Quênia planeja fechar campos de refugiados e pode desalojar 600 mil pessoas

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Vista geral do campo de refugiados de Daddab, no Quênia, o maior do mundo. Crédito: ACNUR

Crédito da imagem representativa: ACNUR

Por Rodrigo Borges Delfim

O governo do Quênia começou uma operação para fechar os campos de refugiados em operação no país. O fato preocupa a comunidade internacional, já que cerca de 600 mil pessoas devem ficar desalojadas e com futuro incerto.

Vizinho de países com conflitos internos, como Somália e Sudão do Sul, o Quênia é uma das nações que mais abrigam refugiados no mundo. É lá ainda que ficam dois dos maiores campos de refugiados em operação no mundo: Daddab, o maior do planeta, com cerca de 330 mil pessoas (um número maior, por exemplo, que a população de Cuiabá, capital do Mato Grosso), sendo a maioria da vizinha Somália; e Kakuma, o terceiro maior do mundo, que conta com 190 mil pessoas – a maior parte delas sul-sudanesas.

Em nota, o governo queniano justifica os fechamentos por motivos econômicos, sociais e de segurança nacional. O campo de Daddab, por exemplo, é tido pelas forças de segurança como uma “ameaça” ao país, que teme a infiltração de extremistas do grupo radical Al-Shabab, que controla parte da Somália e de quem fogem milhares de somalis para o Quênia. Além disso, o governo alega que os campos servem como base para o contrabando de armas.

Vista de parte do campo de refugiados de Daddab, que pode ser fechado pelo governo queniano. Crédito: Brendan Bannon/IOM/UN Refugee Agency
Vista de parte do campo de refugiados de Daddab, que pode ser fechado pelo governo queniano.
Crédito: Brendan Bannon/IOM/UN Refugee Agency

A ideia de fechar campos de refugiados não é nova. No ano passado, por exemplo, depois do ataque terrorista contra uma universidade na cidade de Garissa (feito pelo grupo Al-Shabbab), o governo queniano já tinha ameaçado fechar Daddab. No entanto, desta vez Nairóbi dissolveu o DRA (Department Refugee Agency), departamento encarregado de registrar e ajudar os refugiados no país, tem acelerado os processos de repatriação e suspendeu a aceitação de novos solicitantes de refúgio.

Dados da Jesuit Refugee Service (JRS), ONG que atua junto a refugiados, mostram que 56% dos refugiados no Quênia são mulheres, crianças e jovens.

Reação internacional

O anúncio foi feito na tarde do último dia 6 de maio, uma sexta-feira, o que retardou respostas da comunidade internacional contra a medida.

Já na segunda-feira (9), o Acnur (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) pediu ao governo do Quênia que reconsidere a decisão de fechar os campos. “O Quênia tem feito um papel crucial no centro e leste da África durante quase um quarto de século, proporcionando asilo a pessoas que fugiam de perseguições e guerras”, declarou Adrian Edwards, porta-voz da agência.

Para a Anistia Internacional, a decisão do governo queniano foi “descuidada” e alertou que ela poderá causar o retorno involuntário de milhares de refugiados para seus países de origem  – países esses que ainda enfrentam situações de instabilidade, colocando em risco a vida dessas pessoas que já vivem em vulnerabilidade.

Em nota, a JRS também lembrou o papel cumprido pelo Quênia ao longo dos últimos anos e declara entender a preocupação com a segurança nacional. No entanto, a ONG pede que o país não siga o mau exemplo dado pelas nações europeias, que têm respondido à crise humanitária atual com fechamentos de fronteiras, e busque apoio junto à comunidade internacional para manter o trabalho em relação aos refugiados. “O Quênia não deveria seguir esse caminho, mas sim continuar a receber os refugiados e buscar mais suporte da comunidade internacional para manter essa tarefa”.

Apesar dos apelos e críticas da comunidade internacional e ONGs, o governo do Quênia continua firme na ideia de fechar os campos de refugiados. Pior para as cerca de 600 mil pessoas que ficam assim com um futuro incerto.

Com informações de Ansa, Daddab Stories, JRS e Acnur

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