Minha primeira vez na Festa do Imigrante

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Sei que isso vai soar como uma heresia, mas até este sábado (26) eu nunca tinha ido à Festa do Imigrante, já tradicional no calendário de São Paulo. Já tinha passado da hora de ver esse evento com meus próprios olhos, ainda mais considerando meu envolvimento com a temática. E sim, valeu a pena cada momento – seja pela festa em si, seja pelas reflexões que dela vieram.

Palco onde aconteciam as apresentações culturais da Festa do Imigrante. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Palco onde aconteciam as apresentações culturais da Festa do Imigrante.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

O tempo no sábado estava chuvoso e frio, mas isso não foi empecilho para que eu e mais um punhado de gente formasse uma longa fila para entrar na festa – e que assim se manteve ao longo do dia.

Durante as horas que passei na Festa do Imigrante, era preciso tomar cuidado para não esbarrar no prato ou bebida de outra pessoa. Para alguns essa lotação pode ser uma amolação, um motivo para queixa; eu já prefiro pensar no lado positivo de ver tanta gente em um mesmo lugar, atrás de comidas típicas deste ou daquele país e acompanhando apresentações culturais diversas – e tendo a oportunidade de aprender um pouco com elas.

Mesmo com o frio e a chuva, filas e fluxos de pessoas se misturavam na Festa do Imigrante. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Mesmo com o frio e a chuva, filas e fluxos de pessoas se misturavam na Festa do Imigrante.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Almoço turco e sobremesa peruana

Dentro da festa, era difícil escolher entre tantas opções de pratos, lanches, bebidas e doces. Também pudera, eram cerca de 40 nacionalidades representadas, cada qual com suas iguarias e histórias por trás de sua criação e preparo – em alguns pontos era difícil distinguir a fila das pessoas que estavam de passagem.

Entre tantas opções, acabei ficando com um prato bem servido que me chamou a atenção assim que o vi: chamado de lanche turco, era composto de contra-filé em tiras (com tempero tradicional, levemente picante), pão sírio, acelga, picles e cebola. Valeu cada centavo dos R$ 15 que paguei. A sobremesa, como bom chocólatra, ficou por conta de uma mousse de chocolate comprado em uma das barracas do Peru na festa – bem cremoso, com gosto suave, dava para comer mais uns quatro potes sem ficar enjoativo.

Uma visitinha no Museu e no Arsenal

A Festa do Imigrante não se resume à grande variedade de comidas típicas. Além das apresentações culturais de dança e música, também era possível levar para casa um pouco de cada cultura presente ali, por meio dos stands de artesanato, e também conhecer um pouco das duas instituições que atualmente dão vida (literalmente) à antiga Hospedaria: o Museu da Imigração e o Arsenal da Esperança.

Fiquei feliz em ver que havia uma fila considerável para visitar a exposição permanente Migrar: Experiências, Memórias e Identidades, que procura colocar o visitante no papel do imigrante e no cotidiano da antiga Hospedaria. Mesmo para quem já é iniciado no tema é possível se surpreender com o material ali exposto. Estive presente na reabertura do museu, mas decidi entrar novamente na exposição, sem a preocupação de fazer uma reportagem ou ouvir outras pessoas: era hora de ter um momento próprio, imerso dentro da temática que acompanho e me conquistou em definitivo há dois anos atrás.

Sem pressa, foi possível notar elementos que tinham passado batido na primeira visita: filmes e infográficos diversos; saber um pouco da existência de outras hospedarias para imigrantes (tão diferente de hoje, onde contam-se nos dedos os locais oficiais para receber que vem de fora); parar para escutar um pouco dos depoimentos disponíveis e olhar as fotos das comunidades que hoje dão continuidade ao movimento migratório ali retratado; deu até para achar um dos meus sobrenomes no mural que reúne um pouco daqueles que já passaram pela Hospedaria.

Mural no Museu da Imigração traz um pouco daqueles que passaram pela Hospedaria. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Mural no Museu da Imigração traz um pouco daqueles que passaram pela Hospedaria.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Antes de ir embora ainda foi possível saber um pouco sobre o Arsenal da Esperança, casa de acolhida que recebe 1.200 pessoas por noite. Dava para entrar em um dos pavilhões, no qual centenas de beliches estavam prontas para receber seus ocupantes. Tudo muito bem organizado e a certeza de que será preciso voltar novamente, com mais tempo, para conhecer mais e melhor sobre o local que faz parte da velha Hospedaria continuar a manter a função para a qual foi construída.

Juntas, a Festa do Imigrante, o Museu e o Arsenal da Esperança permitem uma experiência riquíssima de compreender melhor um fenômeno que acontece bem na frente do nosso nariz – e do qual certamente você é um fruto direto ou indireto. Bate até uma certa tristeza em imaginar que certos visitantes apenas querem chegar, comer aquele doce ou prato “diferente” e ir embora, sem absorver um pouco que seja da mensagem que esse trio passa.

Por outro lado, com certeza há aqueles que, depois dessa experiência, passam a ter um outro olhar, mais humano e menos estereotipado, sobre as migrações. Acredito que essa é a grande mensagem que o evento tenta transmitir, por meio da pluralidade de culturas e vivências contadas e ali presentes. A Festa só volta no ano que vem, mas o Museu, o Arsenal e as migrações continuam.

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