Um olhar migrante sobre o Dia da Visibilidade Trans

Dia da Visibilidade Trans é lembrado no Brasil desde 2004 e também ajuda a refletir sobre pessoas que migram devido à discriminação que sofrem pela mudança de gênero

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Bandeira que simboliza o transexualismo. (Foto: Divulgação)

“A lógica é simples: quando encarna do útero de Maria, Ele transgride o gênero divino e assume o humano. Ou seja, originalmente Ele, Jesus, era de um jeito e, depois, assume outra condição; assim como toda pessoa Trans faz durante a vida… A gente vive no País que mais mata pessoas iguais a mim e eu ainda me proponho a ser quem eu sou na religião”

Assim fala Alexya Salvador, professora de português, vice-presidente da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas e pastora da ICM – Igreja da Comunidade Metropolitana – congregação evangélica. Primeira reverenda transexual de uma igreja cristã na América Latina, a professora paulista será ordenada na Semana da Visibilidade Trans (com escolta policial, por haver recebido ameaças fascistas).

No Brasil, anos atrás, o pernambucano Alexandre cortava meu cabelo. Um dia, almoçando em Barcelona, a vi entrar no restaurante brasileiro Intertrópic, onde eu almoçava. Seu “novo nome” já era Alexandra, com A no final. Perguntei por que não havia mudado para um nome “diferente” como Michele ou Susy – como exemplo, usei o nome de duas colegas na mesma situação.

Alexandra disse que gostava tanto do seu nome, com A ou com E, quanto gostava de si mesma. Compreendi perfeitamente. Conheci Alexandre em tempos de escola, além de sermos vizinhos. E não sei por que, naquele, lembrei-me de como já o compreendia como uma pessoa, no mínimo, decidida.

Semana passada, conheci Luciana (nome fictício; os outros não o são). “Bem casada” (faz questão de ressaltar), agora que já não exerce mais o trabalho sexual, quer ajudar brasileiras Trans a enfrentar o mesmo processo de mudança de nome pelo qual passou.

“O caminho das pedras”, tal como me explicava: conhecer a nova legislação brasileira que possibilita a mudança de nome, especificamente no caso das pessoas que se decidem por esse processo. Passei-lhe o contato da associação casadagente.org, satisfeitos – ela e eu – de que sentimo-nos com aquele delicioso gostinho de estar ajudando alguém.

No Natal, fui apresentado a Nataly. Uma brasileira que ajuda brasileiras (Trans) em situação de vulnerabilidade social: uma amiga hospitalizada em estado grave e outra amiga “em situação de rua” (tal como explicava o papel que trazia em mãos, emitido pelo serviço social de uma ONG conveniada com a Prefeitura de Barcelona).

Nataly faz parte de um grupo de pessoas voluntárias da paróquia de Sant Felipe Neri. Explicou-me que no Rio de Janeiro onde nasceu nunca antes havia se sentido tão bem acolhida por uma comunidade religiosa. Em Barcelona, emociona-se ao falar do acolhimento carinhoso desta sua nova “família”.

Por isso, em gratidão (“sororidade natalina”, disse-me, enxugando lágrimas para logo abrir um sorriso imenso no rosto), decidiu ajudar todas as colegas que houvessem passado pela mesma situação de desamparo que ela havia vivido quando decidiu emigrar à Europa.

No Brasil, país onde a cada dos dias, estatisticamente (este é um dado empiricamente verificado), uma pessoa transexual é assassinada, há sérios indícios – além de indubitáveis análises de ciência social – de que a incitação à homofobia por parte da própria Presidência da República fará com que esse número alcance indicadores ainda mais alarmantes.

Não deverá estranhar, portanto, ninguém que conheça, como eu, o crescente número de exílios trans – brasileiros – que se percebe em tempos bolsonarianos (neofascistas) em todas as cidades europeias.

Mães pela Diversidade, um reconhecido grupo dedicado aos direitos humanos em relação às questões de diversidade no gênero e opções de vida em sociedade, informou-me, recentemente, da última barbaridade cometida no meu Estado, Pernambuco: um cabeleireiro, na cidade de Moreno, encontrado com a cabeça situada a metros de distância do seu corpo nu, assassinado com “requintes de crueldade” (segundo o laudo policial). 

O mais impressionante é o depoimento jornalístico de um parente seu: “era uma pessoa sem problemas com os outros”. Se fosse, então, uma pessoa “com problemas”, merecia ser assassinada?

Por tudo isso, o dia 29 de janeiro foi consagrado como Dia da Visibilidade Trans. Sua origem vem da data de lançamento de uma campanha pioneira iniciada no ano 2004 pelo Ministério da Saúde, no Governo Lula: Travesti e Respeito: já está na hora dos dois serem vistos juntos.

Em Barcelona, no dia 18 de janeiro, comemoramos o primeiro aniversário de uma iniciativa oficial da Prefeitura (Ajuntament de Barcelona) que recebeu indicação de importantes prêmios europeus: a inauguração do Centro LGBTI, em pleno coração da cidade governada pela prefeita Ada Colau. Colau recebeu da associação Coletivo Brasil Catalunya um diploma de reconhecimento pelas iniciativas públicas de tratamento das questões de gênero durante sua gestão.

Durante a cerimônia de primeiro aniversário do Centro LGBTI (que também sofreu ameaças de ataques pintadas nas suas paredes), apresentou-se, em meio a muitos aplausos, Amanda Araújo, ARTivista, modelo, poeta… Queres conhecê-la? Só ver a entrevista completa abaixo, onde tratamos de este e de outros interessantes temas. Com muito orgulho. E dignidade.

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