‘Mulher, migrante e ex-guerrilheira: colombiana na França recorda trajetória

A colombiana Ligia Vásquez vive hoje na França, onde se refugiou há 33 anos após integrar o M-19, uma dos guerrilhas urbanas mais conhecidas na Colômbia nos anos 80. Ao MigraMundo ela falou de exílio, refúgio na Europa e de seu trabalho na Comissão da Verdade colombiana

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A colombiana Lígia Vasquez, fundadora da Casa América Latina, que fica em Estrasburgo (França). (Foto: Victória Brotto/MigraMundo)

Por Victória Brotto
De Estrasburgo (França)

Um time de futebol vestido de verde jogava futebol a poucos metros da Embaixada da República Dominicana em Bogotá, na Colômbia. Era 27de fevereiro de 1980, e o país, liderado por Julio César Turbay Ayala. Uma época repressiva e um governo suspeito de fraude eleitoral, suspeita essa que recaíra sob todos os processos eleitorais na Colômbia.

Seria uma tarde como qualquer outra, mas não o foi pelo simples fato que, dentro de suas sacolas de esporte, metade dos jogadores tinham armas roubadas do Exército colombiano e faziam parte de uma das mais conhecidas guerrilhas urbanas de esquerda das décadas de 70 e 80, o Movimento 19 de Abril, ou M-19 (ou apenas ”o M”).

O nome fora dado em reposta às suspeitas de fraudes das eleições presidenciais ocorridas no dia 19 de Abril de 1970.

(A Colômbia viu nasceu a partir da década de 1960 diversos grupos gerrilheiros, de diversas tendências políticas, no campo e nas cidades, um deles, além do próprio M19, é as Farc, exemplo mais conhecido.)

Assim que o embaixador dos EUA, um dos convidados para a festa na embaixada, estava a chegar, os guerrilheiros foram informados de sua chegada e tomaram o seu carro, indo entao para a embaixada. Em pouco tempo, a guerrilha tomou o prédio.

A tomada da embaixada durou 61 dias, ocupando as páginas dos jornais colombianos e do mundo inteiro dando visibilidade ao M-19. Com o desgaste dos dias, o grupo acabou se rendendo e soltando os presos, porém tempos depois, ainda presos, eles fecharam um acordo de anistia com o governo .

 O acordo de anistia, que não atenderia 100% das exigências iniciais. Entre elas, estava a soltura de 311 presos políticos e o pagamento de 50 milhões de dólares.

Depois de soltos os 57 reféns, os guerrilheiros e guerrilheiras (10 homens e 6 mulheres)  conseguiram ser anistiados, viajando para Cuba, onde lhes ofereceram asilo político.

Uma das guerrilheiras do grupo e participante de algumas atividades da Inteligência do M-19, era Ligia Vásquez, conhecida como “Maria”. Naquela tarde em Bogotá, ela não estava no campinho na hora da invasão, mas sim dentro do prédio da embaixada, onde muitos embaixadores seriam feitos reféns, inclusive o do Brasil, na época Geraldo Eulálio do Nascimento e Silva, que levou um tiro de raspão.

Apesar do cativeiro e do tiro, Nascimento e Silva, ao depor sobre o ocorrido, disse guardar boas recordações: “Fiquei amigo de vários. Eles tinham razão em muita coisa. As posições sociais deles eram perfeitamente compreensíveis , disse em texto publicado pelo jornal Folha de S.Paulo.

Quarenta anos se passaram e o MigraMundo encontrou Ligia (Maria do M-19) vivendo em Estrasburgo, na França, em um apartamento cheio de livros, um gato preto e ”casada com o inimigo” (palavras dela) – no caso, um francês.

Lígia Vásquez chegou na França há 33 anos e há mais de 20 anos é cidadã francesa, sendo que viveu os primeiros quase 10 anos como exilada política. Hoje ela faz parte do grupo Del Nodo Francia, que colabora com a Comissão da Verdade na Colômbia, tanto como integrante como testemunha.

