São Paulo, 460 anos

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Em 1929, quando São Paulo ainda estava longe de ser a maior cidade brasileira, o escritor Guilherme de Almeida publicou oito artigos no jornal O Estado de São Paulo, cada um sobre uma comunidade migrante existente na futura metrópole. Mais tarde, esses textos foram reunidos no livro Cosmópolis, em uma mostra da participação dos migrantes na formação e desenvolvimento de São Paulo.

Ou seja, celebrar os 460 anos de São Paulo e esquecer os “forasteiros” que ajudaram e ainda ajudam a construir a atual maior cidade do país é um verdadeiro sacrilégio. O idioma e os migrantes podem ser diferentes daqueles retratados por Guilherme de Almeida, mas a pluralidade de crenças, idiomas e costumes continua mais viva do que nunca. E aproveitar e valorizar esse potencial social e cultural é um dos grandes desafios para a cidade e seus moradores (nativos ou não) e administradores.

Vista aérea dacidade de São Paulo, que completou 460 anos. Crédito da imagem: Wikimedia Commons
Vista aérea da cidade de São Paulo, que completou 460 anos.
Crédito da imagem: Wikimedia Commons

A metrópole ainda precisa tratar melhor aqueles que chegam de outras regiões do país e do mundo para iniciar uma nova vida ou mesmo buscam uma experiência temporária por aqui. O triste incidente ocorrido com um jovem chinês no metrô de São Paulo neste ano e certos preconceitos ainda enraizados na mentalidade de muitos paulistanos são uma amostra do tamanho do desafio existente. Felizmente, porém, são visíveis os progressos obtidos pelas comunidades migrantes e seus defensores na sociedade civil, no poder público e até mesmo na mídia.

São Paulo hoje conta com uma coordenação voltada especificamente para os migrantes na Secretaria Municipal de Direitos Humanos, permitirá que imigrantes participem e tenham representantes nos Conselhos Participativos das subprefeituras e pouco a pouco conquista reconhecimento para suas atividades culturais – a Alasitas, ocorrida em diferentes locais da cidade no último dia 24, é um bom exemplo. Isso para citar apenas alguns avanços.

O livro Cosmópolis ainda serve de inspiração para um grande projeto envolvendo a Prefeitura de São Paulo e o Instituto de Relações Internacionais da USP, que tem como objetivo mapear, estudar os migrantes em São Paulo e ajudar na elaboração de políticas públicas na área.

Pouco a pouco a abordagem do tema pela mídia também mostra avanços, como a abolição do termo “ilegal” em certas matérias sobre imigrantes sem documentação e também um maior destaque para os anseios e realizações dos migrantes – sem perder de vista as dificuldades que de fato vivem. O especial publicado pelo portal UOL no último dia 21 é um exemplo bem interessante de como o tema pode ser abordado com qualidade pela mídia.

Imigrantes em São Paulo veem sonho esbarrar em preconceito e dificuldades

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São Paulo é de fato um resumo do mundo, uma verdadeira Cosmópolis como mostrou Guilherme de Almeida ainda no começo do século passado -e o novo projeto da Prefeitura e da USP deve resgatar e perpetuar. Um caldeirão de riquezas sociais e culturais que ainda precisa ser melhor apreciado por seus moradores e despido de preconceitos que há muito já perderam qualquer sentido. Mas alguns dos exemplos listados acima mostram que as barreiras entre nativos e migrantes podem muito bem ser derrubadas. Reivindicar e trabalhar por uma cidade mais humana para seus moradores, independente do local de origem, é o melhor presente que São Paulo e seus habitantes podem ter.

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