O Que é Ser Imigrante – por Sergio Ricciuto Conte

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O italiano Sergio Ricciuto Conte, 31, é o novo personagem da série O Que é Ser Imigrante. Formado em Artes, Filosofia e Teologia, mora há seis anos no Brasil e chegou como estudante de teologia e integrante de uma congregação religiosa (que optou por não citar o nome). Depois de se decepcionar com um episódio no seminário no qual estava, decidiu ficar no Brasil como imigrante.

Pelo jeito a vida tinha outros planos para Sergio. Apaixonado por bateria de escola de samba e “ainda se adaptando à temperatura social” do Brasil, casou-se em dezembro passado. E em vez de integrante do clero, virou pintor e ilustrador. Sua habilidade artística se desenvolveu por um motivo inusitado: ele desenhava para não dormir durante as aulas na faculdade. Isso resultou em um portfólio de mais de 400 desenhos – e alguns deles podem ser vistos, avaliados e comentados por meio deste link (basta fazer um cadastro rápido para poder comentar e interagir com outros usuários e opiniões sobre as ilustrações).

Uma amostra rápida de seu trabalho é o desenho escolhido por ele para ilustrar este post, que mostra uma pessoa com malas nas mãos e uma lua nas costas, equilibrando-se na corda bamba. Um retrato sutil, sensível e tocante que exemplifica, ao seu melhor estilo e sem usar palavras, a situação que um imigrante enfrenta no seu cotidiano.

Ser imigrante é uma chance para entender e entender-se

Sergio Ricciuto Conte

Sou Sergio Ricciuto Conte, nasci e cresci na Itália. Tenho 31 anos e desde 6 moro no Brasil. Casei com uma linda mineira, Nayá, em dezembro passado. Vim aqui para estudar teologia, porque fazia parte de uma congregação religiosa católica que envia para estudar teologia no exterior. Depois de me decepcionar de maneira profunda e expressiva com algum escândalo interno ao seminário onde estava, sai e decidi ficar como imigrante aqui.  

Amo expressar minha alma e sentir-me parte de um projeto de bem. Amo pintar e tocar piano, amo ser rodeado de beleza e busco a liberdade. Tudo isso faço juntos com meu amor, minha esposa. Adoro chapéus, ovos, ler no banheiro e andar de bicicleta. Não gosto do tédio, e não sei perdoar-me quando me acompanho com pessoas entediantes. Minha casa é simples, minha esposa tem olhos interiores parecidos com os meus e tomamos café juntos numas xícaras que faço questão de dizer que são algo que faz a beleza da minha simples vida.

Dormia nas aulas na época da faculdade, e para evitar isso desenhava, por isso possuo uma coleção de 400 desenhos. Trabalho como ilustração em editoras diferentes e vendo quadros, que pinto na sala da minha casa, onde também tem meu piano que comprei usado no interior de São Paulo em abril passado por R$ 900. Meu pai comprou meu primeiro piano quando eu tinha 13 anos depois de eu cumprir a promessa de não gastar nenhum dinheiro para motivo algum para um ano inteiro. Este piano no ano passado minha mãe deu para minha prima. De graça. Meus irmãos são muitos. E muito legais, tem cores de olhos parecidos com os meus, minha irmã porem é diferente e é muito vaidosa, mas a vaidade dela é bonita. Quando fui de lua de mel para a Itália visitei a casa dos meus e minha irmã nos deixou dormir no quarto dela por 10 dias, mas não deixou usar o carro dela. Mas eu achei isso tolerável e peculiar.

 

Lua nas costas, malas nas mãos e uma corda bamba sobre os pés. Sem palavras, uma situação que define muitos imigrantes. Crédito: Sergio Ricciuto Conte
Lua nas costas, malas nas mãos e uma corda bamba sobre os pés. Sem palavras, uma situação que define muitos imigrantes.
Crédito: Sergio Ricciuto Conte

Fico encantado com bateria de escola da samba. O Brasil é muito parecido ao meu país, tem o mesmo terreno de qualidade e defeitos. Não tem muita liberdade de imprensa, assim como lá, e tem uma grandíssima liberdade de achar um jeito de se expressar e viver, assim como lá. Mas estou me adaptando em termo de “temperatura social”. Vou tentar explicar.

Para um italiano um drama é um drama, para um brasileiro pode se vivenciar um drama com tanta positividade, até chegar ao nível deste drama virar outra coisa. Não se trata de comparar e dizer quem consegue resolver o drama. Quase nunca se resolvem. O ponto é que tipo de imagem social que um tipo de evento dramático (chacinas, máfia, corrupção etc) se tem.  O brasileiro, me parece (posso estar enganado) que se conforma ao drama. E às vezes este perde consistência, não é mais drama. Estranhei positivamente com isso, mas tem hora que minha vontade é gritar: “isso é um drama!!!”. Mas é um risco. Por mais que 6 anos sejam muitos, reclamar por certas coisas para um migrante é um modo de congelar o futuro. Desejo que meus filhos tenham esta grande positividade, mas quem sabe, possam também ser críticos e fazer crescer a vontade de discordar com o erro.

Falando das minhas condições atuais como migrante. Trabalho em casa, e estou querendo um emprego fixo, mas não seria urgente. Minhas financias não me causam perda de sono. São Paulo me estressa, sonho de sair, mas aqui tem mais possibilidades e minha esposa deve acabar a faculdade. Não possuo o carro, mas não sinto necessidade. Gostaria de ter mais profundidade com as amizades que tenho, mas se sabe, quem tem o coração colado às amizades da infância, tem que assumir que vai ter só elas.

Ser migrante não é uma condição diferente de ser. Todo humano mexe-se. O planeta azul, o nosso, mexe-se.  Mas estar longe sim, isso é peculiar de quem adormece e acorda lembrando lugares e perfumes distantes.

Ser migrante é uma condição para ser protagonistas de muitas coisas importantes. Cada vez que fui visitar um museu importante me emocionei sempre no corredor que ligava a bilheteria com a sala da exposição. O migrante é a ponte que emociona, o elo entre ato e potencia, entre passado e futuro, é a vibração da corda da memória no violino do eterno.

Cada vez que falo de mim ao cabeleireiro é porque ele descobre meu sotaque, e nunca falamos de coisas banais. 

Ser migrante é uma chance para entender, e entender-se.

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