Um ano após Aylan, situação de migrantes e refugiados continua a fazer novas vítimas

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Descanse em paz, Aylan. Crédito: Europe says OXI

Por Rodrigo Borges Delfim

Até parece que foi ontem que a foto de uma criança morta em uma praia na Turquia chocou o mundo. Era o menino Aylan, sírio de origem curda que caiu de um dos vários botes que faziam na travessia entre Turquia e Grécia.

A morte de Aylan não tinha sido a primeira. E tampouco foi a última.

Um ano depois, Aylan continua sendo um dos símbolos de uma crise humanitária que se agrava a cada dia. Já gerou e continua a gerar novas vítimas cujos nomes e histórias se perdem em desertos, mares, montanhas ou em qualquer momento da travessia de um lugar para outro. Não é de hoje que estudos, organizações humanitárias, indivíduos, agências de notícias e outros meios denunciam essa realidade. Não é de hoje que pessoas que se deslocam em busca de uma vida melhor – ou simplesmente para preservá-la – acabam encontrando justamente a morte da qual tanto fugiam.

Mas o choque com fotos de crianças mortas ou feridas, ou mesmo de migrantes que arriscam a própria vida na esperança de salvá-la, já não causa o mesmo efeito. É como se tais cenas – que são na verdade a ponta do iceberg do que acontece de fato – se tornassem naturais, corriqueiras, previsíveis…  Ou até pior: se tonassem aceitáveis. Um misto de indiferença e naturalização da tragédia, mitigado em muitos casos pela distância geográfica em relação aos centros nervosos atuais desses grandes deslocamentos humanos.

A comoção gerada em torno de Aylan na época foi como um soco no estômago de uma sociedade global que insistia em ignorar os dramas e mortes que acontecem nas rotas migratórias – não importa se no mar Egeu, no Mediterrâneo, no oceano Índico, no deserto do Saara ou entre México e EUA. O efeito do soco passou, mas as mazelas vividas por aqueles que são obrigados a apostar na migração como forma de sobreviver não passaram. Pelo contrário, só pioraram – tanto a ignorância da sociedade global em geral como as políticas aplicadas à mobilidade humana.

Existem lampejos honrosos de simpatia e apoio, como a bela recepção e o apoio à delegação de refugiados nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. No entanto, a visão global sobre as migrações no mundo continua sendo negativa, como mostra pesquisa divulgada pelo Instituto Ipsos em agosto deste ano. Essa visão negativa ajuda a embasar políticas cada vez mais restritivas mundo afora, nas quais a migração é encarada como uma questão de soberania nacional, de segurança, como uma ameaça.

E tem ainda os usos desses fluxos migratórios para fins políticos ou para justificar medidas xenófobas e nacionalistas. O governo da Turquia, por exemplo, fez um acordo com a União Europeia no qual se propõe a “segurar” refugiados em seu território em troca de ajuda financeira e isenção de vistos para cidadãos turcos – e não se acanha em ameaçar com a quebra do acordo caso a UE não elimine os vistos para os turcos. Países erguem cercas, muros e outras barreiras que julgarem necessárias para brecar o que chamam de “invasão”. Há ainda os centros de detenção de migrantes, os campos de refugiados à beira do colapso…

Falando em campos de refugiados, embora os holofotes se concentrem na Europa e Oriente Médio, em outras áreas do planeta a situação e igualmente ou até mais grave. Os campos de refugiados do Quênia (incluindo Daddab e Kakuma, dois dos maiores do mundo) estão com os dias contados. Para novembro o governo queniano prevê o fechamento de todos os campos do país, o que deve atingir cerca de 600 mil pessoas – a maioria delas da Somália e do Sudão do Sul.

Existe forma de parar com os fluxos migratórios? A resposta é não, porque se trata de um movimento natural da humanidade, que transforma as sociedades ontem, hoje e sempre. Acontece que ele é intensificado por conflitos, desastres ambientais, situações de pobreza e perseguições, entre outros fatores. Ou seja, a migração, que é e deveria ser vista como um direito humano, acaba se tornando uma das poucas saídas possíveis para sobreviver. E essa sobrevivência se torna uma espécie de loteria, de roleta russa.

Como mudar esse quadro? São necessárias ações concretas, pressão sobre os governos para uma política que preze o ser humano, o apoio a ações – individuais e coletivas, públicas ou privadas – que valorizem a diversidade, o combate diário a ideias e estereótipos xenófobos e discriminatórios, entre outras. Combinadas, essas ações e políticas mais humanas têm potencial para ajudar nessa mudança.

É preciso transformar a indignação com a situação desumana daqueles que se deslocam em força para agir. É o mínimo que o mundo ainda pode fazer para evitar destinos trágicos em Aleppo, Kobani, North Kivu, Daddab, Lampedusa, entre outros. O desafio está lançado há muito tempo, mas ainda são poucos os que se propõem a arregaçar as mangas.

 

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