Ser mãe e migrante é uma experiência de confrontamento com a incerteza

A experiência de ser mãe migrante deve ser reconhecida em sua pluralidade para além dos estereótipos

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(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Por Mariana Kuhlmann*

É inegável que discorrer sobre a experiência da maternidade é uma tarefa complexa, sobretudo em uma sociedade majoritariamente patriarcal. Um estudo amplamente divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) constata que a chegada de uma criança interfere 8 vezes mais na vida profissional das mulheres do que na dos homens. Tendo isso em vista, cabe reconhecer que discorrer sobre a experiência da maternidade migrante é uma tarefa ainda mais complexa.

Um levantamento da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) aponta que cerca de 35% das mulheres migrantes na Europa ficam fora do mercado de trabalho por razões familiares.

Além da necessidade de reestruturar a própria carreira profissional, com vistas a gerar a renda mínima necessária que garanta um cotidiano digno, ser mãe e migrante é uma experiência de confrontamento com a incerteza. Simples tarefas rotineiras, como subir no ônibus certo, fazer o mercado do mês, comprar um remédio para febre infantil ou compreender as diretrizes fornecidas pela escola dos filhos são dificultadas por barreiras linguísticas e culturais.

Inicialmente é preciso que haja o reconhecimento de uma série de desigualdades de condições que permeiam o contexto brasileiro e que atravessam os deslocamentos humanos. Segundo o Fundo da População das Nações Unidas, 50% dos deslocamentos humanos é protagonizado por mulheres e crianças. Em eventual situação de vulnerabilidade social, conforme essas mulheres estão suscetíveis a propostas de empregos mal remunerados, violência sexual, privação de liberdade e situação de rua. Apesar desta constatação, de suma importância, percebe-se duas questões: a falta de dados e a falta de espaço de fala.

Reconhecimento e pluralidade

Quando se aborda a realidade das mães migrantes, percebe-se que os dados são ou rasos, ou fragmentados ou se encontram dispersos em pilhas e pilhas de gráficos, que apresentam uma linguagem, em alguns casos, inacessível e vaga. Também percebe-se a falta de atualização desses dados. Por exemplo: sabe-se que a maior comunidade de mães migrantes no Brasil é composta por bolivianas, seguida respectivamente por chinesas, argentinas e haitianas.

Também é sabido que essas mães se concentram na faixa etária dos 30 aos 40 anos. Mas a quantificação da realidade dessas mulheres, no entanto, não é acompanhada por iniciativas que promovem a oportunidade para que os espaços de discussão sejam efetivamente ocupados por elas. 

É importante que as suas narrativas sejam o respaldo para que ações concretas fortaleçam redes de apoio e acolhimento. Ou seja: fala-se sobre essas mulheres — mas as falas delas não são recebidas por uma escuta atenta e horizontal. Quem são elas? O que precisam? A experiência de ser mãe migrante deve ser reconhecida em sua pluralidade para além dos estereótipos.

Os coletivos de mulheres migrantes têm assumido um importante e potente papel de resistência nesta luta. Mas visivelmente, ainda há um longo caminho a ser percorrido pelas iniciativas e organizações preocupadas com a promoção dos direitos dos migrantes, para que o protagonismo dessas mães seja efetivamente viabilizado. O exercício de autorreflexão de nossas instituições, nesse particular, nunca foi tão necessário.

*Mariana Kuhlmann é graduada e mestre em Letras pela Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Atualmente cursa mestrado em Gestão de Educação Internacional e Liderança na Pädagogische Hochschule Ludwigsburg/Helwan University Cairo (EPOS-DAAD). Membro do ProMigra – Projeto de Promoção dos Direitos de Migrantes da Faculdade de Direito da USP (FDUSP).


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