Refugiados palestinos, uma longa história ainda distante de terminar

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Por Gessica Brandino e Glória Branco

Quando Mouhmad Izhaman, um jovem palestino de 33 anos, é questionado sobre sua infância em um campo de refugiados em Tulkarm, na Cisjordânia, as lembranças são de um garoto vivendo entre o medo e a atípica normalidade.

“Nasci num campo de refugiados onde o que menos se tem é segurança. De certo ponto de vista, minha infância foi normal, mas ser normal no Oriente Médio significa conviver com a guerra. Bombas estouram, pessoas morrem e nossa rotina estava submersa nesse cenário. Morava a 20 minutos de Jerusalém, mas cresci como um estranho e distante vizinho que de alguma forma vive no mesmo território, mas não compartilha da mesma vida, da mesma história. Meu mundo, apesar de próximo, nunca foi o mesmo dos meninos judeus”.

Expulsos de suas casas há 67 anos, quando foi criado o Estado de Israel, a situação dos refugiados palestinos é uma das mais antigas do mundo e um dos pontos centrais do conflito entre israelenses e palestinos. Parte dessa história pode ser conhecida pela mostra fotográfica “A Longa Jornada”, inaugurada em 24 de janeiro no Centro Cultural São Paulo (CCSP) e que vai até 15 de março.

Organizado pela Agência de Socorro e Obras Públicas das Nações Unidas para os Refugiados Palestinos no Oriente Próximo (UNRWA) e pelo Centro de Informação da ONU (UNIC Rio), o evento conta com o apoio da Prefeitura de São Paulo – por meio das Secretarias de Cultura (SMC) e de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) –, do Atelier Marko Brajovic e do Centro de Cultura Árabe (ICarabe).

Foto da exposição "A Longa Jornada", que começou em 25/01 em São Paulo. Crédito: Glória Branco
Foto da exposição “A Longa Jornada”, que começou em 25/01 em São Paulo.
Crédito: Glória Branco

A exposição é composta de 40 fotos e cinco curtas-metragens que relatam a maior e mais prolongada crise de refugiados. As imagens fazem parte do arquivo da UNRWA e buscam levar o espectador a ser testemunha ocular do mais longo caso de migração forçada da história moderna, as violações de direitos humanos perpetradas e os desafios enfrentados pelos refugiados da Palestina.

A abertura da mostra contou ainda com um debate no qual foi discutida a situação dos refugiados palestinos e como o Brasil deveria atuar em relação ao tema.

“A história dos refugiados são tristes, trágicas e catastróficas. Como sujeito singular e único, a tragédia acompanha insistentemente a vida dos pais e filhos; homens, mulheres e crianças que lutam para sobreviver, para conseguir alimento. Se imagine no lugar de um refugiado, isso para mim é a forma de sofrimento mais profunda que um ser humano pode suportar”, reflete o professor e presidente do Instituto de Cultura Árabe (ICarabe), Salem Nasser, durante o evento.

O número de refugiados palestinos assistidos passou de 924 mil em 1950 para mais de 5,35 milhões em 2014. A ocupação militar, a expansão territorial israelense e os ataques aos territórios palestinos resultam num fluxo contínuo de pessoas deslocadas.

Exposição no Centro Cultural São Paulo (CCSP) vai até 15 de março. Crédito: Glória Branco
Exposição no Centro Cultural São Paulo (CCSP) vai até 15 de março.
Crédito: Glória Branco

“O conflito judaico-árabe é uma ferida aberta para a comunidade internacional e, especialmente, para a ONU. Uma guerra sem solução eminente que dolorosamente é um fracasso para nós”, declarou Giancarlo Summa, diretor do UNIC Rio.

URNWA: atuação, financiamento e limitações

Criada em 1949, por meio da Resolução 302 da Assembleia Geral das Nações Unidas, UNRWA presta assistência humanitária a essa população deslocada. Ela atua em 58 campos de refugiados localizados em cinco regiões: Faixa de Gaza, Cisjordânia, Jordânia, Líbano e Síria. Neles, a agência oferece serviços de assistência social, saúde, educacionais, microfinanciamento e auxílio emergencial, proteção e infraestrutura, além de buscar o aperfeiçoamento dos campos.

Os palestinos que vivem nos campos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza sofrem com as restrições impostas por Israel. Os refugiados dependem do trabalho no país, mas para conseguir um emprego precisam vencer o bloqueio israelense, com checkpoints e autorização para entrada. O desemprego é a consequência para a maioria, que vive em situação precária e depende da ajuda humanitária da agência da ONU. Nas duas regiões, a UNRWA conta com programas emergenciais para tentar suprir a demanda da população.

Em 2013, a URNWA teve um orçamento de US$ 675 milhões. Mas esse orçamento é dependente de doações, principalmente de países-membros da ONU, e é afetado pela crise global atual. Além disso, os conflitos nas áreas de atuação da agência não poupam suas instalações.

O conflito na Síria, por exemplo, atingiu campos no país e provocou a transferência de cerca de 270 mil refugiados palestinos para a Jordânia e Líbano. Já na Faixa de Gaza, o programa de assistência aos que tiveram suas casas danificadas ou destruídas após a ofensiva de Israel em 2014 é orçado em US$ 720 milhões, dos quais menos de 20% foram arrecadados. Em consequência, em pleno inverno, a agência relata que há pessoas dormindo sobre entulhos e que crianças já morreram de hipotermia.

Críticas

Apesar do longo histórico de atuação, a URNWA não fica a salvo de críticas. A ausência de uma prestação de contas feita por uma empresa internacional independente fez com que a UNRWA fosse criticada em 2006 pelo Congresso dos Estados Unidos. Embora não se tenha detectado corrupção generalizada, foram denunciados casos de favoritismo e parcialidade nas decisões sobre contração de pessoal.

Sem autoridade para negociar ou resolver a questão dos refugiados palestinos, a UNRWA é acusada de impedir o reassentamento dos refugiados palestinos, mesmo tendo feito tentativas que não deram resultado diante da rejeição dos países em receber os refugiados. A população palestina da Faixa de Gaza, por exemplo, é formada basicamente por jovens menores de 15 anos e por idosos com mais de 65, o que reforça a dependência das ações.

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