Projeto pan-americano faz radiografia crítica das migrações nas Américas sob a Covid-19

Projeto “(In)movilidad en las Américas”, tocado de forma voluntária por cerca de 60 pesquisadores de diferentes origens e formações, está disponível em português, inglês e espanhol

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: El proyecto “(In) Movilidad en las Américas” reúne a investigadores de dos países de las Américas, incluso Brasil. (Foto: Divulgación)

Como a pandemia do novo coronavírus (Covid-19) impacta as migrações não apenas no contexto de um país, mas de um continente inteiro? Dessa e de outras inquietações, partilhadas por dezenas de pesquisadores de todo o continente americano, surgiu o projeto “(In)movilidad en las Américas”, tocado de forma voluntária por cerca de 60 pesquisadores de diferentes origens e formações.

Lançado oficialmente em setembro, com conteúdo em inglês, espanhol e português, o projeto engloba pesquisadores que atuam na maior parte dos países da América, incluindo Brasil, nações caribenhas, Canadá e Estados Unidos.

A versão em português do projeto, que já está no ar, é tema de um evento online que acontece nesta segunda-feira (5). Maiores informações podem ser obtidas neste link.

‘Radiografia crítica’

O “(In)movilidad en las Américas” se propõe a fazer uma “radiografia crítica” das migrações no continente americano, mostrando o conflito existente entre a questão da mobilidade e as tentativas de controlar esse movimento.

Dessa forma, o projeto visa ainda jogar luz sobre conflitos e tensões que em geral costumam ficar ocultas ou são ignoradas pelos meios de comunicação e pelas políticas públicas.

Os dados são atualizados bimestralmente pelos pesquisadores, que se dedicam a essa ação coletiva de forma voluntária. Os recursos para manutenção do portal vêm da Universidade de Houston (EUA), na qual atuam ainda alguns dos especialistas envolvidos.

Essa radiografia das migrações na América é obtida a partir da coleta das reações dos Estados à pandemia, das situações de emergência vividas pelos imigrantes, das iniciativas da sociedade civil e dos próprios imigrantes, entre outros elementos.

O projeto mostra ainda que o contexto gerado pela Covid-19 não é suficiente para paralisar alguns dos principais movimentos migratórios notados atualmente no continente americano. Entre eles figuram a diáspora venezuelana e as caravanas que partem da América Central rumo ao México e Estados Unidos.

Pensando o Brasil

Por meio das informações coletadas pelos pesquisadores, o projeto permite fazer comparativos das restrições migratórias entre os países, ao mesmo tempo que permite fazer análises de um determinado Estado.

Na seção dedicada ao Brasil, há um compilado de informações que se referem desde as portarias que restringem a entrada de imigrantes às reações da sociedade civil para mitigar os efeitos da pandemia.

“O projeto obriga a pensar o Brasil num contexto continental, tanto nas particularidades como nas situações em comum. O mesmo se aplica a outros países”, resume Caio Fernandes, um dos pesquisadores da equipe Brasil da iniciativa.

Além de Fernandes, que atua pela UFRJ, também integram a equipe Brasil do portal os pesquisadores Iréri Ceja Cárdenas (UFRJ e Museu Nacional), María del Carmen Villarreal Villamar (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), Elisa Sardão Colares (UnB), Gustavo Dias (Universidade Estadual de Montes Claros) e Handerson Joseph (UFAP e Université d’État D’Haïti).

Protagonismo e resiliência

Além das restrições à mobilidade aplicadas sob o contexto da Covid-19, o projeto também mapeia as respostas que emanam da sociedade civil – incluindo dos próprios imigrantes para tentar mitigar os efeitos da pandemia.

Entre tais movimentos recentes estão a mobilização em torno da regularização migratória como resposta à pandemia e ações de solidariedade individuais ou coletivas de imigrantes, como distribuição de refeições, de cestas básicas, e atendimentos online. 

“O projeto faz também uma cartografia do cotidiano das lutas diárias dos imigrantes. O que percebemos é uma rede muito forte, de muitas instituições que já existiam e outras que surgiram ou reconfiguraram suas práticas para esse período. Ao mesmo tempo as instituições e os próprios imigrantes relatam desafios e vulnerabilidades sociais como saúde mental e isolamento social”, aponta a mexicana Iréri Ceja Cárdenas, da Equipe Brasil do projeto.

‘Mapa polifônico’

Outra vertente do “IMovilidad en las Americas” é o chamado “Mapa Polifônio”, que disponibiliza áudios com testemunhos diretos de imigrantes residentes em países da América. Um evento online dedicado especialmente a esse acervo de informação está agendado para para o próximo dia 26 de outubro.

Essa seção estreia com cerca de 50 relatos, devidamente autorizados pelas pessoas que partilharam suas experiências. Os testemunhos foram coletados à distância, por meio de mensagens de voz enviadas por WhatsApp, e estão nos idiomas nativos de cada migrante.

“É um relato especial para ter uma base de arquivo, com um fala especial dos imigrantes”, reforça Iréri, que também coordena o Mapa Polifônico. Um elemento que, segundo ela, ajuda a humanizar a iniciativa e a reforçar o caráter humano do próprio fenômeno migratório.


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