Paraguai buscou na imigração uma saída para crise pós-guerra; entenda

Destruído após guerra no século XIX, Paraguai recorreu à imigração para impulsionar a economia; atualmente Brasil responde pela maior comunidade imigrante no país vizinho

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Imigrantes alemães embarcam no Paraguai. (Foto: Mennonite Church USA Archives)

O fato de o Paraguai ser lembrado sob uma série de estereótipos dificulta uma visão mais ampla sobre o país vizinho ao Brasil. E a contribuição da imigração para sua população é um desses detalhes que passam despercebidos.

A abertura do Paraguai para a imigração foi possibilitada com a abertura jurídica e promoção de fluxos de imigração no fim do século XIX e início do século XX. O fato se deve ao término da Guerra do Paraguai (1864-1870), durante a gestão do presidente Francisco Solano López, que envolveu Brasil, Uruguai e Argentina. O Paraguai, que se refere ao conflito como “Grande Guerra”, acabou derrotado pelos países vizinhos, que formaram a chamada Tríplice Aliança. Em consequência veio uma pesada recessão econômica.

Foi com o intuito de reconstruir a economia e repovoar o território, que acabou perdendo centenas de milhares de vidas, que o país recorreu à abertura de suas portas aos imigrantes como política de Estado.

O artigo 6 da Constituição Nacional de 1870 do Paraguai estabelece que “se fomentará la inmigración americana y europea y no podrá restringir, limitar, ni gravar con impuesto alguno la entrada en el territorio paraguayo de los extranjeros que traigan por objeto mejorar las industrias, labrar la tierra e introducir y enseñar las ciencias y las artes”. Ele se complementa com o artigo 18, que concede o direito de “entrar, permanecer, transitar y salir del territorio paraguayo, libres de pasaporte”.

Traduzindo, os artigos tratam do estímulo à imigração, em livre trânsito, sem restrições nem cobranças de impostos. Isso desde que os imigrantes tenham como objetivo melhorar as indústrias, trabalhar sobre as terras agrícolas e desenvolver as áreas de ciência e arte.

Presença imigrante

Com a nova política, pouco a pouco, Paraguai atraiu seus primeiros imigrantes europeus e asiáticos. A princípio, com um número reduzido, mas que, contudo, contribuíram significativamente para o desenvolvimento econômico, social e territorial do país.

Não há números precisos oficiais, embora estimativas extraoficiais indiquem que ao menos 450 mil pessoas ingressaram no Paraguai pós-guerra.

Alemães, russos, ucranianos, poloneses passaram a se fixar em diferentes regiões, desenvolvendo as atividades rurais e criando pequenos povoados. Hoje em dia é possível identificar a instalação de empórios e centros urbanos frutos do trabalho das primeiras gerações de imigrantes. Sírios, libaneses, japoneses e coreanos também passaram a se estabelecer em áreas tanto urbanas quanto rurais.

Primeiros imigrantes alemães que se estabeleceram na cidade de Hohenau. (Foto: Prefeitura de Hohenau)

Imigrantes asiáticos, como os japoneses e sul-coreanos, também viram no Paraguai uma oportunidade para fugir da crise econômica que assolava suas terras.

Nos primeiros anos da década de 1950, no período pós-Segunda Guerra Mundial, começava a surgir uma onda de japoneses saindo de suas terras porque o Paraguai abria suas portas para receber imigrantes de países devastados pelos conflitos.  Na ocasião, o governo paraguaio assinou um Acordo de Imigração com o governo do Japão, possibilitando a entrada de 85.000 agricultores japoneses entre 1959 e 1989, tendo verifico um grande potencial para desenvolver a agricultura regional.

Já o fluxo migratório de sul-coreanos em destino ao Paraguai ganhou mais evidência após a Guerra da Coreia, que terminou no fim de julho de 1953. Em situação de extrema pobreza, muitos coreanos notaram o Paraguai como uma porta de esperança para o recomeço de uma vida decente – com possibilidades de conseguir empregos nas áreas rurais e fábricas têxteis, além de ter melhor acesso à alimentação. 

Imigrantes japoneses no Paraguai. (Foto: Discover Nikkei)

E no caso dos alemães? Desde 1903, após a implantação da política da abertura para imigrantes, o governo paraguaio tinha como foco os países que adotavam a língua alemã. Os alemães eram considerados “bons imigrantes” sendo eles estereotipados como disciplinados e industriosos, tanto que auxiliaram no desenvolvimento de países como os Estados Unidos, Argentina e Brasil. Além disso, a iniciativa paraguaia era bem aceita porque, naquela época, a Alemanha não era vista como uma potência imperialista, ao pé de países como Reino Unido e França.

Brasileiros no Paraguai

Os brasileiros chegaram ao país no início da década de 60, multiplicando por três o número da população imigrante no país, Segundo a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, houve um êxodo de milhares de camponeses brasileiros ao Paraguai principalmente entre 1975 e 1979.

Essas pessoas eram atraídas pelas “promessas de terras férteis e baratas no Paraguai e as mudanças ocorridas na agricultura brasileira, sobretudo com a implementação de uma política agrícola de modernização, que privilegiou a média e grande propriedade, provocando a desestruturação da pequena propriedade”.

O Paraguai é o país com a maior comunidade brasileira no exterior, atrás somente dos Estados Unidos. Estimativas da representação brasileira na capital, Assunção, contabilizam em torno de 300 mil pessoas. O Ministério das Relações Exteriores brasileiro, no entanto, alega não ter dados atuais sobre a comunidade brasileira no país vizinho.

Até a realização desta reportagem, não houve retorno das autoridades paraguaias em relação ao perfil atualizado de imigrantes no país. Dados referentes a 2018, divulgados pela imprensa paraguaia à época, indicaram a presença de 420.905 imigrantes.

De acordo com os dados paraguaios, a comunidade brasileira é a maior no país (cerca de 200 mil), seguida pela argentina, coreana, taiwanesa, chilena, boliviana e colombiana.


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