Mulheres negras, latinas e caribenhas unem vozes contra opressões e por reconhecimento

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Participantes da edição de 2016 da Marcha da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, em São Paulo. Crédito: Ravena Rosa/Agência Brasil

Data é um marco internacional de lutas, resistência e reconhecimento da mulher negra e latina; manifestações devem ocorrer em diferentes cidades brasileiras

Por Géssica Brandino e Eva Bella
Colaboração de Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

Mulheres de toda a América Latina devem sair às ruas nesta terça-feira (25) para lembrar o Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha. A data é um marco internacional de lutas, resistência e reconhecimento da mulher negra e latina, no enfrentamento a opressões diversas, como de gênero, raça e de classe social.

Em São Paulo, a concentração para a Marcha será a partir das 17h, na Praça Roosevelt (veja aqui evento no Facebook). Para este ano o lema é “Mulheres Negras e Indígenas por Nós, por todas Nós, pelo Bem Viver”.

Participantes da edição de 2016 da Marcha da Mulher Negra Latina e Caribenha, em São Paulo.
Crédito: Ravena Rosa/Agência Brasil

A primeira manifestação foi feita em 1992, após o 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, criação da Rede que leva o mesmo nome. No Brasil, a data também sinaliza o Dia Nacional de Tereza de Benguela, líder quilombola que viveu em Mato Grosso durante o século XVIII.

O MigraMundo lembra a data com perfis de três mulheres atuantes em causas feministas, de gênero e que tentam mudar a realidade de si próprias e de outras mulheres por meio de lutas diárias contra o machismo, sexismo, racismo e outras formas de discriminação – e que certamente estarão presentes na Marcha deste ano.

Montagem com Memorial da América Latina, em São Paulo, e as três mulheres entrevistadas sobre o Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha.
Crédito: Montagem/Brasil de Fato/Arquivo Pessoal/MigraMundo

 

Lúcia Udemezue, cientista social, ativista e produtora cultural, é uma das integrantes do Manifesto Crespo.
Crédito: Norma Odara/Brasil de Fato

Lúcia Udemezue, 32, cientista social, produtora cultural e ativista na área de direitos humanos. Integrante do Manifesto Crespo – que traz a discussão da figura da mulher negra e tem como porta de entrada a questão do cabelo

A intenção dessa Marcha é de colocar na rua esse desmantelamento das políticas públicas que vem acontecendo em São Paulo, o retrocesso que vem acontecendo na assistência às mulheres – e isso afeta especialmente as mulheres negras, que são mais vulneráveis em questões como a violência doméstica, de acesso a empregos e creches para os filhos.

E tem nossa bandeira principal, que é contra o genocídio da nossa juventude negra. Estamos de mãos dadas com as Mães de Maio [que reúne mães de vítimas de violência policial e surgiu em reação aos chamados Crimes de Maio, em 2006], que estarão presentes na Marcha. Acreditamos que a intenção é fortalecer cada vez mais, é uma marcha onde a gente vai poder se olhar, ter uma só voz e se colocar publicamente sobre as nossas bandeiras.

Que a gente consiga dialogar e ampliar a nossa voz para além da academia e dos campos partidários, para que a gente consiga acessar as pessoas que estão sofrendo e não sabem por que, que são vítimas dessa estrutura desigual. A intenção é que mais irmãs, mais mulheres negras estejam conosco. A Marcha é para isso, para fazer essas pontes e para que essas mulheres saibam que não estão sozinhas nessa luta.

Jéssica Moreira, do coletivo Nós, Mulheres da Periferia.
Crédito: Arquivo pessoal

Jéssica Moreira, 26 anos, brasileira, negra, e uma das fundadoras do coletivo Nós, Mulheres da Periferia

Sou uma mulher negra, moradora da periferia de São Paulo, pobre também, por mais que tenha tido acesso à universidade e tido algumas oportunidades. Fui migrante na Irlanda, mas claro que numa situação muito diferente da de muitas mulheres, porque fui porque queria estudar, adquirir novos conhecimentos. O Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha é muito importante para fomentar a representatividade da mulher negra no Brasil, uma vez que somos maioria no país e a gente não se vê representada, seja pela mídia, na política e nos cargos de chefia. Um dia como esse reforça a necessidade de falarmos sobre a mulher negra. Claro que entendemos que todo dia é da mulher negra, porque estamos nos nossos corres diários, trabalhando muito, inclusive para sobreviver, mas não é todo dia que essa mulher é lembrada e vista. Ter um dia dedicado a isso mostra a importância de discutir a relação de corpo e afeto da mulher negra na América Latina, que nunca será igual à da mulher branca, porque os corpos das nossas ancestrais foram escravizados e estuprados.

A imagem da mulher negra é então construída a partir de um processo de branqueamento da população na América Latina, que usou o corpo dessas mulheres. Debater isso é muito importante para entender que esse histórico é a raiz de muitos problemas sociais que temos, pois somos as que mais sofrem com a falta de moradia, educação das crianças, nos partos ou que fazem aborto inseguro, as que mais estão em situação de cárcere, isso mostra que ainda estamos numa situação desnivelada. É importante colocar tudo isso para dizer que esse dia não é apenas simbólico, mas marca o lugar de fala da mulher negra, que não aceita ver seu corpo como objeto, que se reconhece como negra num continente que tentou a todo custo nos esbranquiçar.

 

Daniela Solano, do Visto Permanente.
Crédito: Arquivo Pessoal

Daniela Hernandez Solano, 28 anos, colombiana e integrante da coordenação do coletivo Visto Permanente

O Brasil, assim como os demais países latino-americanos, veio de uma tradição colonialista e escravocrata. Apesar dos regimes democráticos que tentaram se estabelecer, a gente ainda enfrenta as mazelas do racismo estrutural na sociedade, pois podemos dizer que nunca se assegurou uma condição de igualdade para os negros e para a mulher negra e latina, principalmente. Não é segredo para ninguém que a mulher está na base da pirâmide social, sempre com as piores condições, menores salários e trabalhos precários, além de sofrer diversas formas de violência, doméstica, sexual, racial e de gênero. A rememoração desse dia é para marcar uma luta pelo fim do sexismo, racismo, machismo e da discriminação independentemente de raça, etnia ou nacionalidade. Não podemos esquecer que é o dia da líder quilombola Teresa de Benguela, que resistiu bravamente à escravidão. É um marco internacional de luta, de resistência e reconhecimento da mulher negra e latina, no enfrentamento à opressão de gênero, racismo e à opressão de classe.

Esse dia veio também para pautar a necessidade de reconhecimento da história dessas mulheres, que estiveram no centro das lutas, mas muitas vezes são esquecidas nas entrelinhas da história. Vem ainda ajudar na reflexão de nós mulheres latina, caribenhas e afro e no fortalecimento da discussão sobre a condição de discriminação a qual sempre somos expostas no dia a dia. É uma data que considera novas perspectivas e garante uma agenda por direitos e qualidade de vida para nós mulheres. Encerro com duas citações, da poetisa Débora Garcia, que lança neste dia 25 o clipe das negras panteras (veja abaixo), e diz que essa é uma data para fortalecer a nossa história e fomentar a nossa luta no presente; e a outra de Audre Lorde, que diz “não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas”.

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