Vida dos brasileiros no exterior ficará pior após veto dos EUA a viajantes a partir do Brasil

Decisão de vetar voos do Brasil reflete falhas na condução da pandemia de coronavírus e deve ter impactos negativos sobre brasileiros que vivem nos EUA e em outros países

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Polícia Federal suspendeu entrega de passaportes e de documentos migratórios devido ao coronavírus
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil - 10.jul.2015

Atualizado às 15h40 de 25.mai.2020

Seja para viagens simples, intercâmbio ou para processos migratórios, brasileiros devem ter uma vida bem mais difícil no exterior a partir de agora. Assim veem tanto pesquisadores como brasileiros residentes nos Estados Unidos a partir do anúncio feito no último domingo (24) pelo presidente Donald Trump, que decidiu proibir a entrada no país de viajantes procedentes do Brasil nos últimos 14 dias.

Trump concretizou o que já vinha ensaiando nas últimas semanas, na esteira da escalada de casos confirmados de coronavírus. O veto passa a valer a partir desta próxima sexta-feira (29).

“Eu me preocupo com tudo, eu não quero pessoas vindo para cá e infectando nosso povo”, disse o americano a jornalistas na Casa Branca no último dia 19, referindo-se especificamente ao caso brasileiro. “Eu também não quero que o povo lá [no Brasil] fique doente. Nós estamos ajudando o Brasil com respiradores. O Brasil está tendo alguns problemas, sem dúvida.”

De acordo com dados do Ministério da Saúde, o Brasil já contabiliza 363 mil casos confirmados de coronavírus, com 22.666 vítimas fatais. Tais números fazem do país o segundo no mundo mais afetado pela pandemia, atrás somente dos próprios EUA.

Por meio de nota, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que ambos os países “têm mantido importante cooperação bilateral no combate à covid-19”. E que a decisão da Casa Branca se dá por “motivos técnicos”.

“A decisão do governo dos Estados Unidos de suspender temporariamente a entrada de viajantes provenientes do Brasil, anunciada hoje, tem teor idêntico a medidas anteriores que suspenderam a entrada de viajantes de outros países afetados pelo Covid-19, como China, Irã, Reino Unido e Irlanda, bem como os países que fazem parte do Espaço Schengen da União Europeia”.

Vale lembrar que o Brasil também suspendeu, desde o final de março, o ingresso de pessoas de outros países em seu território, por meio de portaria — prorrogada na última semana por mais 30 dias.

As exceções ficam por conta de brasileiros natos ou naturalizados; imigrantes que tenham residência permanente no Brasil; profissionais estrangeiros em missão que estejam a serviço de organismo internacional; passageiros em trânsito internacional, desde que não saiam da área internacional do aeroporto e que o país de destino admita o seu ingresso; funcionários estrangeiros acreditado junto ao Governo brasileiro; além de estrangeiros que sejam cônjunges, conpanheiros, filhos, pais ou curadores de brasileiros; que tenham o ingresso autorizado pelo governo brasileiro ou sejam portadores do Registro Nacional Migratório.

Incertezas

Residente em Los Angeles há dez anos, a antropóloga Michelle Medrado está atualmente no Brasil e vive a incerteza gerada pelas políticas e contradições dos governos dos dois países.

Ela possui green card —como é conhecida a autorização para residência permanente no país —, mas não tem informações claras do governo dos EUA sobre como vai terminar sua viagem de regresso para casa, agendada para os próximos dias.

“Tem uma falha no processo americano, de como informar isso para os residentes permanentes, e tem a ausência de entendimento de como essa viagem funcionaria por aqui”, disse ela, que integra o Coletivo Por Um Brasil Democrático de Los Angeles.

Medrado credita a postura da Casa Branca à política fracassada do governo Bolsonaro de conter o vírus no Brasil. E vê tal situação com tristeza, pois a saída do Brasil pode significar, entre outros efeitos, uma despedida definitiva de entes queridos, a depender dos efeitos do Covid-19.

