, pois esse é o caminho para mudar as coisas. Em Angola, que é um país negro, nós nos sentimos iguais e aqui nos sentimos inferiores, pois aqui um negro é um faxineiro, um garçom, uma diarista, um segurança, mas raramente é um político, um médico, um advogado.

Você moraria com a sua família e criaria os seus filhos no Brasil?

Olha, atendendo ao contexto social brasileiro eu acho que enfrentaria morar no Brasil, mas pensaria duas vezes. O Brasil é um país mais desenvolvido que Angola, mas eu cresci lá e todas as minhas raízes estão lá, a minha felicidade está lá, então é uma incógnita, porque eu sei que meus filhos vão passar por situações aqui que eu não gostaria pelo fato de serem negros, eu gostaria de criá-los em um ambiente em que eles possam se sentir felizes, e eu não sei se o Brasil seria o lugar ideal. O preconceito que eles poderiam vir a sofrer (pausa para cumprimentar um amigo que chegou na casa no momento da entrevista) me faz repensar a possibilidade de estabelecer uma família aqui.

Na sua visão, o fato de ser estrangeiro ameniza ou agrava o racismo?

Estando inseridos na sociedade brasileira, tanto o estrangeiro quanto o brasileiro sofrem. Mas fato de ser estrangeiro acaba agravando, na minha visão, o preconceito, quando percebem que você é estrangeiro já perguntam ”você é haitiano né? Como é lá, vocês passam fome mesmo?” Alguns falam ”nossa você fala diferente, você não é daqui, como você aprendeu a falar português?”, eu acho que existe uma ignorância por parte de sociedade, porque se nós formos ver, em Angola nós aprendemos na escola sobre outras culturas, eu conheço o Brasil desde os meus dez ou 11 anos, isso faz parte do nosso ensino de base e aqui isso não acontece. Se você pegar um brasileiro, e perguntar pra ele quantos estados têm o Brasil, quantos continentes têm no mundo ou quantos países falam português, muitos deles não sabem responder porque não aprenderam. 

De que maneira você avalia a qualidade de vida de um negro no Brasil?

A qualidade de vida de um negro no Brasil é precária, pelo que eu tenho me deparado nesses anos é que a maior parte da população negra no Brasil vive em condições péssimas, e os dados provam isso.

Como é vir de um país de origem negra, viver até os 20 anos na Angola sem saber o que é ser discriminado pela cor da sua pele e agora ter que lidar com o racismo em um outro país?

Eu acho que o impacto é muito grande, é como se fosse você acostumar o seu filho dando tudo que ele pede e amanhã ele pedir alguma coisa e você não dar, a reação que ele sente é a mesma sensação que um negro estrangeiro sente quando se instala no Brasil e começa a se deparar com algumas situações. O negro brasileiro já nasce sendo inferiorizado, já nasce sendo oprimido dentro do seu próprio país e com limitações impostas. Você estar em um meio social onde você é aberto com todo mundo, onde você é abraçado, e chegar em um outro meio em que há restrições, você se sente desconfortável. É como você ter um sentimento e amanhã não ter mais. O impacto é muito relevante, porque você passa por situações nunca vividas antes e que a partir de um momento você começa a se deparar com aquilo, e é algo que machuca muito porque você não tá acostumado a presenciar e não sabe lidar, são questões muito negativas, ter que incluir isso no seu cotidiano e assimilar que a qualquer momento você está sujeito a sofrer tal tipo de ato é desconfortável.

Qual é o sentimento de lembrar da barbárie que foi a escravidão?

Recuando no passado, são questões que nenhum negro gostaria de relembrar, porque foi um período muito triste para a humanidade. Claro que quem usou a força para submeter alguém muitas vezes encara isso na normalidade, mas se os europeus não fossem nos territórios negros e com a sua força tirar o africano de lá, o mundo teria uma visão mais conceituada e não teriam tantas disparidades e desigualdades no contexto social. O branco foi lá, tirou os africanos de suas terras, e depois largaram-os, não valorizaram o negro após a abolição da escravatura. O sentimento é de tristeza englobando um pouco de raiva, porque depois da abolição o negro não foi integrado na sociedade, foi desprezado, o que nos deixou a deriva na sociedade, e isso gerou a desigualdade encontrada hoje. Se tivesse tido uma integração, as coisas estariam em um nível mais aceitável, são questões que causam revolta e muita tristeza. 

Negros representam 71% das vítimas de homicídio no país. Como você se sente quando você vê o povo negro sendo maltratado?

