O Que É Ser Imigrante, por Carolina Van Moorsel

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No começo era apenas uma pós-graduação no exterior, mas virou algo muito maior. Formada em Direito pela Faculdade Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo, a brasileira Carolina Van Moorsel chegou nos Estados Unidos em 6 de agosto de 2012 para um curso de L.LM. (um mestrado de um ano) na escola de Direito da Universidade de Illinois.

Saudades da família, vontade de voltar logo ao Brasil… Não demorou muito para essa situação sofrer uma grande reviravolta. Já no mês seguinte, após ouvir uma palestra sobre o projeto La Línea, que oferecia assistência a imigrantes sem documentos de uma comunidade em Illinois, Carol (como prefere ser chamada), decidiu aderir como voluntária e passou a lidar diariamente com histórias de pessoas deportadas, vítimas de perseguição em seus países de origem, entre outras situações críticas.

Há dois anos vivendo na cidade de Chicago, Carol continua a lidar com uma situação dupla: além de imigrante, é atualmente coordenadora do projeto de asilo no National Immigrant Justice Center (NIJC), uma ONG que oferece serviços gratuitos a imigrantes.

É sobre essa condição dura e complexa, mas ao mesmo tempo riquíssima e gratificante, que Carol trata em seu depoimento para a série O Que É Ser Imigrante. Uma história que, como ela própria dirá, “dá muito orgulho de contar”.

Ser imigrante é abraçar a oportunidade de escrever a sua história no desconhecido e no desconforto.

Por Carolina Ramazzina Van Moorsel

Tenho que confessar que estou há semanas pensando em como responder essa pergunta.  Todos os dias eu sinto o que é ser imigrante na pele, nos Estados Unidos.  Mas ter que colocar todos esses sentimentos e sensações no papel me fez refletir muito.

Quando eu era pequena e íamos a celebrações familiares, eu me lembro de sentar no banco de trás deitada no colo da minha tia Bel, com meu pai e minha mãe sentados no banco da frente do carro, e de pedir que eles me contassem uma história.  Não de princesa.  Uma história sobre a vida deles.  Me lembro de fechar os olhos e imaginar cada palavra que eles me diziam, em cores e ação.

Eu cresci ouvindo e lendo histórias e imaginando se um dia eu iria conseguir escrever uma história que fosse minha que eu gostasse tanto quanto aquelas histórias que me narravam.

Ser imigrante é abraçar a oportunidade de escrever a sua história no desconhecido e no desconforto.

A brasileira Carolina Van Moorsel, imigrante que trabalha em prol de outros imigrantes. Crédito: Arquivo pessoal
A brasileira Carolina Van Moorsel, imigrante que trabalha em prol de outros imigrantes.
Crédito: Arquivo pessoal

Eu cheguei aos Estados Unidos no dia 6 de agosto de 2012.  Eu vim para cá fazer um curso de L.LM. (um mestrado de um ano) na escola de direito da Universidade de Illinois (College of Law of the University of Illinois).  Eu não tinha intenção alguma de ficar morando nos Estados Unidos – minha família e toda minha vida estavam no Brasil e para ser sincera eu nunca achei que os EUA eram a terra prometida como muitos que conheci aqui e em muitos lugares do mundo acham. 

Os primeiros meses aqui foram muito difíceis.  Meu pai sempre me disse: você está com o corpo aí, mas com a cabeça aqui – se joga, filha!  Qualquer intervalo que tinha eu corria para o Skype ou para o WhatsApp e tentava me inteirar de tudo que estava acontecendo no Brasil.  Dava palpite na vida dos outros sem saber muito bem o que estava acontecendo.  Corria pra internet e abria todos os sites de notícias possíveis do Brasil para ver o que estava acontecendo no “meu país.”

No final de setembro daquele mesmo ano um homem chamado Francisco Baires foi falar na escola de Direito. Ele trabalhava com uma organização que ajudava imigrantes a acessarem recursos na comunidade.  Eu fui porque tinha esquecido meu almoço em casa e o evento estava servindo pizza. Motivo fútil.  Francisco nos contou sobre o trabalho que ele fazia com imigrantes sem documentos da comunidade de Champaign Urbana, Illinois.  Ele nos contou sobre injustiças do sistema e barreiras que muitos imigrantes tinham que enfrentam para conseguir acesso a serviços básicos, como saúde pré-natal.  O Francisco ganhou minha atenção com sua história.

Passado o evento, eu decidi mandar um e-mail para ele e pedir uma oportunidade para me voluntariar com a organização.  Em São Paulo eu sempre dizia que queria muito me voluntariar, mas não tinha tempo.  Botava a culpa na faculdade, no trânsito, no clima, nas obrigações familiares… quanta desculpa!  Hoje percebo que nunca me mexi por falta de vontade e de paixão por uma causa.

No dia seguinte eu fui encontrar Francisco.  Ele estava em meio a uma crise.  Ilyana, uma mulher vinda do México sem documentos, foi detida por agentes de imigração e colocada na cadeia.  Ilyana descobriu que estava grávida quando foi presa e por não falar inglês não conseguia pedir que a adminstração da cadeia a colocasse em contato com uma enfermeira.  Depois de uma hora que eu encontrei Francisco nós entramos no carro dele e fomos falar com Gilberto, marido de Ilyana.