“Sair agora é não saber quando eu retorno, e pensando que nessa situação tem pessoas que a gente pode não voltar a ver. É bastante triste, uma restrição que deixa a gente um pouco sufocada.”

Imagem negativa e estigmatização

A postura de Bolsonaro em relação à pandemia tem sido alvo de críticas e repulsa em toda a comunidade internacional. E além das incertezas geradas pela pandemia, há o temor que brasileiros que vivem em outros países —e não somente nos EUA — também sintam os efeitos dessa visão negativa.

“O brasileiro — seja ele turista, viajante a trabalho, estudante em intercâmbio ou mesmo como migrante — vai ser impactado. A irresponsabilidade de Bolsonaro tem custado vidas hoje. E a médio e longo prazo seguirá prejudicando a vida de brasileiros”, ressalta Camila Asano, Diretora de Programas da Conectas Direitos Humanos.

“Em outros tempos é difícil que notícias sobre o Brasil saiam nos grandes noticiários, nos jornais, nos programas de TV e rádio. Mas agora infelizmente o Brasil está nas notícias em toda parte, chegando a pessoas que não tinham acesso a informações sobre o país antes. E a imagem que vai ficar é muito negativa. Não me surpreende se isso passar a afetar como as comunidades brasileiras nos EUA são tratadas”, ressalta Ana Cernov, cientista social brasileira residente em Los Angeles e integrante do mesmo coletivo que Medrado.

Para o geógrafo Renato Balbim, professor visitante da Universidade da Califórnia em Irvine, xenófobos que já associavam o coronavírus à China agora ganham elementos para fazer o mesmo em relação aos brasileiros.

“Isso é péssimo para as pessoas que vivem fora, nos EUA e em outros países. Foram anos de trabalho intenso para melhorar a imagem do brasileiro no exterior, que era associada apenas ao futebol, carnaval e sexo. As imagens que podem ser criadas agora, com uma política como essa, que visa de imediato apenas os eleitores do Trump na Flórida, poderão durar por anos”.

Balbim também vê o veto de Trump como um recado político a seu aliado sul-americano, apesar das afinidades ideológicas entre os ocupantes da Casa Branca e do Palácio do Planalto.

“A restrição é um ato político, diplomático, e passa o seguinte recado: ‘não nos associamos com países como esse, para além das similaridades que possam ser apontadas, das cloroquinas etc, nos distinguimos, estamos nos salvando deste mal’. O Brasil é um pária no mundo e isso não está relacionado ao número de casos do coronavírus”.

Para Alvaro Lima, pesquisador da Boston Planning and Development Agency e estudioso da comunidade brasileira nos EUA, a decisão do governo Trump representa ainda o fracasso da política externa e interna tocada pelo atual governo brasileiro.

“Na infame reunião presidencial, o ministro tresloucado do Itamaraty [Ernesto Araújo], diz que agora temos uma posição de influenciadores das políticas internacionais. Não conseguimos sequer respeito. O que realmente importa é a incompetência do governo brasileiro de enfrentar a crise de saúde pública e salvar a vida de milhares de brasileiros…”, desabafa.

Apoio questionado

Bolsonaro contou com grande apoio da comunidade brasileira no exterior nas eleições de 2018, obtendo 61% dos votos válidos no primeiro turno e 71% no segundo.

Embora o prestígio do capitão reformado continue alto junto aos brasileiros emigrados, já há quem repense o voto dado na eleição presidencial.

Reportagem do MigraMundo do último dia 18 de maio mostrou que a postura assumida pelo presidente diante da pandemia é o principal motivo para a mudança de opinião em relação ao eleito.

Antes ainda, em março de 2019, o MigraMundo mostrou os sentimentos diversos gerados na comunidade brasileira no exterior sobre declarações do presidente eleito em relação a imigrantes. Ao lado de Trump, que tem como modelo, Bolsonaro chegou a dizer que “a grande maioria dos imigrantes em potencial não tem boas intenções nem quer fazer o bem ao povo americano”.


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