Opinião: Não à criminalização do outro

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A reflexão abaixo, feita pelo Pe. Alfredo J. Gonçalves e reproduzida pelo MigraMundo, parte dos atentados ocorridos no último dia 7 na França. Mas a mensagem vai além não só dos tristes e sangrentos episódios de Paris, mas também das consequências nocivas que o extremismo provoca nas sociedades.

por Pe. Alfredo J. Gonçalves

O massacre de Charles Hebdo, em Paris, no dia 7 de janeiro de 2015, em que foram barbaramente assassinadas 12 pessoas – uma vez mais – coloca lado a lado as figuras do terrorista, do muçulmano e do migrante. Ingênua, desinformada ou cúmplice, a mídia e a opinião pública muitas vezes mesclam terrorismo, religião e migração. Daí se passa facilmente à criminalização tanto do islamismo quanto dos deslocamentos humanos de massa. Os fantasmas que há anos rondam a política externa e a segurança interna tornam-se mais vivos e ameaçadores do que nunca. Em praticamente todos os países europeus (e não só), eleva-se o alarme ao nível máximo.

Resulta evidente a necessidade de distinguir, de um lado, a prática de uma religião baseada nos princípios de determinado livro (Bíblia, Torá, Alcorão – ligados respectivamente ao cristianismo, ao judaísmo/hebraísmo e ao islamismo) e, de outro lado, o cego fanatismo aparentemente vinculado aos mesmos princípios religiosos. Bem sabemos como, no decorrer da história das religiões, a cegueira fundamentalista levou tantos inocentes à fogueira e à inquisição, bem como disseminou as “guerras santas”, semeando cadáveres por toda parte. Todo e qualquer regime totalitário, seja ele de caráter político, ideológico ou religioso, tende à perseguição, à violência e até mesmo à eliminação pura e simples no confronto com os opositores. Que o digam as cruzadas, o patíbulo, a guilhotina, o paredão de fuzilamento, as câmeras de gás do holocausto, sem falar da famigerada prática da tortura. No caso do totalitarismo de ordem religiosa e/ou étnica, porém, o conflito pode ganhar cores mais sombrias, uma vez que está entra em cena o jogo da verdade-falsidade e o nome de Deus.

Nos últimos tempos, especialmente a partir dos atentados ao World Trade Center, nos Estados Unidos, em setembro de 2001, os migrantes e as migrações passam a fazer parte do mesmo cenário. Confundidos não poucas vezes com os terroristas, os quais, por sua vez, se escondem atrás de uma roupagem religiosa, migrantes, refugiados, prófugos e desplazados acabam “pagando o pato”. Como se não bastasse, a esse quadro mistura-se ainda o ingrediente do crime organizado, com destaque para o tráfico de drogas, armas e seres humanos. O fato é que, nessa atmosfera de medo e desinformação, o controle e a vigilância nas fronteiras torna-se cada vez mais rígido, de modo particular quando estão em jogo determinados povos e nações.

Repórteres, microfones, câmeras e holofotes disputam o bombardeio de imagens e palavras. Sob o impacto de semelhante avalanche de sensações – mais do que de informações – não é fácil fazer um juízo crítico dos fatos e boatos que desfilam no palco. Palco porque o “espetáculo” parece substituir o jornalismo sério, responsável e objetivo. Efetivamente, quando a informação sofre um processo de “espetacularização”, com frequência desencadeia, nos indivíduos e nas multidões, paixão, rancor, ódio e sobretudo desejo de vingança. O que, entre outros fatores, explica a reação contra mesquitas e/ou pessoas estrangeiras.

Desnecessário enfatizar que o caminho do terrorismo só faz crescer a espiral da violência. E esta cresce igualmente quando se entra no mesmo jogo do “olho por olho, dente por dente”. Mas esse inimigo comum de toda humanidade, hoje cada vez mais perigoso e audaz, deve ser desvinculado seja da esperança e do sonho de quem cruza as fronteiras do próprio país em busca de um futuro menos amargo, seja de quem procura, através da religião, um sentido para a vida e um empenho por um convívio pacífico. Tal espiral de violência não pode inibir o intercâmbio de povos, cultas e valores, no coração dos quais germinam as sementes da paz mundial.

Roma, 9 de janeiro de 2015

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