Gilberto não tinha um documento com foto para apresentar na cadeia, então não podia visitar sua esposa. Gilberto também não falava inglês.  No mês que se passou, eu, Francisco e outros voluntários dirigimos todos os dias depois de nossas aulas para falar com Ilyana na cadeia e a lembrar que tinha gente do lado de fora lutando por ela.  Inúmeras vezes eu liguei para a cadeia e tentei falar com a enfermeira.  Uma das vezes ela me disse, como se a língua materna de Ilyana fosse sua sentença de morte em uma situação de gravidez de risco: “Se a presa não fala inglês, não há nada que a equipe médica possa fazer”.

Um dia cheguei da visita na cadeia e me lembro de chorar muito.  Para mim não fazia sentido e era muito doloroso assistir de camarote uma mulher passar por uma gravidez daquela maneira.  Desde pequena eu imaginava e via mulheres sorrindo na gestação, rodeadas de familiares e com assistência médica.  Qual era a diferença entre Ilyana e essas mulheres?  Eu nunca consegui identificar uma.

Ilyana foi deportada.  Nós conseguimos entrar em contato com o consulado do México para que ela fosse levada de avião e chegasse à Cidade do México com segurança.

Essa é uma das milhares de histórias que passaram a fazer parte do meu dia-a-dia nos Estados Unidos.  Depois de trabalhar com a La Línea, organização que Francisco dirigia, eu trabalhei com uma organização que trabalha em avançar o acesso universal à saúde, e por conta de minhas habilidades com diferentes línguas me foquei no trabalho com imigrantes também.  Hoje supervisiono o trabalho do time de direito a asilo de um centro de assistência legal para imigrantes de baixa renda e minha obrigação central é lidar com imigrantes que foram vítimas de perseguição em seus países.

A partir de uma palestra,Carolina mudou radicalmente sua trajetória. Crédito: Arquivo pessoal
A partir de uma palestra, Carol mudou radicalmente sua trajetória.
Crédito: Arquivo pessoal

É difícil para eu falar da minha experiência como imigrante sem pensar na experiência das pessoas com quem me comunico todos os dias nesse meu caminho por aqui.  Pelos olhos dessas pessoas aprendi que ser imigrante pode ser estar em um estado de desconforto contínuo, estar em estado de alívio contínuo, ter que pensar o tempo todo quando você fala porque a maior parte das pessoas não fala sua língua materna, se deparar com uma infinidade de coisas novas todos os dias, nos momentos mais triviais, ir de extrema felicidade para extrema tristeza no lapso de um segundo, ter que reaprender a fazer as coisas mais simples e a se comportar nas situações mais quotidianas, e tanto mais!

O que define minha experiência nos Estados Unidos como imigrante e acaba por me definir como pessoa são alguns ensinamentos fundamentais que meus diversos clientes me deram de presente sem saber:

  • Por mais diferente que alguém me pareça à princípio eu sempre tenho algo em minha experiência de vida que me identifica com outros seres humanos.
  • Não existe nenhum ser humano no mundo que não mereça ajuda.
  • Não existe sentido na vida caso eu não coloque todas as minhas energias a serviço de outros seres humanos.
  • O mundo é “meu país” e não existe lugar algum que eu não mereça chamar de meu.

Para mim ser imigrante é aprender a viver e descobrir quem eu sou diariamente. Tive experiências difíceis e, todos os dias, a primeira coisa que penso ao abrir os olhos é na minha família que está no Brasil e me dá muita saudade.  Mas tudo o que passei, bom e ruim, saudade e desconforto, me fizeram quem eu sou hoje e me ajudam a escrever uma história que me dá muito orgulho de contar.

1 COMENTÁRIO

  1. É isso aí pessoal. Tenho um filho que nasceu no EUA e está na Marina. Não pude ir até hoje visitá -lo por falta de dinheiro,malogro do pai. E leis rígidas a se tornarem cada vez mais rígidas no mundo. Eu recomendo sempre ao meu filho de estudar e conseguir mais e mais na carreira apesar de não concordar com ela. Que todos imigrantes retornem mesmo a seus países pois de sonho americano é apenas ilusão. É dar dinheiro para poderosos subterfugiarem -se em leis vãs de liberdade. O bom mesmo é voltarem aos seus países e não limpar mais o chão para os metidos passarem. Não comercializarmos nem mais um minuto com seus produtos que já podem ser substituídos ou pelo menos podemos ficar sem eles. Se eu tivesse inglês ou espanhol faria o mesmo que vocês. Hoje, com o tal de pagarmos impostos atrasados para legalizar, é melhor somente visitar os parentes por aí. O melhor mesmo, sabe, é chamá -los de volta porque são gente orgulhosa demais para saber que imprevistos atacam a todos ricos e pobres. Um dia eles , os antimigrantes é que pedirão socorro. Vou lutar aqui no Brasil para leis duras com esses. De fechar todos os portos, comércios, diplomacia. E declarar a verdadeira independência. E saber que eles ficarão nos museus como ditadores e serem presos por isso. Se pedirem socorro, apenas um prato de comida por dia e copinho de água. Depois, terão de limpar nosso chão, fazer caridades, e voltar para cela. Para pagar impostos que jamais conseguirão pagar como estão na mira de pleitear.

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