O que o Dia Internacional Humanitário tem a ver com a temática das migrações e refúgio

Celebrada desde 2009, data coincide com dia de falecimento do diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello. Também é importante lembrar da relação entre crises humanitárias e deslocamentos forçados

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Visão parcial do exterior da sede das Nações Unidas em Bagdá, após explosão em 19 de agosto de 2003. (Foto: ONU/Timothy Sopp)

Desde 2008 a cada 19 de agosto é lembrado o Dia Internacional Humanitário. A data, decretada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), não foi escolhida ao acaso: ela recorda o atentado a bomba contra o Hotel Canal, no qual a ONU estava instalada em Bagdá, no Iraque, em 2003.

A data homenageia inicialmente as 22 vítimas fatais da explosão, entre elas o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, 55. Na época, ele atuava como Representante Especial do Secretário Geral da ONU no Iraque.

Mello, que dedicou sua carreira à promoção da paz, com destacada atuação em assuntos humanitários, teve boa parte de sua passagem pelas Nações Unidas ligada ao ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados). Ele também chegou a ser visto como um possível futuro secretário-geral da organização.

O atentado

O ataque ocorrido em Bagdá, já em meio à invasão do Iraque pelos Estados Unidos, ficou conhecido como o “11 de setembro das Nações Unidas” por ter sido um dos mais letais da história da organização.

Além das 22 vítimas fatais, a explosão gerada por um caminhão bomba ainda feriu 150 funcionários e levou a uma redução drástica da presença da ONU no país.

O português António Guterres, atual secretário-geral das Nações Unidas, descreve a data como “um dos dias mais sombrios da nossa história”.

Foi a primeira vez que uma organização humanitária internacional e neutra foi deliberadamente atacada desta forma, sendo um marco crucial na forma como a ONU e seus organismos humanitários operam em campo.

Apesar das mudanças, a atuação humanitária em campo continua a ser uma atividade de risco. Segundo dados da própria ONU, o número de incidentes registrados em 2019 envolvendo pessoas que atuam no setor foi o maior da história: 483 trabalhadores humanitários foram atacados, 125 mortos, 234 feridos e 124 sequestrados.

Assistência humanitária e deslocamentos

Segundo as Nações Unidas, ao final de 2015, havia 130 milhões de pessoas, em 37 países que necessitavam de assistência humanitária.

Vale lembrar que situações como essa são fortes motores para deslocamentos forçados, seja internos quanto transacionais.

Os dados mais recentes do ACNUR, relativos a 2019, dão uma ideia dessa relação. Ao todo são cerca de 79,5 milhões de pessoas afetadas por deslocamentos forçados , o que equivale a 1% da população mundial. Destes, 45,7 milhões de pessoas estão deslocadas dentro de seus próprios países, além de 26 milhões que foram parar em outros países, os refugiados.

“Neste Dia Mundial Humanitário, o ACNUR chama a atenção de todos para a necessidade de respeitar e apoiar a atuação dos trabalhadores humanitários no Brasil e no mundo, o que se reflete diretamente na capacidade do ACNUR de oferecer proteção aos refugiados, deslocados internos e apátridas nos mais de 130 países onde atuamos”, diz Jose Egas, Representante do ACNUR no Brasil.

Para Guterres, além de homenagear as vítimas do atentado no Iraque, o Dia Internacional Humanitário também homenageia o que chama de “heróis sem capa”, que são os colaboradores que atuam em ações humanitárias mundo afora.

“Esses heróis da vida real fazem coisas extraordinárias em tempos extraordinários para ajudar mulheres, homens e crianças cujas vidas são afetadas por crises”, disse o secretário-geral das Nações Unidas em uma mensagem em vídeo para a data.

Quem foi Sérgio Vieira de Mello

Sérgio Vieira de Mello , vítima mais conhecida do ataque contra a ONU em Bagdá, foi uma desses trabalhadores humanitários. Ele iniciou sua trajetória quando tinha apenas 21 anos. Durante a maior parte de sua carreira atuou com o ACNUR, tendo experiências em Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique e Camboja. Entre os anos de 1999 e 2002, liderou a missão da ONU que acompanhou a transição para a independência do Timor Leste.

Em 2002, assumiu o cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para Direitos Humanos e um ano depois foi vítima de um ataque fatal à sede da ONU em Bagdá enquanto buscava atuar na solução do conflito que assolava o país.

Durante seu sepultamento no Rio de Janeiro, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que Vieira de Mello seria lembrado como “herói nacional”.

“O Brasil perde um símbolo e o homem que dedicou toda a sua inteligência, toda a sua alegria na busca de mundo melhor, na busca pela paz, na busca de um planeta mais humanizado.” completou.

O então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que também estava presente na cerimônia e que já havia descrito Sérgio como “a pessoa certa para resolver qualquer problema”, afirmou que o diplomata era um “campeão dos direitos humanos”.

A vida do brasileiro foi retratada nas telas no filme “Sergio” lançado este ano pela Netflix, com o ator Wagner Moura no papel do diplomata.


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