[Expressão de tristeza] Cara, isso comprova a não valorização do negro, se o negro fosse visto como um indivíduo, isso não aconteceria com tanta frequência aqui no Brasil, o maior sentimento de ver isso é tristeza e revolta, mas você não pode fazer nada, se sente impotente, é deplorável ver situações do gênero. Recentemente um jovem no Rio de Janeiro foi baleado pelas costas pela polícia, são casos que chocam muito e nós estamos cientes que não acontecem pra todo mundo, acontece pra população negra, parece que somos alvos, como se fosse uma tentativa de extermínio. É muito triste ver essas coisas, e é algo muito frequente no Brasil, são coisas que nos levam a pensar ”será que isso vai acontecer comigo amanhã?” Vivemos em um país oprimidos, com medo que aconteça algo conosco, é muito triste pensar nisso, lidar com isso, o pai de família que foi baleado pelo exército recentemente estava indo para um chá de bebê e foi confundido com bandidos, ele não imaginava que ”de pé pra mão” teria um tiroteio, é sempre o negro que é confundido com o bandido.

O Brasil possui um programa de cotas raciais para ingresso em universidades e para concursos. Você entende que essa é uma forma de diminuir a desigualdade ou considera desnecessário?

Eu tenho duas concepções, vejo nas cotas um ponto positivo e um ponto negativo. O ponto positivo seria tentar cessar um problema que está nas raízes, e o oposto é que isso não ameniza, eu acho que aumenta a desigualdade porque as pessoas vão enxergar aquele negro na faculdade como uma pessoa que precisou de uma ajuda para estar ali, vai manter a visão de superioridade nas pessoas brancas. Por outro lado, o negro chega para concorrer em desvantagem pelo fato de ter sido inferiorizado durante a sua vida. Acho que a única forma viável de mudar esse quadro é dando oportunidade ao negro desde o momento em que ele está a conhecer o mundo, nas escolas, no ensino de base. As cotas ajudam a sociedade negra a se inserir em alguns setores em que são minorias, mas o negro tem a mesma capacidade de qualquer outra pessoa e merece não ter que precisar das cotas para atingir seus objetivos. 

Miranda João Bambi: “Vamos lutar por uma nova era de felicidade, longe do racismo e do preconceito que só nós sentimos”.
(Foto: Vitor Lelis Gallo Pedrosa)

Como as pessoas no Brasil enxergam a cultura dos países africanos? Você já teve problemas ao deparar com a falta de conhecimento dos brasileiros a respeito?

Existe um déficit na educação de base do Brasil, muitas pessoas não sabem que a África é um continente, eles acham que é um país, se referem como se fosse um país. E veem como um lugar de miséria e dificuldades, enquanto a África é um continente com 54 países, com uma diversidade cultural grande e enormes riquezas, fato que levou à exploração dos europeus. Há uma lacuna na educação, é muito frequente você se deparar com perguntas como ”na África tem carro?” ou ”vocês andam de elefante?”, o povo brasileiro é muito ignorante em relação ao nosso continente, a mídia exalta a miséria da África em vez das coisas boas, e é essa a imagem que as pessoas têm.

Como você enxerga a colonização, o processo de independência tardio angolano e a atual situação política do país?

Acho que o processo de independência tardio prejudicou muito o desenvolvimento de Angola. O nosso país tem uma espontaneidade e uma diversidade muito bonita, a alegria, irmandade, patriotismo, suas riquezas, tudo isso colabora para que lá estivesse muito melhor para se viver. Em contrapartida, o processo de colonização e pós-colonização foi difícil, a independência ocorreu em 1975, recente, e depois desse período os movimentos que lutaram contra a colonização não entraram em acordo sobre quem assumiria o país, e houve guerra e conflito armado entre os patriotas, fato que levou a um retardamento do desenvolvimento e crescimento de Angola. O país está em fase de desenvolvimento e crescimento, com poucos anos de paz, mas é um país muito bonito e a má administração de governos recentes afetou bastante a vida do povo angolano.

A situação atual parece que é melhor, com o atual presidente (João Lourenço) acredito que as coisas estão a melhorar, suas ações demonstram preocupação com a qualidade de vida do povo angolano, estamos aguardando, pois ele está a trabalhar e agora é esperar que ele faça a diferença pra ver se o nosso país melhora. Pelo tanto de riquezas que Angola tem sua população merece uma qualidade de vida melhor do que a atual, somos muito esperançosos e clamamos por uma Angola melhor em um futuro breve.

Que conselho ou palavra amiga você daria aos negros que vivem no Brasil?

Eu diria que nós somos iguais a qualquer outra etnia. Eu sei que não é fácil viver em uma sociedade em que você sofre discriminação, mas seja você mesmo, você é capaz de alcançar muita coisa boa, faça sempre diferente, sempre esteja com um sorriso no rosto porque de onde eu venho nós somos assim, nós temos potencial para qualquer coisa, busquem as oportunidades e façam a vida valer a pena. O meu conselho é: sejamos felizes independentemente da circunstância, não deixem que tirem de vocês a esperança, ser negro não é ser inferior, as pessoas implantaram isso e nós não podemos aceitar, nós somos iguais. Vamos lutar por uma nova era de felicidade, longe do racismo e do preconceito que só nós sentimos.

Vitor Lelis Gallo Pedrosa é estudante de Jornalismo da Universidade Mackenzie. A entrevista foi publicada a partir de uma parceria do MIgraMundo com estudantes de disciplinas na instituição que são ministradas pela professora Patrícia Paixão


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