A Comissão, criada em 2017 pelo então presidente Juan Manuel Santos, visa esclarecer as violações de direitos humanos e crimes cometidos por guerrilheiros e agentes do Estado a partir da década de 60, além de buscar as pessoas desaparecidas.

Ligia ajuda a divulgar as ações da Comissão por achar importante conscientizar as pessoas sobre o que se passou naquela época. ”Esse é o trabalho mais importante que faço atualmente’’, afirmou. E acrescentou: “A violência que a Colômbia viveu me fez tomar parte na guerrilha e hoje as vítimas dessa violência têm o direito de saber a verdade.”

Lígia sente saudades das pessoas da América do Sul, que ”riem com brilho nos olhos”, e das frutas de sua terra ensolarada – ”Aqui, eles não têm as mesmas frutas que nós…”.

Com a familiaridade de uma latina-americana, Lígia leva um sorriso fácil no rosto, e o seu olhar é firme e, por vezes, distante e desconfiado.  Ela, hoje com 64 anos, não dá tréguas para o cigarro: ”é… eu fumo bastante”, diz, rindo. Mas logo interrompe o riso para interpelar a reportagem: ”E o que está acontecendo no seu país, hein?”.

Ela se refere ao governo de Jair Bolsonaro, a quem chama de ”machista dos graves, louco e perigoso.” ”É horrível o que acontece hoje na América Latina. Quando a gente achou que estava melhorando…”, acrescenta, acendendo o seu primeiro dos próximos tantos cigarros que viriam ao longo da entrevista.

 ”Mas me diz, o que você quer saber?”

A entrevista se passou na varanda de seu apartamento, que dava para duas grandes avenidas que entram e saem de Estrasburgo. O Sol se punha no horizonte; vivia-se uma agradável tarde de primavera depois de um inverno rigoroso.

”Quando somos perseguidos, nós partimos do nosso país com tristeza, não partimos com esperança.” (Créditos: Victória Brotto/ MigraMundo)

Mulher, ex-guerrilheira e migrante

”Quando nos perguntam sobre isso (ser mulher), eu tenho a impressão que querem que se diga que fomos tratadas de maneira ruim , mas não foi esse o meu caso”, afirmou a ex-guerrilheira do M-19. ”Eu lutei ombro a ombro, de igual para igual. ”

Lígia emigrou da Colômbia com seu filho pequeno que hoje é repórter cinematográfico premiado por sua cobertura da guerra na Líbia.

Lígia fugiu com seu filho depois de ser acusada pelo governo colombiano de ser uma das responsáveis pela tomada do Palácio da Justiça, com dezenas de pessoas mortas e 11 desaparecidas . ”Queriam nos prender e, por isso, colocaram a culpa em nós. O processo existe até hoje”, afirma.

”Costumo dizer que existem diversas maneiras de partir, seja por estudos, trabalhos, por uma escolha pessoal. Mas eu não parti nessas condições, eu fui obrigada a partir. E a França foi o país que abriu as portas para nós, que nos ofereceu as melhores condições”, afirma ela, que na época foi assessorada por organizações locais de apoio aos refugiados políticos vindos da Colômbia.

”Quando somos perseguidos, nós partimos do nosso país com tristeza, não partimos com esperança”, diz ela comparando a migração de um refugiado com a migração dos outros tipos de migrantes.

Sobre ser latina-americana na Europa, Ligia fala: ”Você sente a discriminação. Claro que sente.” E abre um sorriso irônico: ”Mas viu, tem uma vantagem: nós não somos os últimos da fila”. ”Quem são os últimos da fila?”, pergunta a reportagem. ”Os africanos, os Romas, os do mundo árabe”.

E acrescenta: ”Olha, eu vivi em um alojamento de refugiados, eu vi como é o tratamento. Nós somos excluídos por todos e de todas as partes. É logo de cara que sentimos a diferença de tratamento.”

 Lígia conta que seu filho fora submetido a ”inúmeros exames sem motivo” para poder ingressar em uma escola internacional. ”Os outros alunos não precisaram fazer aqueles tipos de exames. Se o meu filho não fosse um colombiano comum, mas se fosse um filho de embaixador , ele teria sido tratado de outra forma.”

