O 2017 do MigraMundo, nos bastidores – um relato pessoal

1
250
Apesar da espiral de acontecimentos do ano velho, a chegada de um novo tempo sempre traz a esperança de dias melhores.
Apesar da espiral de acontecimentos do ano velho, a chegada de um novo tempo sempre traz a esperança de dias melhores. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo - dez/2015

Quer saber como foi o ano de 2017 do MigraMundo nos bastidores? Alguns detalhes podem te surpreender

Por Rodrigo Borges Delfim

Oi pessoal, tudo bem?

Muitos de vocês acompanharam o MigraMundo ao longo deste ano de 2017. Esse apoio, como leitores e colaboradores de conteúdo, foi fundamental para que o site completasse cinco anos de vida e pudesse vislumbrar novos horizontes daqui em diante.

E aproveitando o final de ano, gostaria de fazer uma reflexão bem pessoal e dividir com vocês um pouco do que foi o MigraMundo para mim neste ano. E começo com uma confissão que pode assustar alguns:

O MigraMundo esteve por um fio praticamente durante todo o ano de 2017…

Sim, justamente no ano em que o site alcançou seu maior patamar em resultados (cerca de 144 mil visualizações e em torno de 75 mil usuários); no mesmo ano que acompanhou in loco assuntos de grande importância na temática migratória – com destaque para a nova Lei de Migração e a cobertura em Roraima sobre a presença dos venezuelanos; no mesmo ano que começou duas ferramentas que tem sido uma grata surpresa para o site: a retomada da newsletter semanal e o começo do envio de notícias por WhatsApp.

A montanha russa de emoções começou mais exatamente em 18 de janeiro de 2017, quando “virei estatística” e fui dispensado do UOL, onde trabalhei por nove anos. E como manter o MigraMundo, que não gerava receita nem para mim, nem para os demais colaboradores, uma vez que eu tinha perdido minha fonte de renda?

E manter o MigraMundo não é nada fácil. Não basta simplesmente escrever um texto e publicar. É preciso pensar no título, nas melhores imagens e vídeos a serem usados, no melhor horário para postar no Facebook e no Twitter, pensar em chamadas legais para o WhatsApp, para a Newsletter… E em vários momentos, mesmo com as colaborações que chegam, é uma tarefa muitas vezes solitária, com pouca ou nenhuma base financeira, e que demanda tempo.

Considerando o mercado complicado do jornalismo atualmente, passei a ver o MigraMundo como um plano A, e não mais uma atividade paralela. Sempre sonhei com isso, mas esperava conseguir alguma gordura no UOL antes desse passo. Na prática, precisei aprender – e ainda estou nesse processo – a trocar o pneu com o carro em movimento.

Contei e ainda conto com a ajuda de muita gente que curte o MigraMundo e o viu nascer e crescer ao longo desses cinco anos, que contribui e dentro das possibilidades de cada um. Mas sem uma base financeira e com a necessidade batendo à porta dos colaboradores, que também precisam pagar as próprias contas, é difícil manter alguém junto ao projeto por muito tempo e de forma constante.

Por isso, fiz uma promessa para mim mesmo, que cheguei a compartilhar com amigos próximos: caso eu não conseguisse estabelecer nenhum tipo de renda a partir do MigraMundo em 2017, o site seria descontinuado em 2018.

E o que fazer para que esse cenário sombrio não se tornasse real?

Primeiro, parti do seguinte pensamento:  se “chegou longe demais para parar agora”.

Então, ao longo do ano lancei algumas medidas e novas ferramentas: atualização praticamente diária, a reativação da Newsletter, o início do envio de notícias por WhatsApp – especialmente para não ficar tão dependente das mudanças de algoritmo feitas por Zuckerberg e Cia – e organizar como um coletivo os colaboradores do MigraMundo espalhados por aí.

Embora essas mudanças tenham trazido um ganho de visibilidade enorme para o MigraMundo, ficou ainda mais complexo manter essa estrutura adicional, tanto técnica como humana; ao mesmo tempo, a rede de colaboradores, mesmo sendo extensa, estava limitada pela situação da própria galera, que também precisava garantir o seu dia seguinte.

Em diversos momentos pensei que tinha criado um monstro que estava prestes a me engolir.

Mas mesmo com essas dificuldades, o MigraMundo continua em 2018?

A resposta é sim.

Mas a confirmação veio, numa metáfora futebolística, aos 45 minutos do segundo tempo.

2017 foi bem intenso e de grandes aprendizados que serão úteis não só em 2018, mas nos anos seguintes.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – dez/2015

Em setembro, às vésperas do MigraMundo completar cinco anos, estava extremamente perdido, desanimado, desgastado. O dinheiro que recebi do UOL e os frilas que fiz estavam no fim; a maioria dos colaboradores não conseguia contribuir como antes (são humanos e também precisam pagar suas contas); e me sentia desprestigiado por pessoas e instituições que me procuravam quando precisavam, mas que pouco ou nada faziam em troca.

Entre o final de setembro e o começo de outubro, em meio a esse turbilhão, surgiram duas luzes no final do túnel: o convite para colaborar na organização do V Seminário Vozes e Olhares Cruzados, em São Paulo, por parte da Missão Paz e da Fundación Avina; e a confirmação do apoio para participar e cobrir o IX Fórum de Migração, no Rio.

O Vozes e Olhares Cruzados – que, aliás, foi uma das inspirações para o lançamento do MigraMundo, em 2012 – deu sobretudo o combustível financeiro para chegar até dezembro;e  o Fórum ajudou a consolidar valores e atributos do MigraMundo que sempre estiveram na frente do meu nariz, mas que eu ainda não tinha percebido em plenitude: o fato de ser um ponto de encontro entre diferentes conhecimentos e atores na temática migratória, por meio do que comunica e produz. E era nisso que o MigraMundo deveria se basear daí em diante.

Com essa proposta cristalina na cabeça, e sempre com a comunicação como ferramenta, comecei a apresentar projetos e a conversar com diferentes atores sobre o que o MigraMundo faz – e pode fazer mais e melhor caso tenha algum tipo de apoio.

Na verdade, se trata do ônus e do bônus de tentar romper com um paradigma há muito presente quando se lida com temas sociais: de que é justo viver financeiramente de algo no qual acredita, não apenas como voluntário.

E no final de novembro, veio o convite para uma parceria institucional (não apenas de conteúdo) com o CAMI (Centro de Apoio e Pastoral do Migrante), que desde então tem dado mais liberdade para manter a produção do MigraMundo.

Graças a esses três acontecimentos em especial, somada às contribuições providenciais da rede de colaboradores (mesmo com todas as dificuldades que cada um tem vivido), a previsão sombria de ter que encerrar o MigraMundo não se cumpriu. Pelo contrário, o ânimo para 2018 está renovado (pelo menos da minha parte) para um ano que promete ter um contexto muito difícil, mas no qual sempre é possível abrir novos caminhos.

Os desafios continuam: firmar novas parcerias, buscar fontes de recursos, aprimorar as pautas e abordagens do MigraMundo, fazer um “planejamento (também chamado de “roadmap”) para os próximos cinco anos.

Três premissas estarão presentes em cada uma dessas tarefas: a migração como direito humano; atuar como um ponto de encontro entre os diferentes saberes e atores envolvidos na temática migratória; e consolidar o “jornalismo de soluções” – que nada mais é que ir além dos fatos e prezar uma abordagem construtiva e que indique caminhos e sugestões que podem ser aplicadas – ou ao menos testadas para os problemas e desafios existentes.

Antes de encerrar, um pequeno causo do comecinho do ano…

Em fevereiro, vendo de longe o que acontecia em Roraima desde dezembro de 2016, comecei a alimentar a ideia de bancar uma ida para lá. Para tal, criei uma campanha de crowdfunding para ajudar (PS: isso sem ainda ter conseguido honrar com as gratificações de quem doou para que o MigraMundo passasse de blog para site, passo dado em abril de 2016 com a ajuda de dezenas de leitores e apoiadores. Prometo zerar essa pendência de 2015!)

A campanha rumo a Roraima alcançou 60% da meta. Precisei colocar uma grana do meu bolso, mas o apoio que recebi da galera me levou a ir em frente e fazer a viagem. E a experiência de ir a Roraima, além de ter gerado uma série de reportagens no MigraMundo, foi um dos momentos mais marcantes da minha trajetória como jornalista e também do site.

Esta mensagem é um desabafo, mas sobretudo um agradecimento a todos vocês que acompanham e apoiam o MigraMundo (formal e informalmente), tornando possível sobreviver e aprender com 2017. Também é um exercício de transparência que vai se repetir daqui em diante.

Foi o ano mais duro da existência do site e da minha vida como profissional, mas sem dúvida foi o mais rico de todos. Ao mesmo tempo é um pedido de desculpas por eventuais expectativas não cumpridas. E quem quiser conversar sobre parcerias, projetos e afins, é só chegar junto!

Valeu novamente, galera. E que venha 2018!

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Insira seu comentário
Informe seu nome aqui

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.