M-19 e a militância política

”O M19 me ensinou a amar,  ele me deu uma convicção profunda, me fez encontrar o senso da vida ao lado de pessoas que estavam ao meu lado não importasse a profissão, os estudos. Nós ríamos e lutávamos juntos.”

O M-19 acabou em 1990, tornando-se um partido que viria a se dissolver em 2000. Mas, segundo Lígia, para os seus integrantes, ele continua vivo. ”O Movimento 19 de Abril não existe mais, mas para cada um de nós ele ainda está vivo.”

”O M19 me ensinou a amar,  ele me deu uma convicção profunda, me fez encontrar o senso da vida ao lado de pessoas que estavam ao meu lado não importasse a profissão, os estudos. Nós ríamos e lutávamos juntos.”

Lígia interrompe o que ia dizendo para contar uma história. Ajeita o chale estampado que leva nas costas, acende um outro cigarro e debruça um dos bracos sobre a grade. O gato, do lado de dentro do apartamento, observa tudo:

”Um dia entrevistaram o dirigente do M-19 (Jaime Bateman Cayón) e o perguntaram como ele conseguia andar tão tranquilo pelas ruas, sendo ele um dos homens mais procurados da Colômbia. E ele respondeu que existia uma corrente afetiva  que o protegia da morte”, conta Lígia. ”É isso, é essa afeição que tínhamos uns pelos outros que nos tornava quase imortais.”

”E hoje, qual espaço a militância ocupa na vida da senhora?”, pergunta a reportagem’Um espaço enorme”, diz sem demora. A ex-guerrilheira do M-19 não tem por hábito demorar a responder.

Atualmente Ligia Vásquez integra o grupo Nodo Francia, que colabora com a Comissão da Verdade na Colômbia, é membro da AssociaçãoHilvanado la Memoria, que existe para conservar a memória sobre o M19, além de dirigir la Maison de l’Amérique Latine, associação que promove a cultura latina em Estrasburgo.

Ao se despedir, Lígia  Vásquez  aconselha: ”Viu, o mais importante de tudo isso é a Comissão da Verdade. O resto é tudo ‘bla bla bla’.” ”Seria mesmo…?”, reage a reportagem.

Lígia então devolve com um olhar lento e distante, como se fosse tomada pelas memórias de uma luta que nunca acabou.

”O M19 me ensinou a amar,  ele me deu uma convicção profunda, me fez encontrar o senso da vida ao lado de pessoas que estavam ao meu lado não importasse a profissão, os estudos. Nós ríamos e lutávamos juntos.”

Lígia interrompe o que ia dizendo para contar uma história. Ajeita o chale estampado que leva nas costas, acende um outro cigarro e debruça um dos bracos sobre a grade. O gato, do lado de dentro do apartamento, observa tudo:

”Um dia entrevistaram o dirigente do M-19 (Jaime Bateman Cayón) e o perguntaram como ele conseguia andar tão tranquilo pelas ruas, sendo ele um dos homens mais procurados da Colômbia. E ele respondeu que existia uma corrente afetiva  que o protegia da morte”, conta Lígia. ”É isso, é essa afeição que tínhamos uns pelos outros que nos tornava quase imortais.”

”E hoje, qual espaço a militância ocupa na vida da senhora?”, pergunta a reportagem’Um espaço enorme”, diz sem demora. A ex-guerrilheira do M-19 não tem por hábito demorar a responder.

Atualmente Ligia Vásquez integra a Comissão da Verdade na Colômbia, é membro da Associação Hilvanado la Memoria, que existe para conservar a memória sobre o M19, além de dirigir la Maison de l’Amérique Latine, associação que promove a cultura latina em Estrasburgo.

Ao se despedir, Lígia  Vásquez  aconselha: ”Viu, o mais importante de tudo isso é a Comissão da Verdade. O resto é tudo ‘bla bla bla’.” ”Seria mesmo…?”, reage a reportagem.

Lígia então devolve com um olhar lento e distante, como se fosse tomada pelas memórias de uma luta que nunca acabou.


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